Brigando com o meu anjo-musa-consciência literária
Coitado, só quer o meu bem... mas têm preferências diferenciadas
Eu e meu anjo-musa-consciência literária, e Anthony Burgess, em espírito, encarnado em seu manual de literatura inglesa. Portrait-charge feita a caneta Bic, na folha de caderno e retocado no Photoshop. Desta vez, sem ChatGPT nenhum.
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas, vão-se dos pombais, apenas
Raia, sanguínea e fresca, a madrugada...Raimundo Correa, “As pombas”
Vou te contar. Tem um anjo aqui, no meu ombro direito, falando: “Faz um tempão que você não escreve nada que preste. Vai ler algo que valha a pena, pra se inspirar. Tome fôlego, e vergonha na cara. Tome tenência!”
É, minha consciência é snob, fala a respeito de “tenência”. Outro dia me falou em “tergiversação”. Tem hora que penso se é um demônio travestido de anjo. Um demônio parnasiano, um daimon, cover de Olavo Bilac ou Coelho Neto.
Em verdade, em verdade te digo, acho que ele é bipolar. Ele me dá bons conselhos sobre Cervantes e Shakespeare, Machado e Bruno Tolentino, gosta até de Guimarães Rosa e me leva pela mão para “Grande Sertão: Veredas”. Mas a parte “demônio parnasiano”, pombas, “vai-se a primeira pomba despertada...Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas”, luta para subir à superficie. Eu o afogo, melhor, afago (ato falho?) em pensamentos sobre José de Alencar e músicas melosas do Caetano Veloso.
Ele recita “Ora, direis, ouvir estrelas, certo, perdeste o senso...” Eu contra-ataco com o stream of consciousness de Molly Bloom em voz alta: “O that awful deepdown torrent O and the sea the sea crimson sometimes like fire and the glorious sunsets and the figtrees in the Alameda gardens yes and all the queer little streets and the pink and blue and yellow houses and the rosegardens and the jessamine and geraniums and cactuses and Gibraltar...”
(Eu também sou pedante).
Ele reclama: “Isso está fora de moda, seu tôsco! Quem hoje sabe alguma coisa de James Joyce? Uma modinha do século XX!”
Em resposta, eu enfio o “Literatura Inglesa” de Anthony Burgess na fuça dele. O autor inglês, mancuniano (natural de Manchester, Inglaterra; foi ele quem cunhou o termo nas línguas latinas), monarquista, jacobita e católico apóstata é considerado o maior discípulo de Joyce, por ninguém menos que Harold Bloom.
Retorque e retorce o anjo: “Anthony Burgess? Piorou! Hoje ninguém sabe quem é ele! Quarenta anos atrás um ou outro sabia dele por causa da ‘Laranja Mecânica’. ANTHONY BURGESS? Não me faça rir!!!!”
O meu anjo surta, mas acaba se acalmando, sem que eu precise fazer nada. Anjos são santos por definição, e uma das principais virtudes dos santos é a paciência.
Ele tem muita paciência comigo. Só não gosta de literatura inglesa do século XX.



