Queda da patente de canetas emagrecedoras deve beneficiar o combate à obesidade no país, avalia especialista da Unesp
Adriano De Marchi comenta o fim da exclusividade de direitos de laboratório sobre a semaglutida
O ano de 2026 marcará uma nova fase da luta contra a obesidade no Brasil. No dia 20 de março, a patente da semaglutida – princípio ativo do Ozempic e do Wegovy – expirou no país, o que significa que outros laboratórios interessados na comercialização de medicamentos genéricos e biossimilares poderão iniciar suas produções, desde que recebam o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como consequência, espera-se uma redução entre 10% e 15% no valor de mercado das canetas emagrecedoras, tornando-as mais acessíveis à população com indicação de uso. Para Adriano De Marchi Jr., médico endocrinologista que lidera o Ambulatório de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), a mudança deve resultar em um impacto importante no combate à obesidade no país.
Até então, a patente pertencia à farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, que recebeu autorização da Anvisa em 2018 para utilizar o medicamento Ozempic no tratamento do diabetes tipo 2. Pouco depois, o medicamento passou a ser usado off-label, ou seja, para uma finalidade diferente daquela aprovada na bula, devido aos bons resultados apresentados na perda de peso. Hoje, a farmacêutica possui o Wegovy, uma versão com semaglutida focada no tratamento da obesidade.
Além da queda da patente, também em março deste ano, a prefeitura do Rio de Janeiro passou a ofertar a semaglutida via SUS (Sistema Único de Saúde). Serão contemplados, inicialmente, 320 pacientes com obesidade nível 3 e comorbidades associadas. Espera-se que 10 mil pessoas recebam o medicamento nos próximos três meses. Outras cidades do Brasil ainda não anunciaram planos de oferecer o medicamento.
Por dentro da caneta
Qualquer um que já se debruçou sobre um prato cheio de comida gordurosa conhece aquele sentimento de estar de barriga cheia. A sensação de saciedade e estufamento é causada pelas incretinas, que são hormônios intestinais secretados durante a alimentação. Um desses hormônios é o GLP-1, que entra na corrente sanguínea e, ao alcançar o cérebro, ativa o centro de saciedade. A incretina também diminui o trânsito gástrico, fazendo com que o estômago demore mais para ser esvaziado. Por fim, mas não menos importante, o GLP-1 mobiliza algumas células do pâncreas para secretar mais insulina, hormônio responsável pelo controle da glicose no sangue.
O GLP-1 está presente no Ozempic, o que justifica seu uso inicial no tratamento de pessoas com diabetes. Esses pacientes apresentam uma produção insuficiente ou má absorção de insulina, necessitando de medicamentos para controlar os níveis de açúcar no sangue.
Há, no entanto, uma questão: a molécula nativa de GLP-1 dura apenas dois minutos no corpo humano. É isso que nos possibilita já sonhar com uma sobremesa apenas alguns instantes depois de encarar o prato cheio.
De Marchi explica que a indústria farmacêutica desenvolveu uma molécula biossintética que age no corpo por até 157 horas. “Ela tem duração de uma semana e é resistente à degradação. Isso permite que se mantenha na circulação em uma concentração muito alta”, explica.
Pacientes que utilizaram semaglutida apresentaram uma redução de até 20% do peso corporal. O valor é alto, mas ainda não é o máximo que as canetas emagrecedoras podem alcançar. Estudos indicam que o Mounjaro (tirzepatida), desenvolvido pela Eli Lilly, pode resultar em uma perda de peso de até 25%. O número maior está associado à junção do GLP-1 ao GIP, outro hormônio intestinal que atua na queima de gordura e no fornecimento de energia ao corpo.
Uso sem acompanhamento pode trazer riscos à saúde
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que seis em cada dez brasileiros estão acima do peso. Entre 2006 e 2024, a obesidade entre adultos aumentou em 118%, acompanhada pela diabetes (135%), excesso de peso (47%) e hipertensão arterial (31%).
Estudos envolvendo a semaglutida apontam que, além de seus benefícios para o diabetes e para a perda de peso, a substância também está associada à melhora de alguns casos de insuficiência cardíaca, problemas renais e diminuição da gordura no fígado. Pesquisas indicam ainda a redução de sintomas de ansiedade e depressão em usuários do medicamento, embora ainda não seja possível traçar uma causalidade.
O uso das canetas emagrecedoras para fins estéticos, no entanto, comporta alguns riscos, alerta De Marchi. “O principal é a hipoglicemia. A semaglutida estimula o pâncreas a produzir mais insulina. Se as pessoas não estão sendo acompanhadas por médicos, pode ocorrer de o pâncreas produzir insulina demais e causar a queda dos níveis de açúcar no sangue, o que traz uma série de malefícios”, explica.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa emitiu um alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras. O médico diz que essa complicação é potencialmente fatal, embora o risco seja baixo e esteja detalhado na bula. No entanto, a inflamação do pâncreas ainda deve ser vista como um efeito colateral, principalmente por aqueles que utilizam doses não prescritas do medicamento, remédios falsificados ou que não possuem acompanhamento médico.
Em teoria, não é possível adquirir canetas emagrecedoras em farmácias sem apresentação e retenção de receita médica. Na prática, isso não acontece. Além do mercado clandestino, há quem cruze a fronteira com o Paraguai para obter o medicamento a um preço mais camarada, e acabe adquirindo produtos muitas vezes falsificados e sem certificação da Anvisa.
Há ainda a questão do efeito rebote. O reganho de peso não costuma ser observado durante o uso da caneta, mas pode acontecer se o paciente parar de usar a medicação e mantiver os hábitos que levaram ao sobrepeso.
“A estratégia do médico é utilizar a medicação e, assim que o paciente chegar ao peso desejado, realizar o desmame gradativo do medicamento. Enquanto isso, a pessoa deve tentar fazer uma reeducação alimentar e realizar atividades físicas para não ter o rebote. Essa é a estratégia de todo o tratamento”, reforça De Marchi.
Uma alternativa melhor do que a sibutramina
Existe atualmente um medicamento mais barato indicado para a perda de peso. É a sibutramina, substância pesquisada para atuar como antidepressivo na década de 1990. A molécula não demonstrou bons resultados no tratamento de problemas psiquiátricos, mas resultou em redução de peso dos participantes durante ensaios clínicos.
Mas a sibutramina é usada com muita cautela devido aos efeitos adversos intensos que desencadeia, incluindo tremores, insônia e até mesmo infarto e AVC não fatais. Estudos de segurança também mostraram que a substância não deve ser prescrita para pacientes abaixo de 18 anos, ou com mais de 65 anos, nem para pessoas que sofrem de diabetes e hipertensão. A perda de peso ocasionada por esta molécula, estimada entre 5% e 10%, é ínfima quando comparada ao efeito das canetas, e os usuários costumam apresentar reganho de peso após interromperem o uso.
Outra opção para casos de obesidade é a cirurgia bariátrica, intervenção que reduz o tamanho do estômago e altera o intestino para diminuir a absorção de calorias e controlar a fome. De Marchi acredita que o procedimento ainda será indicado por médicos a pacientes que não apresentarem respostas às medicações, mas que esse grupo tende a diminuir.
“Na medicina, tentamos sempre optar pelo que é menos invasivo. Isso aconteceu com a cirurgia cardíaca: antigamente, eram feitas muitas cirurgias em que era preciso abrir o peito, mas o advento do cateterismo diminuiu esse tipo de procedimento. Imaginamos que com as canetas vai ser mais ou menos isso. Ainda haverá indicação para a bariátrica, porém será para uma minoria”, analisa.
A cirurgia bariátrica já é oferecida pelo SUS; não há previsão de que as canetas emagrecedoras sejam incorporadas ao Sistema pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias). Além do alto custo de produção, a semaglutida precisa ser transportada em caminhões refrigerados e mantida em baixas temperaturas nas farmácias e postos de saúde. Isso encarece o medicamento.
Incorporação pelo SUS pode ser repensada?
Em 2025, a Novo Nordisk solicitou a incorporação das canetas emagrecedoras ao SUS, mas a Conitec recomendou ao Ministério da Saúde que rejeitasse o pedido devido ao impacto financeiro, estimado em R$ 8 bilhões anuais. Agora, com a queda da patente, outras farmacêuticas poderão produzir o medicamento e pedir novas avaliações ao Ministério da Saúde.
É possível que esse preço diminua após a queda da patente. Se isso ocorrer, abre-se a possibilidade de que sua incorporação ao leque de tratamentos do SUS seja analisada outra vez. Para que um novo medicamento seja incorporado ao SUS, primeiro é conduzido um estudo de farmacoeconomia que estima o montante de verbas públicas que serão poupadas caso o tratamento seja disponibilizado à população.
“Se uma pessoa tem diabetes descontrolado, pode apresentar inúmeros fatores de risco. Ela pode perder a visão, ir para diálise, precisar de um transplante. Tudo isso gera muitos gastos para o SUS e para o sistema previdenciário também, porque eventualmente essa pessoa pode precisar parar de trabalhar”, exemplifica De Marchi. “Muitas vezes, ao fazer essa conta, constata-se que fica mais barato para o Estado disponibilizar o tratamento por meio do sistema público”, diz.




