Patrimônio artístico e cultural: as Igrejas de Piracicaba (01)
Matriz e Catedral de Santo Antônio

A primeira igreja de Piracicaba foi sua Matriz, tendo sido alojada em cinco edifícios diferentes ao longo de 259 anos.
Sua primeira versão tem a data provável de 1770, três anos após a fundação oficial (1767). Não era mais que uma choupana com telhado de palha e paredes de pau-a-pique, e estava no primeiro local em que a povoação foi instalada, na margem direita do rio, onde hoje é o Engenho Central - mais precisamente, no local próximo à Ponte Estaiada.
O desenho hipotético da primeira Matriz, aqui apresentado, é muito conjectural, e é certo que tenha sido muito mais simples, modesto, do que o edifício digno que aqui se mostra. Como conta Mário Neme, em “História da Fundação de Piracicaba” (1974), o capitão-povoador Antônio Correa Barbosa, no local da povoação, “levantou um telheiro, para servir interinamente de capela”. De 1767 a 1774, o povoado era ligado à Paróquia de Itu, e de lá vinha, quando Deus quisesse, um padre para ministrar Missa e os sacramentos.
Somente em 1774 é que foi criada a Paróquia de Santo Antônio de Piracicaba, e empossado o primeiro pároco, João Manuel da Silva. Em 1775, de acordo com o primeiro censo local, Piracicaba era vilarejo com 45 casas, contando com 231 habitantes.
A segunda versão da Matriz já foi construída no alto da colina onde hoje se encontra a Catedral. O local havia sido designado no arruamento realizado em 1784, quando a povoação fora transferida da margem direita do rio para a margem esquerda. Na época, o local onde hoje é o centro era bem distante de onde se concentrava a maior parte da população urbana, que refez suas casas em torno do Largo dos Pescadores, na rua da Praia (hoje, ali, está a avenida Beira Rio; somente mais adiante, está a rua do Porto).

Como era comum no interior paulista, a matriz foi edificada com a técnica da taipa de pilão, basicamente barro fresco, não queimado, socado e seco dentro de caixas de madeira, que formam as paredes. Também era comum, em cidades como Itu, São Paulo e Sorocaba, construções de taipa ruírem com o passar do tempo, por conta de infiltrações de água que faziam praticamente a parede “derreter”; o barro, ao ser umedecido, começava a vazar pelas frestas e fragilizava as paredes, causando a ruína e queda do edifício. Foi o que acabou acontecendo com a segunda Matriz, que desabou completamente em 1833.
Outra igreja, no entanto, já tinha sido iniciada em torno da segunda matriz. De 1834 a 1843, a obra seguiu, sempre com verba pública, já que não havia separação entre Igreja e Estado. Todo o dinheiro de manutenção dos templos católicos, assim como os salários dos padres, vinha todo da Câmara Municipal.
O terceiro edifício da matriz teve seu impulso principal realizado pelo pároco Manuel José de França, em 1836. O templo foi concluído por Miguel Dutra, o Miguelzinho, artista pioneiro paulista e, pelo o que consta nas atas da Câmara Municipal, veio morar em Piracicaba em 1844 para ser empreiteiro da construção, que se arrastava. Somente em 1848, no entanto, é que Dutra assumiu a obra. A ornamentação em talha de madeira, dos altares (altar-mor e laterais), imagens, assim como pinturas e outros detalhes, foram totalmente realizados por ele, assim como o término das estruturas principais e a decoração, em estilo barroco tardio, das fachadas. A obra total é dada como terminada somente em 1875, perto da data de morte de Miguelzinho.
É a primeira versão da Matriz, assim como de qualquer outra igreja em Piracicaba que se possa dizer tenha tido um estilo, com um programa artístico sacro. Como já dito, o estilo era o do barroco tardio, mas com adições de neoclássico, e toda a ornamentação interna era feita com talha em madeira - altares mor e laterais, Capela do Santíssimo, paineis decorativos, coro, portas, consistório e outros elementos.
Como curiosidade, lembramos Francisco Nardy Filho, historiador ituano que também pesquisou e escreveu sobre Piracicaba, que conta:
”No dia 28 de fevereiro de 1868, ou seja há 82 anos, Manuel Pereira Aguiar matou um bugio [macaco] na atual rua Direita (hoje Governador Pedro de Toledo), o que quer dizer que ali por perto tudo era mataria virgem. Assim era de fato: todo o madeiramento da Matriz Velha foi tirado no mato que corria além do córrego Itapeva (sobre ele, hoje, encontra-se a Av. Armando de Salles Oliveira)…”
No Brasil do final do século XX, com a influência cada vez maior dos imigrantes que chegavam e repovoavam a província, e depois estado, de São Paulo, assim como a marcada influência da cultura francesa, que em tudo colocou sua marca, levaram à desvalorização da herança colonial, na qual o barroco tardio de obras artísticas como as de Miguelzinho se inseriam. Igrejas e prédios coloniais e barrocos eram considerados feios e acanhados; cada vez mais os estilos vindos da Europa se derramavam em prédios públicos e residências, sobretudo as mais ricas, que faziam questão de se colocar como afinadas ao “bom-gosto”, baseado no neoclássico, no gótico, no art nouveau.
No “Almanak de Piracicaba para o ano de 1900”, vê-se como o gosto mudara a ponto do Dr. Alfredo Moreira Pinto escrever, a respeito do aspecto da Igreja Matriz:
“... um templo velho e feio, tem na frente a torre no centro, um relógio, cinco janelas e uma porta de entrada. Seu interior é por demais singelo. Tem o altar-mor com Santo Antonio, no centro, e em dois nichos, aos lados, N. S. do Rosário e São Sebastião. No corpo da Igreja há dois altares laterais, um com N. S. das Dores e outro de São José. À esquerda da capela-mor fica a capela do Sacramento. À direita do corpo da igreja funciona o consistório da irmandade de São José, com uma capelinha, e à esquerda o consistório do círculo Católico de São Joaquim com uma capelinha de Santa Cruz”. [grifo nosso]
Sentiu-se a necessidade, portanto, de se fazer uma “reconfiguração” externa da Matriz, que foi levada a termo em 1921, e outra interna, em 1925. A fachada foi totalmente renovada em estilo neoclássico, e o interior recebeu nova decoração. Embora utilizando a mesma estrutura do prédio finalizado por Miguelzinho Dutra, esta igreja reformulada é considerada a quarta versão da Matriz de Piracicaba.
Em 1939, a Matriz incendiou-se. A Diocese de Piracicaba foi criada em 1944, por decreto do Vaticano; neste momento, a igreja Matriz estava em ruínas. Em 1946, foi totalmente demolida, e iniciou-se a construção do primeiro edifício que seria a Catedral.
O projeto arquitetônico foi assinado por Benedito Calixto de Jesus Neto, mesmo autor do projeto arquitetônico da nova Basílica de N.S. Aparecida. A obras estendeu-se de 1946 a 1961. Houve alterações importantes na execução do projeto, que previa uma só nave, sem naves colaterais, como hoje se apresenta, assim como uma largura do edifício muito maior, que se provou inviável, por conta de desapropriações de imóveis que teriam de ser feitas em torno do Largo da Matriz.
O estilo arquitetônico da catedral é o neorromânico (arcos de volta perfeita, ou romanos, além dos capitéis das arcadas da nave), com adições neogóticas (rosácea na fachada principal e vitrais).
Possui vitrais da Casa Conrado, responsável pela esmagadora maioria dos vitrais de igrejas e locais públicos da primeira metade do século XX em todo o Brasil; talha em madeira de Eugênio Nardin (cadeiral do presbitério, caixotões do teto, portas), pintura do batistério de Enrico Bastiglia, imagens de santos de várias procedências e épocas (um Senhor Flagelado, que a história oral atribui a Miguelzinho Dutra; uma Nossa Senhora das Dores, de procedência espanhola, do séc. XIX; imagem do Cristo Rei, de procedência desconhecida, mas provavelmente italiana), além de alguns elementos litúrgicos vindos da antiga Matriz, como os candelabros de prata do século XIX no altar principal.
Muitas famílias e pessoas da comunidade piracicabana se mobilizaram para fazer doações para viabilizar tanto a construção como a decoração da nova catedral. É possível verificar, nos pilares da nave, plaquinhas douradas com os nomes gravados dos beneméritos, assim como nos vitrais da Casa Conrado.
No batistério da catedral, do lado esquerdo da entrada principal, encontra-se a pintura de Ernesto Bastiglia, como é tradicional na arte sacra católica, do Batismo do Senhor por João Batista. Conta-se que Dom Aníger Melilo, segundo bispo de Piracicaba, teria optado em utilizar o dinheiro arrecadado para a decoração em pinturas de toda a igreja, para obras sociais beneficiando os pobres. Deu-se em sua gestão o remate das obras, em 1961, com a inauguração das torres sineiras; a ornamentação, no entanto, deu-se por encerrada, e até onde sei, não existem esboços nem projetos de Enrico Bastiglia para as pinturas do restante da Catedral. Se você quiser ter uma ideia de como seria a Catedral toda decorada - sem o imenso vazio do presbitério, uma semicúpula (nome técnico: hemiciclo) sobre o altar principal que teria, quem sabe, um Cristo Pantocrator ou alguma cena da vida de Santo Antônio, assim como a capela do Santíssimo - basta olhar para o batistério inteiramente ornamentado.

Há tesouros artísticos que passam despercebidos na Catedral, como o quadro representando Santo Antônio, pintado por Álvaro Sêga, que hoje está “escondido” nas dependências da secretaria da Catedral. Nela, está uma reprodução do que entendemos ser o projeto original de Benedito Calixto Neto para a fachada.
Outra obra que passa despercebida é o vitral com o santo padroeiro abençoando a cidade, junto do salto do rio.
Restauro recente, realizado entre 2019 e 2023 pela empresa Largo Arquitetura, efetuou a limpeza do verniz das colunas da nave, envelhecido pelo tempo, dos vitrais, de todo o piso, promoveu o restauro da imagem de Cristo Rei (especificamente efetuado pelo artista Aldo Pernambuco Sobrinho) além de ter optado pela substituição do vidro das portas do átrio, por portas entalhadas em madeira, com estilo aproximado ao trabalho de Eugênio Nardin.










