
Com o fortalecimento de políticas de ações afirmativas, as portas das universidades públicas no Brasil abriram-se a uma população antes excluída do ensino superior. No entanto, persistem o que a psicóloga Thamiris Daniel descreve como “catracas invisíveis”. Em seu doutorado, defendido na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, ela ouviu mais de 600 estudantes de todas as regiões brasileiras, todos autodeclarados pretos e pardos. Os relatos revelam o sofrimento vivenciado por esses jovens no ambiente universitário, cujas causas, para a pesquisadora, estão muito mais associadas a determinantes sociais, históricos e institucionais estruturados pelo racismo do que a problemas individuais. A fim de evitar a discriminação e garantir um espaço mais acolhedor, Daniel aponta a necessidade de que as políticas de apoio à permanência estudantil se tornem um dos pilares da universidade pública.
Em 2024, o número de estudantes pretos, pardos e indígenas superou o de estudantes brancos ingressantes no ensino superior público, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A expansão, impulsionada pela Lei de Cotas de 2012, fez explodir também o número de graduados com esse perfil racial: de 2000 a 2022, o número de indivíduos maiores de 25 anos com ensino superior completo passou de 2,1% para 11,7% entre os pretos e de 2,4% para 12,3% entre os pardos.
A jornada universitária, porém, não ocorre sem dificuldades. Psicóloga da Universidade Federal de Itajubá desde 2014, Thamiris Daniel começou a perceber que muitos estudantes negros traziam angústias semelhantes durante os atendimentos. “Havia questões individuais da história de cada um, mas muitos falavam sobre esse sofrimento, que é político. Eu não conseguia simplesmente falar ‘você está com depressão, procure um psiquiatra’. Só conseguiríamos chegar à resposta pensando que existia uma questão na universidade que trazia um sofrimento. Isso começou a me incomodar muito enquanto profissional e enquanto pessoa negra”, conta.
Adesão surpreendente
A experiência e as percepções no cotidiano profissional inspiraram o tema de sua pesquisa no doutorado. Na tese, ela se aprofundou na questão do sofrimento e da permanência de graduandos negros nas instituições federais de ensino superior (Ifes). Na primeira etapa da pesquisa, ela encaminhou questionários a todas as 69 Ifes do país, solicitando a participação dos alunos com um determinado perfil (autodeclarados pretos e pardos, com idade entre 18 e 29 anos) . A adesão surpreendeu: foram mais de 800 respostas. Excluindo aquelas que não atendiam aos critérios estipulados, 614 respostas foram validadas. “Percebemos realmente uma necessidade de falar sobre isso. Muitos viram esse espaço como uma oportunidade para falar sobre o sofrimento, sobre essas dores, mas também para fazer a crítica à estrutura”, aponta a psicóloga.
Nessa etapa, foram criadas categorias de acordo com as respostas: não pertencimento e exclusão, dificuldades socioeconômicas, dificuldades acadêmicas, racismo e reações de estresse emocional, e sofrimento psíquico. “A categoria de ‘não pertencimento e exclusão’ foi a que mais apareceu nos relatos, falando sobre esse sentimento deles de não se perceberem parte da universidade.” Nessa categoria, as respostas apontavam para o problema da falta de representação entre os pares e entre os docentes.
A segunda questão mais presente foram as dificuldades socioeconômicas, apontando para a falta de condições materiais e muitas vezes para a necessidade de conciliar trabalho e estudo. “Isso faz com que eles se sintam muito mais cansados para viver a graduação de uma forma plena”, diz Daniel.
Episódios de preconceito
Já as dificuldades acadêmicas são aquelas relacionadas ao conteúdo ensinado nos cursos. “Isso não tem relação com a dificuldade de aprendizagem ou capacidade intelectual; é a dificuldade com o conteúdo mesmo, e aqui eles fazem muita relação com a escolarização pregressa”, explica.
Na categoria racismo, encontram-se os relatos sobre episódios de preconceito. Enquanto todas as outras categorias estão relacionadas ao racismo estrutural e institucional, esta se refere a casos explícitos de violência racial, explica a autora.
Por fim, as reações de estresse emocional e sofrimento psíquico compreendem sintomas psicossomáticos. “Nos relatos de sofrimento entram a ansiedade, a depressão, dor de estômago e outros problemas de saúde que eles identificaram após o ingresso na universidade.”

Permanência como pilar
Na segunda etapa da tese, Thamiris Daniel realizou entrevistas em profundidade com cinco graduandos, um de cada região do país. Com a análise dos questionários e das entrevistas, a psicóloga desenvolveu o conceito de “sofrimento político racializado”, tomando como ponto de partida a formulação de “sofrimento ético político” da psicóloga Bader Sawaia, segundo a qual há um tipo de sofrimento paralisante causado especificamente por desigualdades e injustiças.
No entanto, após as entrevistas, a autora da tese percebeu que esse sentimento não necessariamente diminui a potência de ação dos indivíduos. “Entendemos que, sim, existe esse sofrimento ético-político. Mas, quando a gente fala disso no caso de pessoas negras, não estamos falando de uma diminuição da potência de agir, mas de um sofrimento que, junto aos seus pares, se traduz em resistência e força de superação”, diz, ressaltando a importância das comunidades afetivas.
Para fazer frente ao problema, a pesquisadora defende o fortalecimento das políticas de permanência. “Esses estudantes conseguem, de certa forma, encontrar caminhos nessas redes de afeto para se sustentar, mas não é o caminho ideal. Precisamos encontrar caminhos institucionais e políticos para que esse sofrimento não aconteça.”
Dessa forma, argumenta, é necessário incorporar a permanência como um novo pilar junto ao tradicional tripé de atuação da universidade – ensino, pesquisa e extensão. “Aí conseguiríamos trabalhar uma universidade que pense de fato em todas as pessoas, e não que continue promovendo uma ‘inclusão perversa’”, pontua a psicóloga, utilizando-se de outro termo cunhado por Sawaia, relativo a mecanismos de inclusão que deslocam para o próprio indivíduo o peso de ingressar em uma estrutura desigual.
Para a professora Ângela Soligo, orientadora da tese, estar na universidade é um motivo de alegria, mas, para o estudante negro, o ambiente universitário gera também sofrimento, como demonstrado na tese de Daniel. Por isso, pensar a permanência como pilar, não apenas como política, mas como eixo estruturante da universidade, é fundamental. A tese, acrescenta, mostra que é preciso assegurar aos alunos negros não apenas vagas nos cursos, mas garantias de que “todos, sem exceção, tenham a possibilidade de se desenvolver profissionalmente, com as mesmas oportunidades na pesquisa, na extensão e nas atividades voltadas para o ensino. E, principalmente, que esses estudantes não sejam discriminados no ambiente universitário. Ainda é um grande desafio.”
Matéria: Liana Coll | Fotos: Antoninho Perri | Jornal da Unicamp.



