Nomeação de Carlos Nobre como conselheiro do papa Leão XIV reforça diálogo entre ciência e Igreja
Indicação do climatologista brasileiro destaca protagonismo da agenda ambiental no Vaticano e amplia voz da Amazônia no debate global

A nomeação do climatologista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, como conselheiro do Papa Leão XIV, reforça o papel crescente da ciência nas discussões globais promovidas pelo Vaticano, especialmente em temas ligados às mudanças climáticas e à preservação ambiental.
Nobre passa a integrar um conselho consultivo formado por especialistas de diferentes áreas do conhecimento, responsável por oferecer subsídios técnicos e científicos às reflexões e posicionamentos da Santa Sé. Embora não tenha função deliberativa, o grupo exerce influência relevante ao embasar documentos, encíclicas e iniciativas internacionais lideradas pelo papa, sobretudo em agendas que envolvem ética, sustentabilidade e justiça social.
Surpresa muito positiva
O cientista destacou a importância e o caráter inesperado da indicação. “Sem dúvida, foi uma surpresa muito positiva quando fomos informados que o Vaticano, lá em Roma, anunciou várias ações e uma delas era a criação de um conselho de desenvolvimento humano integral. Convidaram 11 novos membros e eu estava nessa lista”, afirmou.
Nobre também ressaltou o caráter singular de sua participação no grupo. “Da lista, eu sou o único da América do Sul e também o único cientista ambiental, mudanças climáticas, Amazônia, os biomas brasileiros.”
Alerta climático e risco global
Reconhecido internacionalmente, Carlos Nobre é uma das principais referências em ciência do clima, com trajetória consolidada no estudo da Amazônia e de seus impactos no sistema climático global. Ao longo da carreira, participou de importantes iniciativas internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, contribuindo para relatórios que fundamentam políticas globais.
O pesquisador reforçou o cenário crítico enfrentado pelo planeta. “Estamos vivendo a maior crise ambiental que nós, humanos, já enfrentamos desde que criamos as civilizações. Corremos um enorme risco porque estamos criando mudanças climáticas enormes e podemos chegar em 2100 com grande parte do planeta até inabitável”, alertou.
Segundo o pesquisador, regiões equatoriais e áreas ao nível do mar podem se tornar inabitáveis ao longo de todo o ano, enquanto outras sofreriam condições extremas durante períodos prolongados. “Isso pode prejudicar toda a biodiversidade do planeta, podendo até levar a uma sexta extinção de espécies se a temperatura subir cerca de 4° até 2100”, completou.
Aproximação entre fé e ciência
A aproximação entre ciência e Igreja tem se intensificado nos últimos anos, especialmente após a publicação da encíclica Laudato si, que trata do cuidado com a “casa comum”.
Nesse contexto, a presença de um cientista brasileiro no conselho do papa Leão XIV sinaliza não apenas o reconhecimento internacional da produção científica nacional, mas também a centralidade da agenda ambiental no debate contemporâneo.
Para Carlos Nobre, a participação no conselho pode contribuir para ampliar o alcance das ações ambientais a partir da influência global da Igreja. “Vamos torcer muito para que esse comitê possa orientar o papa a combater essa crise. Os papas têm um poder muito grande, então precisamos trazer todos esses elementos para preservar o desenvolvimento humano e, junto com isso, salvar toda a vida no planeta”, concluiu.




