Na hora de construir uma narrativa acabo me atrapalhando e revelando certas coisas que deveriam ficar apenas entre nós dois
Lulinha, meu bravo guerreiro. Fiz de tudo para que você fosse um exemplo de homem para mim. Inteligente, determinado, objetivo, como são os homens de sucesso, para não falar apenas de mim mesmo.
De tudo o que eu sabia, ensinei um pouco. Minhas narrativas caíram como uma luva para o seu espírito ousado e disposto a aventuras. O que eu nunca pensei é que um dia você pudesse causar-me sérios problemas públicos devido, exatamente, aos meus ensinamentos.
O que eu não queria que você soubesse, foi o que você aprendeu mais rapidamente: subir na vida nas costas do seu pai. Para ser franco, eu gostava mesmo quando você era apenas um menino que alimentava os animais do zoológico.
Naquela função, eu conseguia ver a sua grandeza, usando como exemplo a ideia de que os animais eram os homens com os quais tenho que lidar diariamente. O máximo para mim era quando você dava carniça às hienas.
Mas você foi além, porque eu vislumbrei em você um homem de sucesso, como já disse, e lhe abri as portas para a ascensão social. Foi um erro de análise pelo qual pago um preço muito alto hoje. Coincidência, né?
Gamecorp era apenas um joguinho para eu testar suas habilidades. E você se deu bem e me venceu. Só que depois, as facilidades do poder lhe subiram à cabeça. Tudo se deu sob a minha bênção. As empresas começaram a te procurar para parcerias e sociedades. O que imaginei e proporcionei a você foi para que o passado de pobreza se desfizesse no ar e se tornasse apenas uma ideia de um passado folclórico. Me esqueci que você já nasceu rico.
Agora me chega a informação, que eu não sabia e você sabe muito bem que eu não sabia, vamos combinar, sobre essa tal Roberta Luchsinger, esse tal Careca do INSS, esse tal Marcola. Eram amigos seus de escola?
Para ser sincero, alguma coisa do Marcola eu conhecia sim, tanto é que achei boa a ideia de ele ser meu assessor especial. Nada disso, no entanto, tem a ver com essa relação promíscua que você estabeleceu entre o meu governo, que é republicano, e sua ideia de fazer dinheiro fácil com essa gente, que não sai de perto.
Se de alguma forma eu te ajudei a chegar aonde você está — claro, sou seu pai e sou também presidente da República, não necessariamente nessa ordem --, o seu progresso faz parte de uma Ordem que não é essa da bandeira, mas de como nós, aqui do PT, a interpretamos desde os anos 1980. São as mesmas palavras da bandeira, mas apostando em uma outra ordem... mais real e prática para todos nós.
Antes que eu me perca, vou tentar dar um desfecho para estas minhas palavras. Elas são sinceras. Gostaria imensamente que você desaparecesse. Não como a mãe de Woody Allen, no céu de Nova York, e sim que você voltasse ao zoológico, como aquele menino simples que dá comida aos animais. Me ajudaria até na campanha essa sua humildade.
Hoje, meu filho, você está fazendo mais o papel de robalo ao lado de tubarões. Tenho a certeza, inclusive, de que você sequer entendeu esta metáfora e prefere ficar com a sua parte nesse mar em que o tubarão mais exposto sou eu.
Volte ao zoo, meu filho. Lá você terá a sua parte e o mundo verá que aqui existe um homem sincero, que merece governar o Brasil por mais quatro anos. Ouvi falar, inclusive, que na Espanha esse serviço de alimentar animais pode ser feito virtualmente, sem sair de casa. Aí poderei dizer que você avançou, sem se esquecer dos seus princípios.
Vou fazer o seguinte: preciso mostrar esse texto para o Sidônio, antes de torná-lo público, senão acabo escrevendo coisas que eram para comover o leitor e não para revelar nossos segredos. A ideia de “construir uma narrativa” às vezes me atrapalha e acabo falando algumas verdades sobre mim mesmo. Até 2027.
Como tudo vaza hoje em dia, se esta carta vazar, mudarei o disco e não vou afirmar que não sabia de nada, mas apenas que não assinei nada. Essa tenho certeza que cola, porque as pessoas pensam, inclusive, que não sei escrever um linha sem tropeçar na gramática.



