Boa vontade de estranhos
Mortos relatam ao Viletim o sentimento de terem seus CPFs violados por agências bancárias
Se é notícia, a gente trata aqui com profundidade, para que os leitores do Viletim possam ter acesso à verdade nua e crua. Muitas vezes, verdades nem tão cruas assim, mas nuas até por demais.
Todo mundo sabe que agências bancárias que intermediam empréstimos consignados a aposentados pelo INSS acabaram liberando contratos para mais de 2.000 mortos. Novidade zero nisso, certo?
Em uma situação como esta, tão além do bem e do mal, é fundamental conversarmos com os beneficiados para saber da necessidade da grana, mesmo estando mortos.
As respostas surpreendem. Antes de avançarmos, é fundamental ao leitor saber que todos os entrevistados acharam melhor permanecer no anonimato. Por isso não citamos seus nomes.
Mesmo mortos, eles entendem que seus nomes não devem ser embaralhados com agentes de Vorcaro e Cia. para não macular imagem íntegra preservada durante uma vida.
Alguns mortos disseram que ficaram sabendo do empréstimo por parentes, em oração. Esses parentes perceberam que o sistema de cadastramento para o empréstimo não cruzava os dados por algum motivo estranho, então resolveram liberar as informações do tio ou vô falecido para as agências e, assim, se beneficiar.
“Já que morri, que meu sobrinho, aquele que, com todo carinho, considero um braço curto, possa ter um mínimo de prazer nessa vida com o meu dinheiro”, disse o morto 1. “Se é que o dinheiro foi para ele”, completou.
Outros mortos disseram à redação que tinham mesmo a intenção de voltar à vida só para ver o STF pegando fogo e tendo Tofolli que defender a vida após a morte, além do depoimento de Vorcaro à CPMI do banco Master, como delator. Quanta gente, meu Deus.
“Para isso, precisavam de alguma grana no paraíso, digo, paraíso fiscal, para sacar durante a viagem”, observou.
“De paraíso fiscal, Vorcaro entende, senão ele não faria algo tão grandioso assim, envolvendo até a gente que está aqui, do outro lado, não é mesmo?”, disse o morto número 2.000.”
Já o morto 171 deixou claro que estava com medo de morrer sem passar sua senha à amante, suspeitando a possibilidade de haver qualquer tipo de invasão aos seus recursos pela safada, guardados a sete chaves ao longo da vida, e que agora estaria à mercê de instituições financeiras.
“O jogo era de mão dupla. Minhas reservas poderiam ser lesadas tanto pela amante como pelo banco. O fato é que, ao final, as agencias bancária com as quais estabeleci acordos financeiros, foram mais rápidas no gatilho e estavam livres para abocanhar a minha parte. Precisavam apenas de um pretexto para invadir minha conta e arrastar tudo, e o consignado era um deles”.
Na média, os mortos, ao serem questionados pelo repórter do Viletim sobre o ocorrido, não entenderam uma coisa fundamental: Como pode o sistema financeiros não perceber que tais CPFs de mortos estavam sendo usados para empréstimos consignados?
“Se eles fazem isso com os mortos, que estão atentos aos fatos e em condições privilegiadas, imagine o que podem fazer com os velhinhos vivos, que dependem de parentes e da boa vontade de estranhos e criminosos plantados em instituições financeiras de segunda classe?”.
O Viletim enviou perguntas a agentes financeiros no paraíso, mas ainda não obteve resposta. Se é que existem agentes financeiros no paraíso, que não seja fiscal.





