O cirurgião oncológico Henrique Cesta, da Santa Casa de Piracicaba, alerta para a importância de investigar alterações persistentes no hábito intestinal
Quando se fala em câncer, prevenção nem sempre significa apenas descobrir a doença cedo. No câncer de intestino, existe também a possibilidade de identificar e retirar lesões precursoras antes que elas se transformem em um tumor maligno.
Esse é um dos aspectos que tornam a prevenção e o rastreamento particularmente importantes no câncer colorretal, doença que se desenvolve no cólon ou no reto e que, em grande parte dos casos, tem origem em pólipos — lesões inicialmente benignas que podem sofrer alterações ao longo do tempo.
Segundo o cirurgião do aparelho digestivo da Santa Casa de Piracicaba Henrique Cesta (CRM 144.216), a retirada dessas lesões durante a investigação permite interromper, em determinadas situações, a evolução que poderia levar ao câncer. “É uma característica importante desse tumor: temos a possibilidade de atuar antes mesmo que o câncer esteja estabelecido”, explica.
A atenção à doença ganha relevância diante de sua frequência. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo 26.270 entre homens e 27.540 entre mulheres. Excluindo os tumores de pele não melanoma, é o segundo tipo de câncer mais incidente tanto em homens quanto em mulheres no País.
Prevenção começa nos hábitos de vida
Embora nem todos os casos possam ser evitados, alguns fatores relacionados ao estilo de vida interferem no risco de desenvolver câncer colorretal. Manter alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controlar o peso corporal, não fumar e evitar o consumo de bebidas alcoólicas estão entre as medidas associadas à prevenção.
“É uma doença relacionada a diferentes fatores. Há aqueles que não podemos modificar, como idade e histórico familiar, mas existem fatores ligados ao estilo de vida sobre os quais podemos atuar”, destaca Cesta.
Pessoas com histórico familiar de câncer colorretal ou de pólipos, doenças inflamatórias intestinais e determinadas condições hereditárias precisam de avaliação individualizada, pois podem apresentar risco aumentado e necessitar de acompanhamento específico.
Não esperar pelos sintomas
Outro ponto importante é não associar a investigação apenas ao surgimento de sintomas. Em suas fases iniciais, o câncer colorretal pode não provocar manifestações perceptíveis.
Quando presentes, sinais como sangue nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal, episódios prolongados de diarreia ou constipação, dor ou desconforto abdominal, perda de peso sem causa aparente, fraqueza e anemia devem ser investigados.
“Esses sintomas não significam necessariamente que a pessoa tenha câncer, mas devem ser investigados, principalmente quando persistem. A avaliação médica permite identificar a causa e definir se há necessidade de investigação complementar”, explica o cirurgião.
Rastreamento ganha novo recurso no SUS
Em 2026, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o Teste Imunoquímico Fecal (FIT) como exame de referência para o rastreamento do câncer colorretal em homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos.
Realizado a partir de uma pequena amostra de fezes, o teste identifica quantidades de sangue que não são visíveis a olho nu e que podem estar relacionadas à presença de pólipos, lesões precursoras ou câncer. Quando o resultado indica necessidade de investigação, o paciente é encaminhado para exames complementares, como a colonoscopia.
Para Henrique Cesta, prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce precisam caminhar juntos. Isso porque o câncer de intestino é uma doença tratável e, na maioria dos casos, apresenta possibilidade de cura quando identificado precocemente, antes de atingir outros órgãos.
“O objetivo é justamente não esperar a doença avançar para agir. Conhecer os fatores de risco, manter hábitos saudáveis, realizar o rastreamento quando indicado e investigar sinais persistentes aumentam nossas possibilidades de prevenção e de diagnóstico em fases mais favoráveis ao tratamento”, conclui.




