Para alguns, ele era irmão, para outros, amigo. Podia ser também companheiro. Daniel Vorcaro, o suposto dono do Banco Master, soube como ninguém fazer amigos e influenciar pessoas nos Três Poderes de Brasília. Era só acenar com alguns milhõezinhos e podia ter de ministros da alta Corte da Justiça a senadores e deputados. Um simples Pix e os babões estavam aos seus pés. De quebra, era possível até robalos ficarem com algumas migalhas do tubarão, desde que o serviço fosse bem feito.
Por mais que se critique a Polícia Federal, foi ela quem identificou alguma coisa mais crítica na movimentação do criminoso e conseguiu prendê-lo. Pois Vorcaro circulava com desenvoltura por entre os Três Poderes, chamando os expoentes do sistema para uísques e charutos em locais os mais distintos. As reuniões secretas podiam ser em sua própria residência ou em outro país, como a Inglaterra, por exemplo. Dinheiro para essas regalias não faltava.
Até o sistema do Banco Central teve algumas falhas para identificar que o Banco Master não ia bem das pernas. Mas, aos poucos, o sistema voltou a funcionar e o alarme disparou. Senão, ia ficar muito na cara. Dizem as más línguas que tinha gente graúda, inclusive do BC, nos encontros faraônicos, com odaliscas e taças de bebidas para reis e magnatas do crime internacional.
A história de Vorcaro certamente vai virar filme, e dos bons. Não se sabe exatamente o momento em que ele percebeu que ia precisar da ajuda de Brasília para manter seu império, em vias de se desmoronar. Mas é fato que os sinais vinham sendo dados sob a ignorância de todos os beneficiados pelo dinheiro fácil. Um banco compliance zero, como se diz. A única transparência ficava por conta das odaliscas.
Mas por que um abuso tão descarado assim? Qualquer bandidinho mequetrefe sabe que esquemas dessa envergadura precisam ficar restritos a poucos e não ganhar a amplitude como a rede de Vorcaro ganhou. Até que chegou um momento em que não dava mais para segurar e a PF começou a vazar suas investigações. Hoje, assistimos a um filme que roda em tempo real, do qual todos nós somos figurantes.
Eu diria até que as referências são muito impressionantes e de elevada criatividade, como estar no mesmo filme a produção de outro filme (Dark Horse), com grana de Vorcaro. Metalinguagem pura, pela qual agora Flávio Bolsonaro paga o preço, por tamanha ousadia. O filho do presidente também quis sair da condição de mero figurante e tornou-se, além de Lulinha, uma espécie de Vorcarinho. Ele queria seu quinhão em pacotes de cem reais, dólares ou euros. Ambicioso. Um fenômeno, como diria seu pai, o presidente da República.
Eu já citei o cineasta Quentin Tarantino como exemplo de criador de roteiros incríveis para explicar o andamento desta história sobre Vorcaro e o poder de Brasília, em que todos morrem no final. Mas, obviamente, seria um “Cães de Aluguel” às avessas, porque ninguém morre no final. Apenas os brasileiros assistem atônitos a essa grande encenação, com final previsível, que vai custar um Oscar ao país inteiro. Mas então, qual a relação com Tarantino? Ora, estamos falando ainda sobre cães de aluguel, não?





