Intervenções preventivas de longa duração são importantes para o cérebro no envelhecimento
Thais Bento é autora de um estudo cujo objetivo foi verificar como a estimulação cognitiva pode atuar como método preventivo na preservação da saúde do cérebro de pessoas idosas

Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com o Departamento de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades e o Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento, identificou benefícios durante um programa brasileiro de estimulação cognitiva em idosos escolarizados sem comprometimento cognitivo. De acordo com os pesquisadores, os participantes do método chamado Supera, que seguiram o protocolo, apresentaram redução de 60% nas queixas cognitivas, uma melhora aproximada de 45% na memória ao longo de um ano, considerando funções executivas e cognição geral. Também houve queda de 29% nos sintomas depressivos. A gerontóloga Thais Bento, autora principal do estudo e pesquisadora do HC, revela que, quando se pensa num declínio cognitivo associado a doenças, vive-se no Brasil e no mundo um problema de saúde pública que só está crescendo, sobretudo na população idosa, o que, por outro lado, está ligado à maior expectativa de vida, ocasionando uma prevalência de casos de doença de Alzheimer, entre outros tipos de demência, todas elas doenças progressivas, com tendência a afetar habilidades como memória, raciocínio, linguagem, além de causar alterações de comportamento e interferir diretamente na autonomia e na qualidade de vida das pessoas por elas afetadas.
“Hoje, quando a gente fala no envelhecimento saudável, a gente sabe que é possível que uma pessoa tenha comorbidades associadas à idade, mas ela tem que ter essas comorbidades controladas para manter a sua autonomia durante o processo de envelhecimento”, diz ela. “Ter um cérebro saudável, preservado, é um dos mecanismos que vão possibilitar um envelhecimento com autonomia e independência.” A medicina de hoje oferece controle dos sintomas, retardando a progressão da doença, mas não existe cura definitiva para a demência. Daí a importância, segundo Thais, de se falar de prevenção – e é nesse sentido que caminha o estudo intitulado Programa Brasileiro de Estimulação Cognitiva, do qual é uma das principais colaboradoras e que consistiu na aplicação, em idosos saudáveis, de exercícios chamados multicomponentes, caracterizados por serem variados e de longa duração e por focarem na estimulação cognitiva da saúde mental e do bem-estar. Três grupos de idosos participaram desse estudo, dos quais um deles seguiu etapas de um método conhecido como Supera, ao longo de 18 meses.
Resultados
De acordo com Thais, os idosos que participaram do método Supera apresentaram redução de 60% nas queixas cognitivas, relatando menor frequência de esquecimentos no dia a dia e, consequentemente, uma diminuição do risco de evolução para quadros mais graves. Além disso, houve melhorias relacionadas ao desempenho de memória recente em comparação aos outros dois grupos de controle. Outros benefícios adicionais incluem redução de sintomas depressivos e melhorias na percepção da qualidade de vida.
A médica frisa que a estimulação cognitiva é um tipo de recurso não farmacológico, “que vai buscar melhorar, otimizar ou manter funções cognitivas em pessoas adultas e idosos”. Posto isso, ela explica que os idosos participantes do programa se submeteram a testes envolvendo lápis e papel, exercícios de estratégia e de raciocínio lógico, cálculos mentais e jogos de tabuleiro, além de dinâmicas de grupos para desafios intelectuais. “Esse estudo traz respostas importantes para lacunas científicas, porque, no Brasil, foi o primeiro estudo de longa duração que foi realizado nesse contexto de estimulação cognitiva. A estimulação cognitiva pode ser realizada em qualquer fase da vida, antes mesmo do surgimento de sinais de declínio cognitivo.” Do que se conclui, segundo ela, que a prática regular de atividades intelectualmente desafiadoras vai contribuir para fortalecer o que se chama, na neurociência, de reserva cognitiva, “que é um mecanismo de proteção do cérebro associado a uma resistência a doenças que vão surgindo no envelhecimento”.
Nesse sentido, o estudo mostrou ser possível que intervenções preventivas de longa duração sejam viáveis num contexto de serviços de saúde e de assistência social, para contribuir para a promoção de estratégias de saúde no envelhecimento. “Além disso, nosso objetivo agora é trazer fundamentação para a implementação de políticas públicas preventivas, para que as pessoas possam ter acesso a esse tipo de programa, que possa ser um direito da população, diminuindo assim o risco de desenvolvimento de demência como a doença de Alzheimer.” Thais acrescenta ainda que os estudos prosseguem, graças a financiamentos da Fapesp, com o intuito de dar sequência aos modelos de programação de estimulação cognitiva num contexto preventivo, mas agora visando a pessoas vulneráveis e com baixa escolaridade, “para a gente entender como essas pessoas adultas e idosas também respondem a um programa de estimulação cognitiva estruturada”.




