O que cartomantes e cientistas políticos têm em comum?
A cultura humana está baseada na capacidade de predição do futuro: Ciência, Religião, Filosofia e Arte
A antecipação do futuro sempre obcecou a humanidade. Nos primórdios, havia a preocupação com a sobrevivência, sobretudo com a comida. Como diz Woody Allen, a pergunta que guia a humanidade desde sempre é uma só: “onde vamos jantar esta noite?”
Parece uma pergunta fútil à primeira vista, típica de um urbaninho sofisticado. Mas pense bem, há mais nuances, e sabedoria, nesta única frase do que em muitas teses de sociologia ou antropologia e em palestras-show do Pablo Marçal.
Antecipar o que virá tornou-se um dos nossos segredos para sobreviver nesta terra. É claro que para fazer isto, percebemos que os ciclos de dia e noite, aparição da lua no céu, sucessão de estações, enchentes e seca dos rios, foram decisivos para planejarmos o que viria à frente, e garantir que em tal e tal época os animais migravam em busca de água, em outra as árvores e plantas floresciam, em outras davam frutos e sementes comestíveis, e assim por diante.
Todos os ciclos da natureza que pudemos constatar serem periódicos, foram a base da nossa cultura, e por isso somos bilhões, em vez das poucas centenas de macacos pelados, na aurora dos tempos. É o que nos liga aos nossos antepassados da savana e os foguetes, como os da missão Artemis II, que na quarta (01/04), começou sua viagem ao redor da lua.
A visão excepcional de Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick, no filme 2001: uma odisséia no espaço, liga essas duas épocas, dos hominídeos àos foguetes, Estação Espacial Internacional, sondas robóticas em Marte e até os confins do sistema solar.
Mesmo que a especulação, poética e sutil, ao som de Strauss, com um osso que se transforma numa estação espacial, tenha inspirado um vigarista como Erick Von Danninken, nos delírios do livro “Eram os Deuses Astronautas?”. Sim, a história de “2001” gerou bons frutos, como o filme “Interstellar”, de Cristopher Nolan, mas também levou o alemão pilantra a falsificações e a exploração de teorias conspiratórias na década de 1970 e além, unindo grosseiramente discos voadores a interpretações equivocadas (e, considero, de má-fé) de toda a história humana da Antiguidade e das mitologias religiosas do mundo inteiro.
Uma “teoria” que antecipou os crédulos da Terra Plana, da Igreja de Jesus Marciano e da Ilha onde estão Elvis, Marylin Monroe, John Lennon e os Mamonas Assassinas, repleta de “forçação de barra”, esticando os fios da História além do razoável, os arrebentando.
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Saber o que virá no dia do amanhã evoluiu de observação atenta aos ciclos naturais para a Ciência. Já na Antiguidade, a astronomia desenvolveu-se para anteciparmos a eles e nos preparar devidamente para enchentes nos rios, que enchiam os canais de irrigação necessários para as plantações e navegação em alto-mar, para citar os mais úteis.
Nasceu assim a Ciência. Que desenvolveu-se de forma tão sofisticada que hoje prevemos o futuro de várias formas, com ferramentas científicas: a balística, que determina a trajetória de um foguete, lançado de um local determinado, e que se espera atingir a órbita terrestre, a Lua ou as proximidades do planeta Saturno, não é um tipo de previsão do futuro? Assim a evolução estelar, de uma nuvem de gás, passando pela fase de estrela, e ao fim, transformando-se em um buraco negro?
Quase todas as aplicações científicas possuem o fundo não-confessado, ou muitas vezes, até admitido, de estudar o que houve no passado, o que acontece no presente, para que se possa projetar no futuro. Até as ciências humanas o fazem: é uma frase de senso comum hoje dizer que “estudamos História para não repetirmos os erros do passado”. Outra área que pretende predizer o amanhã, e controlá-lo, é um dos campos da psicologia, aliado à sociologia: a engenharia comportamental. Que pretende entender (já faz isso em grande parte) como funcionam os comportamentos do ser humano para planejar o comportamento futuro de grupos, e até sociedades inteiras.
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No entanto, sempre houve, e sempre haverá, “furos” em nossa capacidade de planejar o que virá. Quanto mais antigo o povo, mais ele perceberá essa falha em nossa capacidade de antever o porvir: por isso surgem os sortilégios, os feitiços, os encantamentos, o apelo às forças da natureza e de dimensões além do físico, que já no começo creditamos serem os puxadores de cordões invisíveis de nossas vidas. Primeiro os animais foram venerados, talvez simultaneamente os espíritos dos nossos mortos, depois os deuses. Que precisavam ser aplacados em sua fúria, necessitavam serem agradados, convencidos a interferir em nosso destino de uma forma benéfica, ou maléfica para os nossos inimigos.
Eram forças que conhecíamos mas não compreendíamos, misteriosas, além do entendimento e muito menos do nosso controle. Era o Sagrado, força, mistério e controle de nossas vidas.
Foi por conta das tentativas de descrever e controlar esta esfera é que surgiram a Magia, a Feitiçaria, videntes como Mãe Diná e Nostradamus, leitores de tripas de animais, profetas, sacerdotes, a Mitologia.
E também as Artes, a Medicina, a Filosofia, a Teologia e as Religiões.
Assim, antes da astronomia, nasceu da astrologia. Ambas descrevem e predizem eventos, mas somente uma é divinatória, ou seja, depende de forças invisíveis, divinas, para ter utilidade.
Como nossa vida sempre terá elementos de incerteza, pois nunca compreenderemos todo o Universo, nem o Passado, o Presente e o Futuro, é que, para todo o sempre, haverá adivinhos, videntes, profetas, leitores de bolas de cristal, cartas e outros sinais. O destino, de uma pessoa ou de toda a humanidade, sempre terá à disposição tradutores que enxergam presságios em idiomas ocultos da borra de café, linhas da palma da mão ou o padrão formado por sementes e conchas do mar caindo sobre um tabuleiro.
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As histórias mitológicas, que as religiões incorporaram e refinaram, respondiam às perguntas sobre de onde viemos, o que somos e, principalmente, para onde iremos depois da morte. O nosso futuro individual e também o do grupo que conta a história.
Assim, aliada à procura de respostas, nasceu a Literatura, uma das artes. Outras delas, como a pintura, a escultura, a música, também tinham elementos do sagrado.
Foi dessas mitologias e o debate em torno delas, unida à especulação científica dos porquês da nossa existência que, além da Religião, surgiu também a Filosofia.
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Com o tempo, as grandes religiões, como o budismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, refinaram essas histórias a ponto de transformá-las em cosmologias coerentes. No cristianismo, por exemplo, a História é circular, começando em Deus e terminando n’Ele. Todo o drama da existência humana é mediado pela expectativa da vinda do Ungido, o Cristo, em sua vida terrestre e na espera de sua segunda vinda, quando então os eventos do Fim do Mundo se desdobrarão. Para o cristão, o que virá já está pronto, o que dá ao crente mais fiel e observante da lei de Deus a segurança de um futuro todo planejado.
Duas observações de Jesus, nos Evangelhos, transmitem essa segurança ao que crê: no sermão da montanha, Ele pede para os que creem para não se preocupar com o dia de amanhã, pois somente os pagãos o fazem, Deus é Pai e por isso providencia o alimento dos filhos; e quando diz que nem Ele, que é o Filho de Deus, sabe a data do Fim do Mundo, somente Deus Pai detém essa agenda.
Em ambas passagens, Jesus não deixa de dizer que haverá provações. Por isso, acredito que o cristianismo é uma religião realista, que adverte o tempo todo que a vida é um vale de lágrimas, as provações, dificuldades e tormentos não são escondidos de ninguém. Mas também uma religião de esperança, que acredita no poder do amor, da confiança e da cooperação.
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Um terceiro campo une o poder da arte com o da previsão: a ficção científica. Ou para os íntimos, a FC.
A FC como toda arte, é ferramenta mas também pode ser fonte de conhecimentos e até sabedoria. Já foi usada como propaganda política, mas é um veículo fabuloso de difusão de ideias. Cientistas a utilizam para debater ideias que partem da Ciência mas entram em salas do conhecimento onde a Filosofia reina; só de cabeça, lembro-me do psicólogo behaviorista B.F.Skinner (autor de Walden Two), o astrônomo e cientista planetário Carl Sagan (autor de Contact), e o físico Gregory Benford (autor de muitos livros de FC, como a saga galática Center).
Muitas pessoas confundem a FC como uma literatura de futurologia. Essa confusão é natural, porque embora não sejam raros os exemplos de contos e romances que falem do presente, a maioria das peças do gênero implica em explorar os desdobramentos de alguma tecnologia ou teoria científica, real ou imaginária, sobre indivíduos ou a sociedade. Assim são as histórias sobre robôs, computadores / “cérebros eletrônicos”, engenharia genética, viagem no tempo, utopias e distopias, além das mais conhecidas histórias sobre viagens espaciais e colonização dos planetas.
Por isso, outra confusão, também compreensível, é de que a FC trata sempre da Viagem Espacial, foguetes, vida em outros planetas, exploração humana do sistema solar etc. Sempre no futuro, pois não chegamos a criar colônias de assentamento nem mesmo na Lua, que é mais próxima; nem dispomos ainda de sociedades vivendo em órbita da Terra, a presença humana nas duas estações espaciais permanentes, a ISS (Estação Espacial Internacional) e a Tiangong 2 (a estação espacial chinesa), tem ocupação contínua, mas não se trata ainda de pessoas que moram lá.
Especular sobre tecnologias que podem ser desenvolvidas, a partir do conhecimento científico, inspirou cientistas e técnicos a realizar o que um dia foi só previsão. Assim, Júlio Verne com seus romances “Da Terra à Lua” e “Ao redor da Lua”, que foram citados por Neil Armstrong, no retorno da primeira viagem que fez um pouso na Lua, em 1969; assim como as histórias de robôs de Isaac Asimov, as mais famosas reunidas no livro “Eu, Robô” (1950), que até hoje são referências no desenvolvimento tecnólogico da robótica (eis o nome do robô produzido pela Honda, o Asimo, homenagem explícita ao autor) – mesmo sendo uma obra literária, e não científica.
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Planejamento a partir de dados concretos, desenvolvimento planejado segundo a razão, vaticínios, presságios e profecias – Ciência, Religião, Filosofia, Literatura – são todas faces não de uma moeda, mas de um dado, onde a sorte e o azar podem depender de quem os joga, e da maneira que o faz.
Disse Einstein que Deus não joga dados, mas cartomantes deitam cartas de tarô, economistas preveem o futuro dos negócios, filósofos e sociológos sugerem sociedades como a República platônica ou a Oceania orwelliana.
Neste ponto, gostaria de prever um futuro específico, mas creio ser mais um desejo que uma antevisão do que virá: um futuro em que inteligências, naturais ou artificiais, nos ajudariam a pensar, e tornar realidade, sociedades onde razão e compaixão pudessem caminhar juntas, como o leão e o cordeiro, num cenário onde drones fossem usados somente para tirar fotos aéreas, e armas fossem convertidas em arados e tratores.



