Eu era menino de rua. Além de menino de rua, eu andava descalço. Todos os colegas de bairro se encontravam na mesma situação. Não era pobreza. Era assim mesmo, ninguém gostava de usar calçado. Já ouviu falar de caipiras?
Colocávamos tênis Kichute ou sapatos apenas para ocasiões especiais, como missa ou casamento, e para ir à escola. Talvez, no inverno, proteger os pés fosse uma exigência materna.
Brincávamos muito e a galera era gigante. As meninas também estavam juntas nas correrias. Elas sabiam se impor e controlar os meninos. Vivíamos uma outra realidade. O maior perigo no bairro era levar um tombo ou chutar o chão brincando de bola. Ah não, havia sim o risco de cortar o pé em caco de vidro ou furar em pregos enferrujados. Algo recorrente.
Mas só brincávamos na rua porque ela era uma extensão das nossas casas, um espaço comunitário, de encontro. Era impossível reunir tanta criança se não fosse na rua.
O que me traz a este relato? Havia no bairro um outro morador de rua bem diferente, que se chamava Brinquinho. Era um negro, alto, esbelto e sempre sorridente. Bem mais velho do que nós. Ele não tinha alguns dentes e um olho, mas isso lhe dava estilo especial.
Não sei como ele se virava de fato para viver. Sei que ele era admirado por todos. Sua habilidade para se livrar dos problemas era incrível e não parecia sofrer pela condição de insegurança que enfrentava, sem uma casa para morar. Estava sempre limpinho e cheiroso.
Com a barra da calça dobrada até a canela, uns colares grandes e camisa aberta no peito, ria muito e estava sempre disposto. Eu não podia me esquecer: ele usava um brinco que se destacava. Era a sua marca. Elegante.
Creio até que Brinquinho fazia bicos para levantar algum dinheiro. Um dia vou perguntar aos irmãos Mandro, donos do mercadinho do bairro, se eles ajudavam aquele moço simpático e estranhamente familiar.
Por que me lembrei do Brinquinho justamente hoje? Porque estive no mercadinho aqui da Vila Monteiro e, por coincidência, parei bem em frente à prateleira em que estavam as latas de Feijoada Bordon.
Esta era a feijoada preferida do Brinquinho. Creio que porque só havia desta marca naquele tempo e pela facilidade no preparo. Ele fazia um fogãozinho na calçada mesmo. Colocava a comida em uma panela velha e, em poucos minutos, seu prato estava pronto.
Comia com tanto gosto que dava até água na boca da criançada que o acompanhava na aventura. Muitas vezes comia direto na própria lata.
Por incrível que pareça, nunca comi a tal Feijoada Bordon. Talvez seja porque meu inconsciente não queira me frustrar com o sabor, caso não seja aquilo que a minha memória guarda.
Acho que jamais comerei esta feijoada, em homenagem ao Brinquinho, para que o prazer daquele moço diante de um prato tão sugestivo fique para sempre nas minhas lembranças da infância como algo indescritível e encantador.





