Bordas urbanas têm potencial inexplorado para regeneração florestal
As zonas de transição entre a cidade e o campo, como também são chamadas, somam 810 mil hectares no Estado de São Paulo; desse total, 413 mil hectares podem ser incluídos em projetos de restauração

A restauração florestal é, quase sempre, pensada como uma tarefa do campo. Terra barata, espaço abundante e menor competição com o uso urbano tornam as áreas rurais o destino natural de grandes projetos ambientais e de metas climáticas. O problema, segundo pesquisa realizada no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, é que essa lógica deixa de fora das análises justamente as regiões mais habitadas.
Liderado pela pesquisadora Luciana Schwandner Ferreira e coordenada pelo professor Jean Paul Metzger, o estudo analisou três décadas de dinâmicas de desmatamento e regeneração no Estado de São Paulo e contou com a colaboração de outros cientistas e gestores estaduais. A conclusão desafia o senso comum: as bordas urbanas, zonas de transição entre a cidade consolidada e o campo, marcadas por usos e atores múltiplos, regeneram mais do que desmatam. E podem regenerar mais.

O conceito central do artigo, intitulado Urban boundaries are an underexplored frontier for ecological restoration e publicado na revista Scientifc Reports, do grupo Nature, é o de “transição florestal”: o momento em que a regeneração passa a superar o desmatamento em uma determinada região, invertendo a tendência histórica de perda de cobertura vegetal. O estudo mostra que essa virada já aconteceu no Estado de São Paulo como um todo e que chegou às bordas urbanas mais cedo do que se imaginava. “Usamos dois produtos do MapBiomas: um de desmatamento e regeneração e outro de cobertura da terra. São 30 anos de dados públicos e de livre acesso”, explica Schwandner Ferreira.
“A restauração é normalmente considerada como algo a ser feito mais nas áreas rurais, onde tem mais espaço e o solo é mais barato. O nosso trabalho, contudo, argumenta que as áreas urbanas e as bordas urbanas também têm potencial de receber esse tipo de incentivo e de projeto” – Luciana Schwandner Ferreira.
Quase meio milhão de hectares potenciais
Na macrometrópole paulista, complexo urbano e econômico que engloba 174 municípios integrados ao redor da Grande São Paulo (incluindo Campinas, Baixada Santista e Sorocaba) e abriga 32,7 milhões de pessoas, a regeneração superou o desmatamento em 2004. Nas áreas de preservação permanente (APPs) associadas a rios e córregos e nas zonas de risco, sujeitas a enchentes, deslizamentos e erosão, a inversão ocorreu ainda nos anos 1990, impulsionada pela proteção legal que incide sobre esses territórios. “Nessas áreas de APP e de risco, a regeneração supera o desmatamento desde o início dos anos 1990. Por quê? Porque tem uma proteção legal. Isso é política pública com efeito”, sublinha a pesquisadora.

Apesar dessa tendência positiva, a regeneração que vem ocorrendo é fragmentada. O estudo mostra que, apesar do aumento total da área reflorestada, o número de fragmentos também cresceu, o que significa que a vegetação se recuperou em manchas dispersas, sem necessariamente ampliar a conectividade entre os remanescentes. O problema é que a fragmentação limita a recuperação da biodiversidade e reduz a capacidade dos ecossistemas prestarem serviços.
Os números encontrados pelo estudo são expressivos. Só no Estado de São Paulo, as bordas urbanas somam pouco mais de 810 mil hectares, cerca de 3,27% do território estadual. Desse total, 413 mil hectares (cerca de 50% da área) foram identificados como potencialmente disponíveis para projetos de restauração. Na macrometrópole, são 235 mil hectares apenas nas bordas. Se integralmente aproveitadas, essas áreas poderiam representar 27% da meta estadual de restaurar 1,5 milhão de hectares até 2050. Para efeito de comparação, as áreas urbanas densas têm apenas 10% do seu território potencialmente disponível para projetos semelhantes.
“Isso já é um processo que está acontecendo. Então não se trata de reverter uma tendência. É muito mais difícil quando o desmatamento está num patamar alto e você quer reverter isso”, diz a pesquisadora. “O que identificamos é que já existe uma tendência de regeneração crescendo e desmatamento caindo, e queremos incentivar essa tendência que já existe.”
A grande pergunta que o estudo levanta, e não responde completamente por não ser seu escopo, é por que essa regeneração está acontecendo. As hipóteses preliminares apontam para abandono de terras agrícolas, crescimento de condomínios de médio e alto padrão que, por lei, precisam recuperar áreas desmatadas, e o próprio processo de consolidação urbana, que tende a reduzir o avanço das construções sobre a vegetação.
Definindo a área de estudo
Antes de mapear o potencial de restauração dessas regiões, a equipe teve que resolver um problema anterior: como defini-las. As bordas urbanas, também chamadas de áreas periurbanas, franja urbana ou interface urbano-rural, não têm uma delimitação oficial. São territórios que escapam às categorias tradicionais do planejamento. “É um território muito diverso. Tem desde condomínio de luxo até população em situação de vulnerabilidade, passando por agricultura familiar e área de preservação. Falar do periurbano como um território com características únicas não faz sentido”, reconhece a pesquisadora.
Para contornar isso, o estudo adotou como referência as categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir do Censo de 2021, válidas para todo o País. As áreas classificadas pelo IBGE como alta densidade de edificações foram classificadas como áreas urbanas densas, enquanto as bordas urbanas corresponderam às zonas urbanas com menor densidade construtiva, incluindo áreas de expansão urbana, novos loteamentos e núcleos rurais com extensões urbanas. As áreas rurais, por sua vez, foram definidas pela presença dispersa de domicílios e pela ocorrência predominante de estabelecimentos agropecuários.

Com esses três recortes em mãos, os pesquisadores cruzaram os dados com três décadas de mapeamento do MapBiomas, plataforma que produz anualmente o mapa de cobertura e uso do solo no Brasil com base em imagens de satélite, e identificaram, pixel por pixel, o que estava acontecendo na vegetação de cada um desses territórios entre 1990 e 2020. Segundo os autores, um dos avanços do estudo foi analisar separadamente áreas urbanas densas e bordas urbanas, mostrando que elas apresentam dinâmicas bastante distintas e, portanto, demandam políticas públicas diferentes.
Trazer a floresta para perto de quem precisa
“Fazer restauração em qualquer ambiente é maravilhoso. Mas se conseguirmos fazer isso mais perto das pessoas, os benefícios que são muito locais, como a redução de temperatura, chegam a quem precisa”, explica Schwandner Ferreira. “Num dia de calor intenso, você atravessa uma rua, entra embaixo de uma copa de árvore e sente aquela diferença imediata. Se essa árvore está plantada numa área rural distante, ela traz outros benefícios, mas não esse,” exemplifica com os benefícios nas áreas urbanas densas.
Além do conforto térmico, a pesquisadora lista outros benefícios importantes associados à mitigação e adaptação climática, como regulação hídrica, melhora da qualidade do ar, contenção de erosões e deslizamentos, proteção de nascentes e córregos, além da possibilidade de recreação e geração de empregos, esta última especialmente relevante em zonas periurbanas, onde a mão de obra local pode participar diretamente dos projetos. “A própria atividade de restauração gera empregos: quem planta, quem produz a muda. E quando o projeto está perto de onde as pessoas vivem, você tem mão de obra disponível perto.”
Ela destaca, porém, que esses ganhos não são automáticos e que precisam ser planejados com cuidado para não reproduzir injustiças existentes. As bordas urbanas de São Paulo abrigam também populações em situação de vulnerabilidade, que foram empurradas para essas regiões exatamente porque não conseguem pagar pelos custos das áreas mais centrais e consolidadas.
“As bordas urbanas são territórios muito disputados, frequentemente destinados à expansão urbana ou à agricultura, especialmente de pequena escala, em áreas de agricultura familiar. Por isso, os esforços de restauração precisarão ser negociados, convivendo também com outros usos. É fundamental também mitigar riscos sociais, como o deslocamento de populações vulneráveis ou processos de gentrificação associados à melhoria ambiental.”
Ciência construída com quem decide
Uma das particularidades do estudo é que ele não nasceu do laboratório para as mesas do governo, mas foi construído junto com quem toma decisões. Três dos coautores do artigo são servidores da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPAmb) e da Fundação Florestal. “Não é uma pesquisa que a gente termina. Esperamos que os dados sejam usados pelos tomadores de decisão. Esses dados já foram construídos junto com eles, entendendo como isso pode fomentar política pública”, diz Schwandner Ferreira.
“Quando conseguimos trabalhar juntos, o conhecimento é coproduzido.” Esse modelo, que a equipe chama de coprodução, parte do princípio de que gestores territoriais e cientistas possuem saberes complementares. “Quem está na linha de frente, seja do governo do Estado ou das prefeituras, tem o conhecimento do território, do que está acontecendo, dos entraves técnicos e políticos. A academia tem o conhecimento técnico de gerar informação a partir dos dados. Quando a gente junta isso, faz algo muito mais potente”, completa.
O trabalho integra o projeto Biota Síntese, que é um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) financiado pela Fapesp, que reúne pesquisadores da USP e parceiros do governo estadual para subsidiar o Plano de Ação Climática de São Paulo e avançar na transição para a sustentabilidade e na implementação de soluções baseadas na natureza nos territórios paulistas.
O artigo Urban boundaries are an underexplored frontier for ecological restoration pode ser acessado aqui: https://www.nature.com/articles/s41598-025-19699-9
Matéria: Jean Silva | Jornal da USP.



