Novo "Boletim Industrial" da Esalq demarca ambiente macroeconômico cercado de incertezas
Decisões econômicas em meio a incertezas do mercado exigem maior cautela e embasamento, detalha Carlos Vian, um dos autores
O novo Boletim Industrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq/USP) demarca um ambiente macroeconômico cercado de incertezas, com escaladas de conflitos globais e agravamento da conjuntura política nacional, com as eleições ao final do ano. Carlos Vian, professor da Esalq e um dos autores do boletim, detalhou o cenário econômico e as previsões do documento.
“Nós desenvolvemos uma metodologia de projeções, principalmente de inflação e de preços de algumas commodities, que têm sido próximas daquilo que realmente tem acontecido. As nossas projeções para este ano, aparentemente, também estão alinhadas. Esperamos um ano que possa ter uma certa pressão inflacionária novamente, principalmente por conta dessa mudança dos preços internacionais e dos conflitos geopolíticos que já estão repercutindo. Além dos reajustes de petróleo e derivados, que não temos muito controle, o governo tomou algumas medidas para reduzir esse impacto, mas se continuar havendo aumento, mesmo com a redução, o preço vai se elevar.”
Cenário geopolítico
Segundo o professor Vian, o cenário geopolítico é preocupante. As cadeias produtivas da indústria e do agronegócio se internacionalizaram, o que cria uma relação de dependência entre os países. “A indústria automobilística brasileira, por exemplo, apesar de possuir um grande conteúdo nacionalizado, depende da importação principalmente de eletrônicos, como chips e sensores, que podem ser afetados por questões geopolíticas vigentes.”
Além disso, esses produtos estão sujeitos a terem um aumento no preço em termos de frete, devido ao preço dos derivados de petróleo. “A gente não tem, no Brasil, uma massa importante de empresas que fabricam placas eletrônicas, esse tipo de coisa. Geralmente, tudo isso é importado. Nossa indústria eletroeletrônica, que é eminentemente o que a gente chama de montadora, traz os componentes de outros lugares do mundo e monta-se aqui. A indústria automobilística e a indústria eletrônica têm um papel importante em várias cadeias e se tornaram extremamente relevantes no nosso dia a dia, e tudo isso pode ser afetado. Por outro lado, dependemos também da importação de alguns metais para algumas das nossas indústrias, o que também pode ter um impacto”, acrescentou Vian. “E, do lado das nossas exportações, como minério de ferro, aço e alguns outros metais, temos uma participação importante no mercado internacional. E tudo isso, com essa grande disputa geopolítica, tarifas e com as guerras, tudo isso está sendo afetado.”
Brasil e América Latina
Apesar de um momento de incerteza muito grande, Vian defende que é também um momento de oportunidade. “A gente precisa olhar para os nossos vizinhos, para a América Latina, estreitar um pouco nossas relações. O Brasil é o país que tem o parque industrial mais desenvolvido da América Latina, concorrendo com o México, então acho que é uma oportunidade importante.”
Vian também destaca o nível do investimento brasileiro, que está muito próximo do nível de depreciação da economia. “Estamos mantendo fábricas em funcionamento, mas com pouca perspectiva de modernização e crescimento. Isso em função das incertezas, já que há sempre uma incerteza muito grande demonstrada nos indicadores. Muitos desses indicadores estão dentro da chamada área de desconfiança, onde empresários consideram uma maior necessidade de cautela.”
O Brasil também lida com uma falha estrutural na economia, que é um crescimento que não traz uma nova estrutura produtiva, que não melhora produtividade e a atuação da economia, explica o professor. “A economia brasileira já vem, nos últimos dois anos, infelizmente, no mesmo compasso. Você poderia me questionar, ‘mas estamos crescendo’. Tivemos o crescimento do PIB, mas muito baseado em setores que, no boletim, não olhamos com tanto detalhe. Setores de bens de consumo, em alguns serviços, que são segmentos que têm tido um certo dinamismo, um pouco pautado pela demanda. Então, quando analisamos esses indicadores, vemos que o Brasil está ficando para trás em relação a outros países, principalmente a China.”
Análise do especialista
Em projeção para os próximos meses, Vian destacou o fechamento da safra no agronegócio, afirmando que isso pode balizar até mesmo os resultados de PIB, a depender da produção das regiões. “Acho que isso vai inclusive pautar as próprias previsões de inflação para os próximos meses. Se tivermos alguma variação de preço, isso pode afetar as projeções de inflação e até mesmo a política monetária. O Banco Central ensaiou um início de redução da taxa de juros, mas, se persistir essa perspectiva de aumento da inflação, talvez a redução pare ou seja feita ainda mais lentamente.”
Ao analisar o ano com possíveis taxas de juros relativamente elevadas, por conta do comportamento inflacionário, Vian apontou que é um ano de cautela para todas as pessoas. “Não só para empresas, mas para as pessoas físicas, é um ano de bastante incerteza e, por isso, de bastante cautela. Decisões devem ser tomadas com bastante embasamento para evitar riscos.”





