Fiquei surpreso com o número de pessoas que me elogiaram pela crônica que escrevi na edição anterior da Revista Viletim sobre a história do cachorro Marquinho [na próxima Revista de Domingo trago esse texto]. O mais interessante é que os meus leitores (olha que chique, Zé Elias!), pelo menos quanto a esse texto, foram desde pessoas simples até professores universitários. Alguns me ligaram dando os parabéns. Devagarzinho a gente aprende, não é mesmo?
Talvez a facilidade para falar sobre cachorro seja pelo fato de eu ter tido uma infância em que a presença desses animais era indispensável. Só lá em casa acho que passaram mais de vinte. Alguns, inclusive, marcam profundamente a minha memória. Por causa de um deles, eu quase perdi a memória.
O Peter era muito sem-vergonha e vivia fugindo para a rua. Claro que, naquele tempo, na Vila Independência, não dava para saber exatamente onde terminava a rua e começava a nossa casa. Mas, sempre que possível, tentávamos manter o danado do bichinho sob nossa vigilância.
Vez ou outra, ele sumia em disparada e um dos meus irmãos tinha que pagar um baita pau para trazê-lo de volta. A última fuga do Peter tornou-se esquecível. Era final de tarde. Mês de setembro. Dia seis, porque no dia seguinte era desfile no Colégio Jaçanã e todos tínhamos que comparecer com a fitinha verde e amarela alfinetada na camisa branca para assistir ao desfile da Independência. Estava quase escurecendo quando o danado inventou de fugir. Mais que rapidamente, saí em seu encalço.
Chegando ao quintal, ele passou por baixo da cerca de arame farpado. Eu pensei em fazer a mesma coisa, mas minha cabeça ficou enroscada no espinho de aço do arame. Foram treze pontos e uma careca ridícula, lambuzada de mercúrio. Que raiva. Até hoje, quando passo a mão na minha cabeça, lembro-me do filho da mãe e daquela fitinha verde e amarela, em meus plenos oito anos.
Cachorro tem uma energia muito boa. Principalmente esses vadios, de rua ou de quintal grande, como era o nosso. Esses dias mesmo, vindo para o escritório, encontrei um cachorro tentando morder o próprio rabo. Ele girava loucamente. Parecia criança, que gira, gira, até ficar tonta e depois tenta andar em linha reta. O animal só parou de ronronar pelo próprio rabo depois que se aproximou dele uma cadelinha. Aí os dois saíram correndo em disparada, na maior diversão.
Ainda quando criança, completamente desentendido do mundo, eu queria ter nascido cachorro. Dia desses, sem assunto para uma crônica, ameacei escrever sobre isso. O título certamente seria “O menino que não nasceu para ser gente”. Mas, por algum motivo, mudei de ideia. Se for ver bem, hoje, vira e mexe, a gente pensa que está levando uma vida de cachorro. Não no sentido real da percepção infantil, com toda aquela alegria ingênua. Mas no sentido metafórico, que é bem diferente e bastante dolorido.
Isso não significa que toda história de cachorro que conheço tenha um final feliz. Muito pelo contrário. A maioria é muito triste. Como é o caso da cachorra do Zé do Aio, um paraibano que vendia alho como ambulante em uma feira de artesanato em São Pedro, SP. Como eu também trabalhava na praça, nós nos tornamos amigos. Ele era devoto de uma catuaba. Assim que eu o encontrava, logo de manhã, ia logo perguntando: “E aí, Zé, quantas foram hoje?”. Ele sempre inventava um número exorbitante para me surpreender. Só que o Zé do Aio não tinha a saúde muito boa, não. Sofria de asma. Por causa disso, vivia com uma bombinha no bolso da camisa.
Esse fato também nos deixava preocupados, porque asma com catuaba não era uma combinação harmônica. Isso podia resultar em perdas e danos, porque era só o Zé descuidar da saúde que a Maria, sua esposa, tinha que chamar uma ambulância para levá-lo ao hospital em caráter de urgência. Quando isso acontecia, ele gostava de contar vantagem: “E aí, Zé, puta aiada* bonita, hein? Tomou quantas ontem?” Ele mostrava o braço picado pela injeção e dizia: “Só nesse braço foram mais de dois litros.”
Teve um final de semana em que cheguei na feira e o Zé do Aio estava triste. “O que aconteceu, homem? Que cara é essa?” Dessa vez, ele nem tinha ido ao médico, nem tinha enchido o caneco de catuaba. Contou-me que a Maria, sua mulher, estava muito triste, porque sua cachorra havia sumido.
“Era o animalzinho de estimação dela. A cadela estava bem velhinha, não enxergava mais nada e nem conseguia mais parar em pé, tadinha. A Maria dava todo dia comida na boca dela. Agora, quando foi ontem à tarde, o carteiro chegou lá em casa para entregar uma correspondência e a Maria se descuidou e a cachorra escapou pelo portão entreaberto. Ninguém da vizinhança sabe onde ela foi parar. E olha que já procuramos por tudo quanto é canto.”
A história ficou por isso mesmo. Falei para ele não se preocupar: “Toma uma que passa.” Mesmo assim, ele ficou amuado, como quem pressentia alguma coisa ruim. Passaram-se vários finais de semana até que voltamos ao assunto da cachorra, e o Zé me contou: “Ela foi encontrada morta na casa velha onde a gente morava. A gente sabia que ela gostava mais de lá, porque lá ela brincava com os patos, corria atrás dos passarinhos, bebia água do Corguinho que passava perto. Na casa nova não tinha mais nada para ela fazer. Ficava só deitada no cantinho da sala vendo o tempo passar. Acho até que ela sonhava muito, porque era comum a gente acordar de noite com o gemido da bichinha. Para mim, ela ficava recordando o passado na nossa chácara. Até que, na primeira oportunidade, ela não teve dúvida. Fugiu sem ter sequer forças para andar. Seguiu seu instinto para morrer no lugar onde estava seu sonho!”
*Puta aiada era uma forma de elogiar o produto que o Zé do Aio vendia, mas tinha, obviamente, um quê de sacanagem.




