Acesso mundial à cirurgia de catarata avança, mas milhões ainda estão sem tratamento
Estudo internacional destaca desigualdades econômicas e de gênero no acesso, além de identificar desafios para manter qualidade de cirurgia, que tem grande custo-benefício

A catarata é atualmente a principal causa de cegueira evitável no mundo. Embora a cirurgia seja considerada um procedimento seguro, eficaz e de baixo custo, milhões de pessoas ainda convivem com deficiência visual por falta de acesso ao tratamento adequado. Apesar da meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para um aumento de 30% na qualidade e cobertura nesses procedimentos até 2030, um estudo global acaba de informar que esse número não deve passar dos 8,4 pontos porcentuais até a data definida.
Além da baixa estimativa projetada, o estudo coloca em evidência as desigualdades entre regiões ricas e pobres, com acesso amplo aos ricos e falta de especialistas, serviços limitados e custos elevados como barreiras ao acesso das populações mais pobres. Destaca ainda diferenças de acesso entre gêneros, maior déficit de atendimento às mulheres.
Publicados na revista The Lancet Global Health, esses são os principais resultados da revisão bibliográfica de artigos abrangendo diferentes regiões do planeta. Professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e integrante da equipe de pesquisadores, João Marcello Furtado conta que a principal motivação do estudo foi “medir, de forma comparável entre países e regiões, se as pessoas que precisam de cirurgia de catarata estão, de fato, conseguindo acessar o procedimento e, além disso, estão obtendo um bom resultado visual”.

Dados globais
A revisão utilizou dados de 233 levantamentos populacionais, abrangendo 68 países no período entre 2003 e 2024. A amostra incluiu principalmente adultos com 50 anos ou mais, contemplando indivíduos com diferentes graus de comprometimento visual. Além disso, o estudo reuniu participantes de diversas regiões do mundo, o que permitiu uma análise mais ampla e representativa das desigualdades no acesso à cirurgia de catarata em escala global.
Informa o professor Furtado que esses dados foram obtidos a partir de bases abertas do Global Vision Database e também por contato direto com investigadores para acesso a bancos individuais. “A padronização ocorreu com a aplicação de uma definição comum de cobertura cirúrgica efetiva de catarata, usando critérios uniformes para necessidade de cirurgia e para bom resultado visual pós-operatório”, detalha ele. Além disso, as estimativas foram ponderadas por idade e gênero, e os autores priorizaram, para cada país, os estudos mais recentes e mais representativos.
Desigualdades persistentes
Como resultados centrais, embora tenham encontrado avanços relativos no acesso global à cirurgia de catarata, os pesquisadores constataram a persistência de lacunas importantes que fazem da meta da OMS para 2030 um objetivo distante. A projeção indica um aumento de apenas 8,4 pontos porcentuais entre 2020 e 2030, bem abaixo dos 30 pontos propostos.
Ainda assim, observa-se uma tendência de crescimento na cobertura efetiva desde os anos 2000. Segundo o professor, esse avanço pode ser explicado por uma combinação de fatores, como a ampliação da oferta de cirurgias em diversos países, a maior organização dos programas de saúde ocular, a adoção de metodologias padronizadas de monitoramento, o fortalecimento de iniciativas nacionais e regionais de combate à cegueira evitável e os avanços na formação de profissionais e na capacidade cirúrgica.
Apesar dos avanços observados, a pesquisa evidencia uma grande desigualdade entre os países. Em nações de alta renda, o acesso à cirurgia é mais amplo e estruturado. Já em regiões de baixa renda, persistem desafios como a escassez de especialistas, a limitação dos serviços oftalmológicos e os custos, que ainda representam uma barreira significativa para a população.
Qualidade nos cuidados pós-cirúrgicos
Outro ponto destacado pelo estudo é a qualidade do cuidado ao longo da linha assistencial. “Não basta operar mais; é preciso operar bem e garantir refração, óculos quando necessários e manejo de complicações”, explica o professor. Nesse contexto, parte dos resultados insatisfatórios após a cirurgia poderia ser evitada ou tratada. Segundo Furtado, “o erro refrativo residual, por exemplo, foi responsável por cerca de 26,4% dos desfechos visuais considerados inadequados, sugerindo que melhor refração e correção óptica após a cirurgia poderiam aumentar de forma mensurável a cobertura efetiva”.
A análise também evidencia desigualdades de gênero no acesso ao tratamento. Em alguns países, as mulheres apresentam menor acesso à cirurgia de catarata em comparação aos homens. “A explicação mais provável é estrutural. Em muitos contextos, mulheres enfrentam maior dependência econômica, menor autonomia para buscar cuidado, mais barreiras de mobilidade, maior carga de trabalho doméstico e de cuidado, e menor prioridade dentro da própria família para procedimentos eletivos.”
Desafios definem os próximos passos
Por fim, o professor avalia que, apesar dos avanços, o progresso ainda está aquém do necessário. “A cirurgia de catarata é uma das intervenções mais custo-efetivas da saúde, mas milhões de pessoas seguem sem acesso ao procedimento. Mantido o ritmo atual, a meta global para 2030 dificilmente será alcançada”, afirma.
Furtado também destaca que a ampliação do acesso precisa caminhar junto com a qualidade do atendimento. “A distância entre a cobertura cirúrgica total e a cobertura cirúrgica efetiva mostra que parte dos pacientes chega à cirurgia, mas não atinge o resultado esperado.”
Os próximos passos da pesquisa se concentram em duas frentes principais: o aprimoramento da mensuração, com a ampliação de dados provenientes de países ainda pouco representados, e o aprofundamento da avaliação da qualidade do cuidado oferecido ao longo de toda a linha assistencial. “Em termos práticos, a agenda agora é menos descrever o problema de forma geral, e identificar onde, em cada contexto, a linha de cuidado está falhando e como corrigi-la.”
Matéria: Hugo Carcci | Jornal da USP



