País de choceiras
A alavanca do progresso no Brasil continuará sendo burro de carga de governos felizes juntos aos seus protegidos de sempre
Quanto mais procuro entender como funcionam as eleições brasileiras para presidente, mais difícil eu acho explicar o que percebo.
Minha intuição me leva a um país politicamente pobre, a um eleitorado passivo, pero non mucho, incapaz de ser prático para enfrentar a necessidade de mudanças, ou, por outro lado, pragmático demais ao aceitar as coisas como elas são, tranquilamente.
Lula, com seu olhar populista, ainda é um líder carismático. Sua forma de fazer política, que na prática prejudica os pobres devido à inflação e às taxas de juros, ainda funciona. Em um país com um nível socioeconômico e cultural maior, será que seria diferente? Há analistas que observam a não-relação entre riqueza e capacidade de escolher o melhor candidato, como o ocorrido nas últimas eleições nos EUA. Até acredito quando temos uma eleição com aquele que poderíamos chamar de melhor candidato.
O sistema político brasileiro entrega aos eleitores figuras estranhas, incapazes de empolgar, a não ser pelo aspecto ideológico. Lula é um personagem ideológico. Flávio, idem. Hoje se confunde esse olhar ideológico dos candidatos com a capacidade de transformar o Brasil, o que na prática não faz sentido direto.
Estamos com Lula há muito tempo e nada mudou. Passamos por Jair Bolsonaro, que também foi um fiasco. Novamente estamos diante de um Lula e um Bolsonaro, o Flávio. Com um pouco de honestidade na análise, é difícil ser otimista com o que virá, independente de qual ganhar. A loucura ideológica engole os dois e a visão de Brasil desaparece de ambos, a não ser no plano dos clichês.
Mas o eleitor está cauterizado. Não considera mais o quanto a corrupção já dominou o cenário, para onde quer que se veja. É como se a corrupção já fizesse parte do cenário. Não comove mais. É como se o projeto de Brasil do amanhã fosse o do Brasil que é. A notícia do dia, no máximo da semana, até que modifica um pouco os ânimos, quando o tema é Vorcaro, pro exemplo, mas como o sistema de poder protege o corrupto de colarinho branco, não se vislumbra um desdobramento mais certeiro de combate ao crime, e a decisão popular é deixar tudo isso para lá.
Então, acompanhamos sempre uma eleição triste, em que o eleitorado tem que escolher figuras mórbidas, oportunistas, interesseiras, corruptas... sem qualquer proposta séria para o país, a não ser se instalar no poder e ali ficar, usufruindo das benesses. Lula é isso. Já deixou de governar faz tempo. O próprio Jair Bolsonaro gostava mais de proteger seus filhos das falcatruas em que eles estavam metidos e andar de Harley-Davidson falando asneiras país afora doque de governar.
Tudo indica, estamos fadados a viver mais quatro anos de vacância intelectual, técnica e cultural no poder. Já apontei várias vezes que a tendência é um eleitorado passivo, tapando o nariz e se arriscando em duas possibilidades medíocres. Amigos analistas me dizem que este é o Brasil e temos que escolher dos males o menor. Mas esta concepção de males menores ou maiores é ideológica. Há a turma que se alimenta do golpe de estado fake de Jair Bolsonaro e sua turma, e aquela que vê Lula como um homem que não pensa mais nada além de viajar e fazer a polícia do voto com a população carente. Uma polarização infrutífera e que vai nos levar a um novo beco sem saída. O Brasil continuará sendo insignificante e a classe média continuará carregando nas costas essa insensatez.
A alavanca do progresso, por aqui, continuará sendo burro de carga de governos felizes juntos aos seus protegidos de sempre. Um pais de choça. Brincando com Nelson Rodrigues e a Copa do Mundo, um país de choceiras. O neologismo é meu.




