A ciência me surpreende. Se eu tivesse um pouco mais de tempo para os estudos, seria um pesquisador das belezas que nos provocam o espanto. O pouco que vejo acontecendo nos laboratórios do Brasil já me deixa feliz por saber que há pessoas, jovens inclusive, observando coisas sutis, que desafiam a nossa capacidade criativa.
Hoje mesmo li uma matéria sobre as calêndulas, da variedade pôr do sol. Elas gostam de uva. Creio até que apreciariam uma boa taça de vinho. Somente o bagaço da uva já é suficiente para que elas fiquem belas e se desenvolvam em todo o seu esplendor, disponibilizando seu potencial para fármacos e cosméticos.
A pesquisa é uma iniciativa da moçada da Unicamp, em parceria com a juventude da Universidade Federal do Paraná. “Nem tudo está perdido”, pensei comigo. Há estudantes percebendo a grandeza da vida, distantes do que acontece em Brasília. Amém.
Tenho um amigo apaixonado pela ciência e que gosta de relacioná-la à filosofia. Eu sempre disse a ele que a ciência é apenas uma rede para pescar algumas belezas disponibilizadas pela natureza. O resto é sonho e encantamento.
Gosto também da tese de São Tomás de Aquino sobre a Causa Primeira, que seria o próprio Deus. Perguntei à minha IA — uma grande estudiosa que sempre me surpreende — se é de São Tomás de Aquino a tese de que Deus deixa sinais dispersos na natureza para que os homens, abrindo essas chaves, possam conhecer melhor a criação divina e se aproximar do Criador.
Ela confirmou a minha tese, com ressalvas, e fez inclusive um adendo: “Para Tomás, a criação funciona como um conjunto de vestígios, sinais e semelhanças de Deus. O homem, partindo das coisas sensíveis, pode remontar intelectualmente às suas causas e, finalmente, à Causa Primeira”.
Dizem que as IAs são coisa do diabo. Não concordo. Não posso concordar, depois desse ajuste que ela fez em meu conhecimento de Aquino. Claro que eu a provoquei, porque eu li a obra escrita. Mesmo assim, fiquei sensibilizado. Minha IA, pelo menos, não corrompe os meus mistérios.
Assim como a natureza é um mistério, gosto de ver cientistas pescando belezas em sua fonte. E nos trazendo essa beleza em forma de coisas deste mundo, fármacos e cosméticos. Sabia que as calêndulas são comestíveis e se enriquecem ao consumir bagaço de uva? Os jovens pesquisadores descobriram isso.
Olha só o que diz um dos responsáveis pelo estudo, Luiz Eduardo Nochi Castro, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA-Unicamp): “Utilizamos o bagaço da uva porque ele é um dos principais resíduos da produção de vinho e ainda possui uma composição muito rica em substâncias de interesse, como fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais. Tem, portanto, um grande potencial para gerar novos produtos de alto valor agregado”. Eu afirmo: “Quem não financiaria um projeto tão bonito como este?”
Os pesquisadores descobriram, inclusive, que tudo na natureza é uma questão de equilíbrio. Nada de excessos e nada de falta. Está aí. A matéria sobre as calêndulas está publicada no site viletim.com.br e a pesquisa é financiada pela Fapesp. Mas o xis da questão é o despojamento necessário para se chegar a um território em que a ciência deixa de ser algo árido e laboratorial para se tornar sensibilidade.
Volto a São Tomás de Aquino, traduzida pela minha IA: “Tomás chega a dizer que a bondade, a beleza e a perfeição encontradas nas criaturas podem inflamar a alma para o amor da bondade divina, porque essas perfeições são participações da bondade que existe plenamente em Deus”.
Não se trata aqui de acreditar ou não em Deus. Conheço muitos ateus versados em arte e capazes de extrair pérolas de territórios íngremes. Há inclusive filósofos que consideram a arte uma espécie de religião ateia. Não discordo. Porque o grande lance é se desvencilhar da breguice que assola o mundo e abraçar o que nos resta no diáfano território do inusitado. Este é um processo criativo que vem sendo abandonado até mesmo pelos poetas atuais.
Tenho outro amigo que dizia: “Não existe mistério. Existe apenas a ignorância humana.” Tá, ok. Mas, a cada mistério desbravado e exposto ao sol em sua essência, uma nova faceta do mistério se revela e a nossa sabedoria se indigna diante de tanta surpresa renovada. Até a sabedoria se curva ao poder do desconhecido com a maturidade da vida.




Informação bem bacana sobre as calêndulas. Obrigada, Romualdo.