Mario Sergio Cortella gosta de afirmar uma ideia da qual eu compartilho, quando o assunto é fazer o certo ou o errado: “Não faça nada que você não possa contar para a sua mãe”. É uma forma caseira de dizer que o crime não está liberado para a pessoa que busca o bem comum.
Ele deu um exemplo de um atleta que estava em segundo lugar em uma corrida e resolveu manter-se na mesma posição, mesmo sabendo que aquele que estava na sua frente havia caído, se não me engano.
O atleta de trás esperou o outro se levantar e seguir adiante, até a vitória. Uma jornalista perguntou por que ele havia perdido aquela oportunidade de vencer a prova.
A resposta foi que a mãe dele não gostaria de saber que ele foi campeão daquela forma, pois considerou desleal, uma vez que o atleta da frente havia se mantido na dianteira durante praticamente toda a prova.
A fala exata e os detalhes usados por Cortella, não me recordo. A essência é esta. O fato é que Cortella está sendo socrático, ou platônico, como queira.
Todo homem sabe o que é o certo e o errado. Basta apenas investigar melhor sua consciência. Os diálogos platônicos trazem esse exercício permanente.
No entanto, o ponto ao qual eu quero chegar é que, nos tempos atuais, para a Justiça, quando uma pessoa comete algo errado e se torna suspeita e réu, ela tem o direito de ficar em silêncio e não criar provas contra si mesma, mesmo sabendo que fez o errado.
A lei penal dá uma margem incrível para que o criminoso escape de qualquer penalidade, se a Justiça não conseguir obter as provas necessárias para condená-lo.
Isso significa que, sabendo fazer o errado, o criminoso pode continuar na bandidagem. Se ele não for pego em flagrante ou não deixar provas dos seus crimes, está tudo certo para ele.
A sofística ganhou o mundo. E o que é a sofística? É a habilidade de argumentar com o propósito de convencer, mesmo que o fundamento da questão esteja errado. Eu posso muito bem defender um erro e considerá-lo benéfico, usando argumentos desvirtuados.
Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, traz a tese do bom selvagem. Mesmo não tendo como apontar onde estava esse bom selvagem, posso dizer que ele existiu em um tempo em que o homem vivia em harmonia com a natureza. Idealizo.
Se você caiu nessa, quando esse bom selvagem foi obrigado a conviver em sociedade, ele não teve alternativas. Aprisionado no mundo social, ele pode ter seus momentos de explosão emocional e cometer certos deslizes, uma vez que sua natureza original foi violada.
Está dada a senha para os criminosos. Eles não são maus, mas a sociedade os enjaula e eles acabam manifestando seus descontentamentos de alguma forma, muitas vezes até insensata. Então, o erro não é culpa dele, mas da sociedade. Porque em sua essência, ele é bom.
Captou a questão? Eu crio um ambiente ideal, como se o bom selvagem tivesse existido e todos os criminosos acabam sendo salvos pela minha tese. A partir de então, tais criminosos precisam de atendimento especial, uma vez que eles passam a ser vítimas do sistema.
O próprio Lula já disse isso em público. As nossas leis são feitas com base nesse raciocínio. Gilmar Mendes, o decano do STF, nada de braçada diante desse conflito sofístico e ri das pessoas responsáveis, que procuram fazer o bem acima de tudo.
Rousseau foi um dos grandes pensadores a deformar o mundo clássico, em que o bem e o mal deixaram de ser algo presente em sua consciência para se tornar uma obsolescência, coisa velha, de um passado remoto, que não vale mais. Um absurdo. Porque a realidade sufoca e deixa o homem doente.
Quem trabalha com profundidade esta questão é o filósofo político Leo Strauss, que comecei a analisar no artigo anterior e darei sequência nos próximos artigos.



