
O canabidiol (CBD), substância extraída da Cannabis sativa, pode representar uma alternativa promissora para o controle do biofilme dental e prevenção de problemas bucais, como as cáries. Um estudo realizado pela pesquisadora Anna Luísa Araújo Pimenta, aluna de pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP, mostrou que enxaguantes bucais à base de canabidiol apresentam resultados semelhantes aos da clorexidina, considerada o padrão-ouro de ação antimicrobiana na odontologia, mas com menos efeitos adversos. Os resultados foram publicados na revista científica Clinical Oral Investigations.
Desenvolvida sob orientação da professora Fernanda de Carvalho Panzeri, do Departamento de Materiais Dentários e Prótese da FORP, a pesquisa surgiu da necessidade de encontrar alternativas mais seguras para o uso prolongado do enxaguatório. “A clorexidina, apesar de ser o padrão ouro, é um produto químico que traz diversos efeitos adversos, como o manchamento dos dentes e a alteração do paladar, e por isso não pode ser administrada por muito tempo”, explica a pesquisadora.
A equipe também buscava estudar uma alternativa de origem natural. O grupo de pesquisa já trabalha com produtos naturais e escolheu o canabidiol porque a substância tem apresentado, entre outros efeitos, ação contra microrganismos. A ideia era descobrir se ele poderia ser usado em um produto de higiene bucal e se teria um efeito semelhante ao da clorexidina.
Dispositivo com esmalte de dentes bovinos em ambiente oral humano
A equipe utilizou um modelo experimental no qual as amostras permanecem expostas ao ambiente bucal dos voluntários participantes durante o experimento. O enxaguante com canabidiol, porém, não foi usado diretamente na boca dos participantes e também não foi aplicado nos dentes humanos.
Em vez disso, os pesquisadores utilizaram fragmentos de esmalte de dentes bovinos. Esse material é usado em pesquisas odontológicas porque o esmalte dos dentes de boi apresenta uma estrutura bastante parecida com a do esmalte humano. Os dentes bovinos foram cortados em pequenas partes e polidos para que todas as amostras tivessem uma superfície semelhante.
Os fragmentos não foram colados nos dentes dos voluntários. Eles foram presos em um dispositivo removível, parecido com uma placa, feito sob medida para cada participante e colocado no céu da boca. Cada dispositivo recebeu seis fragmentos de esmalte bovino, três de cada lado.
Dessa forma, o esmalte bovino ficava dentro da boca dos participantes e entrava em contato com saliva, temperatura e bactérias presentes naturalmente na boca. Isso permitiu que os pesquisadores observassem o que acontecia com o esmalte em condições mais próximas das encontradas no dia a dia. O que foi testado, portanto, foram os efeitos dos enxaguantes sobre os fragmentos de esmalte bovino dentro desse dispositivo, e não sobre os dentes dos voluntários.
Ao todo, 13 participantes passaram por cinco fases de testes. Em cada uma delas, utilizaram um tipo diferente de enxaguante: um placebo, a clorexidina a 0,12% e três formulações contendo canabidiol, nas concentrações de 0,01%, 0,05% e 0,1%. Cada etapa durou sete dias.
Durante esse período, os pesquisadores analisaram se os enxaguantes provocavam mudanças na superfície e na resistência do esmalte, alterações na sua cor e na formação de biofilme, aquela camada fina e pegajosa formada principalmente por bactérias. Também verificaram a presença de leveduras, que são tipos de fungos, e observaram as amostras com um microscópio eletrônico, equipamento que permite ampliar muito a superfície do material.
Para simular uma situação de exposição frequente ao açúcar, um dos lados do dispositivo recebia uma solução de sacarose a 20% oito vezes por dia. O outro lado não recebia a solução e servia como comparação.

Na imagem, temos fragmentos de esmalte representando cada um dos grupos do estudo: Placebo, CBD 0,01%, CBD 0,05%, CBD 0,1% e CHX 0,12% (a clorexidina). O objetivo dessa imagem é justamente comparar visualmente todos os grupos e mostrar a diferença de cor entre eles, principalmente para evidenciar que o grupo da clorexidina ficou com uma coloração mais escura/amarelada do que os demais grupos.
Mesma eficácia no controle das bactérias com menor efeito colateral
Entre as concentrações avaliadas, o CBD a 0,05% foi o que apresentou o resultado mais equilibrado. A formulação conseguiu controlar a formação de biofilme de maneira semelhante à clorexidina, ajudou a manter a resistência do esmalte e apresentou menor alteração na cor.
Esse resultado é importante porque a clorexidina já é conhecida por sua capacidade de controlar o biofilme, mas seu uso por muito tempo pode causar efeitos indesejados, principalmente o escurecimento dos dentes e alterações no paladar. Por isso, atualmente os pesquisadores procuram alternativas que mantenham uma boa ação contra o biofilme, mas que possam apresentar menos desses efeitos.
De acordo com a pesquisadora Anna Luísa, as concentrações de 0,05% e 0,1% mostraram potencial para substituir a clorexidina em determinadas situações clínicas. “A principal vantagem é justamente evitar os efeitos adversos que a clorexidina apresenta com o uso prolongado, mantendo uma eficácia parecida no controle do biofilme.”
A concentração mais baixa, de 0,01%, teve uma ação mais limitada contra o biofilme. Já a de 0,1% conseguiu controlar o biofilme, mas apresentou um pequeno aumento na rugosidade do esmalte quando comparada à clorexidina em uma das situações avaliadas. O CBD a 0,05% apresentou um resultado mais equilibrado: conseguiu controlar o biofilme sem provocar alterações importantes na superfície do esmalte e ajudou a manter sua resistência.
As imagens obtidas ao longo do estudo também mostraram diferenças entre os grupos. A clorexidina foi a que mais alterou a cor do esmalte, deixando as amostras mais escuras e amareladas. Já os grupos que receberam canabidiol apresentaram alterações menores na cor.
Na análise do biofilme, o CBD a 0,05% e o CBD a 0,1% tiveram resultados semelhantes aos da clorexidina. As imagens feitas com o microscópio eletrônico também mostraram que o biofilme formado nos grupos de clorexidina e CBD a 0,05% era menos espesso e mais organizado do que o observado no grupo que recebeu placebo e no grupo com CBD a 0,01%.
Apesar dos resultados positivos, as pesquisadoras ressaltam que o uso clínico do produto ainda depende de novas investigações. Entre os próximos passos estão a ampliação do número de participantes, o acompanhamento por períodos mais longos e a realização de estudos voltados à segurança e à eficácia do enxaguante. Também será necessário investigar por quanto tempo o efeito do canabidiol permanece na boca depois da aplicação.
Depois dessas etapas, caso os resultados sejam confirmados, ainda serão necessários estudos de segurança a longo prazo e outras etapas para que um produto comercial possa ser desenvolvido, incluindo os procedimentos regulatórios e um eventual registro na Anvisa.
Matéria: Susana Oliveira | Jornal da USP.






