O debate eleitoral do último domingo, entre Lula e Flávio Bolsonaro, me fez lembrar de um grande amigo, lá de Londrina. O Miram.
Nordestino de Gogó da Ema, ele gostava de animar as reuniões com os amigos. Bom de gole, era também bom de fogão.
Miram prometeu então que faria uma buchada de bode para o próximo encontro. Ninguém da turma havia apreciado o prato.
Prato, por sinal, que ninguém tinha vontade de comer também, só de ouvir falar.
Mas ele queria acabar com essa impressão, pois a considerava errada.
“Vou fazer uma buchada de bode e tenho a certeza de que será uma sensação”, dizia.
Ele então arrumou primeiro um bode. Sim, um bode vivo.
E disse que, para o prato ficar bom, o bode deveria ser abatido com raiva.
Seu plano foi colocar o bode preso na praça em frente à sua casa.
A reclamação dos vizinhos com o berro do bicho deixaria ele enfurecido e o destino do bode estaria traçado.
Mas o bode não berrava e ele teve que ficar com raiva do bode por ele não berrar.
Lembrei dessa história com o Miram depois do debate de domingo.
Os eleitores de Flávio tinham que ficar com raiva de Lula, e os eleitores de Lula tinham que ficar com raiva do Flávio.
Mas nenhum dos dois deixou ninguém com raiva, mas com pena. E a escolha não seria mais por aversão, mas por piedade.
Os eleitores de Lula passaram a ver naquele homem descontrolado, que falava coisas sem nexo, um exemplo de vovô que não sabe mais controlar as emoções.
Os eleitores de Flávio, por sua vez, viram que ele não tinha mesmo nada para falar e todas as suspeitas sobre sua falta de conteúdo se revelou.
Mesmo assim, não houve motivo para mudar de voto para nenhum dos lados. Cada eleitor resolveu então continuar votando como já havia planejado.
Mas e o eleitor que esperava o debate para decidir seu voto? Você me pergunta.
Ah, esse ficou como os vizinhos que esperavam o berro do bode do Miram para reagir.
Eles olhavam para o animal na praça, mas não sabiam sequer que bicho era aquele, porque o bode não berrava e não manifestava qualquer sentimento por estar ali.
Só ficaram sabendo que era um bode de fato no dia em que apareceu um nordestino enfezado na praça e disse em alto e bom som: “Você foi eleito, sua cabra da peste”.





