Primeira hora: Chavão abre porta grande
Quem acompanha a política no Congresso Nacional já percebia sinais de que Motta estava por um triz para o dia nascer feliz
Li muitas crônicas produzidas para o Estadão pelo sociólogo norte-americano Matthew Shirts. Em uma delas, ele contou sobre uma palestra ocorrida na universidade onde estudou sobre o valor de um homem. Faz tempo.
Recordo apenas que o palestrante afirmava categoricamente que todo homem tem um preço. Assim que concluiu sua tese, um aluno do fundão apresentou uma pergunta, que cai como uma luva para este texto: “Quanto o senhor quer para mudar de ideia?”
Não me recordo também do desfecho da crônica. No mínimo deve ter desenrolado um debate sobre os níveis do diálogo e a intenção do palestrante, cuja tese tinha um foco específico, etc.
É o “embromeichon” da sociologia quando se mistura a parte com o todo e tenta-se generalizar o que não é generalizável. Mas não é de todo uma tese desprezível quando se tenta analisar os políticos de Brasília.
Agora temos o caso do senador Hugo Motta, que seria uma espécie de sócio de Daniel Vorcaro, segundo a Polícia Federal.
Quem acompanha a política no Congresso Nacional já percebia sinais de que Motta estava por um triz para o dia nascer feliz.
Depois que ele foi pego com um dono de empresa de apostas em viagem para paraíso fiscal (Saint Martin, ilha caribenha), ao lado de Ciro Nogueira e outros parlamentares, o sinal ficou amarelo para ele. Agora fechou.
Se todo homem tem um preço, poderíamos generalizar mais um ditado popular: boi preto anda com boi preto. Se o senador Hugo Motta estava na viagem suspeita com o presidente da Câmara, o deputado federal Ciro Nogueira, o que temos a dizer do fecho da PF sobre eles?
Ao brasileiro, cabe sempre apostar no trabalho intensivo da PF. O problema é que ela se contrapõe ao trabalho político do Congresso Nacional e do STF. O braço de força só aumenta e a imprensa tem que fazer sua parte.
A imprensa independente é o melhor caminho para que a verdade venha à tona. Nunca o jornalismo investigativo teve tanta importância nesse país. Como sempre.
Afinal, todo homem tem um preço? Boi preto anda com boi preto? O ditado popular não é uma chave para a verdade suprema, mas é, no mínimo, um chavão para abrir porta grande, no dizer do nosso poeta. Esta é mais uma homenagem que faço a Itamar Assunção.




