
A missão de informar uma pessoa de que a saúde dela não vai tão bem quanto ela esperava com certeza não é fácil para o médico. Agora, imagine um médico recém-formado. Uma pesquisa realizada em São Paulo com médicos residentes e publicada na revista Biomédica concluiu que nove em cada dez jovens não se sentiam capacitados para dar uma má notícia a seus pacientes. O médico cardiologista Ricardo Tavares de Carvalho, diretor executivo do Centro Integrado de Cuidado Paliativo da Faculdade de Medicina da USP, especialista em Bioética, diz que o resultado não surpreende e que a pandemia só fez o cenário se agravar.
“Isso não é uma surpresa. O problema das questões e habilidades de comunicação entre médicos vem sendo estudado de maneira progressiva na literatura desde 2010, mais ou menos, com um salto em 2015, e a partir da pandemia isso estourou, porque foi quando essas questões ficaram muito flagrantes e muito complexas naquela circunstância.”
A falta de treinamento específico e de preparo emocional é o principal desafio. Carvalho associa a condição com a formação do jovem, já que a medicina não é uma área diretamente ligada à comunicação. “As habilidades de comunicação não estão dentro da formação do profissional médico na graduação, nem na dos outros profissionais da área da saúde, de uma forma mais específica. Essas questões estão no dia a dia e com uma grande complexidade do conhecimento médico e das opções, e a questão de uma maior informação da população, má informação, via de regra, com inteligência artificial, Google, etc., as pessoas ficam mais combativas, exigentes, dificultam a comunicação, mas, independentemente disso, a mediação de conflito e lidar com essas situações são habilidades específicas, que os alunos não têm.”

Mudanças
A boa notícia é que esse quadro está mudando, principalmente dentro da Faculdade de Medicina da USP. As atividades estão ocorrendo de maneira progressiva na clínica médica, passando pelo 6º ano, cuidados paliativos e no estágio. Mesmo assim, o especialista entende que a carga horária ainda é reduzida. “Aqui na Faculdade de Medicina, por exemplo, a gente tem uma liga acadêmica já há muito tempo e especificamente na graduação focada em cuidado paliativo e comunicação, as atividades acontecem de maneira progressiva. Desde 2023, nós temos uma disciplina obrigatória no internato, ligada ao Departamento de Clínica Médica, onde são vistos os tópicos mais importantes. A questão da comunicação é abordada no 6º ano, também dentro de um rodízio de cuidado paliativo no estágio de Clínica Médica. Mas é uma carga horária bastante pequena. A gente está olhando para isso e as diretrizes curriculares nacionais desde 2002, incluindo o cuidado paliativo é a área que ficou mais voltada para o desenvolvimento de habilidades de comunicação”, explica.
Mas será que existe uma forma de treinamento para o médico dar a notícia que nenhum familiar quer ouvir durante a graduação? Com a resposta, o diretor executivo do Centro Integrado de Cuidado Paliativo da USP: “Essa questão da comunicação não é intuitiva e ela pode ser aprendida. Tem gente que tem uma facilidade natural, outros não, mas existe técnica. E esta técnica pode ser ensinada e aprendida. Isso exige treino, isso exige experiência e cada um vai adquirindo no seu tempo. O que a gente pode fazer é de fato melhorar a capacitação e olhar para isso como uma competência específica e necessária”, detalha.
Inevitabilidade
Informar um familiar ou um paciente que está com uma doença sem cura, ou que precisa tirar um órgão ou ainda dar um diagnóstico de uma doença grave ou morte de algum familiar é, sem dúvida, uma missão que não pode ser adiada. A má notícia nunca vai virar uma boa notícia, mas existem formas de acolher e ajudar esse paciente. “Veja, notícia ruim diz respeito a qualquer tipo de problema, de perda, de informação que possa gerar angústia, medo. A morte é uma delas. Mas os doentes crônicos, por exemplo, em que a chance de recuperação é incerta ou é difícil, ou o indivíduo vai ficar sequelado e não vai se recuperar, ou o indivíduo vai precisar de um cuidado que eventualmente ele não tenha condição de arcar, isso faz com que o indivíduo tenha dificuldade de manter seu emprego. Então, todo esse contexto, que vai muito para além da doença, tudo isso significa perda. E você falar de alguma coisa que faz as pessoas sofrerem, elas não querem ouvir, elas reagem. E é difícil para a gente, para o médico, dizer que não vai curar e que não vai ficar tudo bem”, avalia Carvalho.
Matéria: Sandra Capomaccio | Jornal da USP.



