Campanha propõe 31 dias sem álcool para reduzir riscos cardiovasculares
Movimento internacional chega ao Brasil e ganha adesão de quem busca reavaliar consumo de bebidas alcoólicas após festividades de fim de ano
Dr. Humberto Magno Passos na campanha Dry January (Janeiro Seco)
O Janeiro Seco, conhecido internacionalmente como Dry January, surgiu em 2013 no Reino Unido por intermédio da organização Alcohol Change UK. A iniciativa propõe a suspensão do consumo de bebidas alcoólicas durante o mês de janeiro, período que segue as festividades de fim de ano, quando o consumo tende a aumentar.
O cardiologista da Santa Casa de Piracicaba, Humberto Magno Passos, destaca a importância da iniciativa para a saúde cardiovascular. “É uma tendência global, principalmente quando a gente fala em risco cardiovascular. Essa é uma proposta de que janeiro seja ‘seco’, ou seja, que a gente se abstenha totalmente do álcool. Isso tem um impacto em relação à doença cardiovascular extremamente importante, e 30 dias já modificam e são suficientes para a gente mostrar esses benefícios”, afirma.
A abstinência temporária permite que o organismo se recupere dos efeitos do álcool. Estudos indicam que 30 dias sem consumo podem reduzir marcadores inflamatórios no fígado, diminuir a pressão arterial e melhorar a resistência à insulina, segundo explica o cardiologista.
Benefícios para o coração
Passos explica que os ganhos cardiovasculares aparecem em diferentes aspectos. “Você tem melhor controle da pressão arterial, a chance menor de ter alguma arritmia, principalmente a fibrilação atrial, que é chamada também nesse momento de síndrome do coração do feriado. Nesse período, presenciamos um aumento da incidência dessa arritmia”, diz o cardiologista.
O médico acrescenta que a pausa no consumo de álcool modifica a arquitetura do sono e o metabolismo. “Além disso, o corpo registra redução de peso, melhora da glicemia e, com isso, obviamente, a diminuição da resposta inflamatória sistêmica. Isso tem um grande impacto em termos de risco cardiovascular”, afirma Passos.
Mudança de padrão ao longo do ano
O cardiologista ressalta que começar o ano sem álcool pode influenciar o consumo nos meses seguintes. “Outro dado interessante é que ao ficar 30 dias sem álcool, a chance de que durante o ano se consuma muito menos álcool ou não consuma álcool é absolutamente muito maior do que eventualmente não tendo essa rotina”, explica.
A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como substância psicoativa que causa dependência e está associado a mais de 200 doenças. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que 18,8% da população consome álcool de forma abusiva. O Instituto Nacional de Câncer relaciona o consumo de bebidas alcoólicas ao desenvolvimento de pelo menos sete tipos de câncer, incluindo boca, faringe, laringe e fígado.
Termômetro para autoavaliação
O Janeiro Seco não se restringe a pessoas com dependência química. A proposta atinge também consumidores sociais que desejam reavaliar sua relação com o álcool. Passos reforça a recomendação da campanha. “Eu recomendo para você aproveitar esse tempo, entre outras coisas, mas principalmente para aderir a essa campanha do janeiro seco, que é uma campanha extraordinária, que vem ao encontro com a saúde do coração”, afirma o cardiologista.
Passos ressalta que a experiência serve como termômetro para avaliar o espaço que a bebida ocupa na vida cotidiana, percebendo se há alguma dificuldade em manter a sobriedade ou se há uma ansiedade em compensar o período sem beber com consumo excessivo posterior. “Ambos os sinais são preocupantes e podem ser indicativos da necessidade de uma assistência médica. Vale lembrar, no entanto, que a iniciativa não substitui tratamento médico para casos de dependência alcoólica, que requerem acompanhamento profissional”, conclui o médico.



