Armazenamento geológico de CO2 é uma das principais estratégias para viabilizar a descarbonização
Nesse contexto, argumenta Mariana Ciotta, ele passa a ter um papel bem importante dentro do conjunto de soluções da transição energética

O papel do armazenamento geológico de CO2 (dióxido de carbono) no Brasil, especialmente no contexto da transição energética e das metas de descarbonização, é um tema que tem ganho relevância internacional e que apresenta potencial no País, quando se levam em conta suas bacias sedimentares e formações geológicas favoráveis, além da integração com soluções como bioenergia com captura e armazenamento de carbono, capazes de poder posicionar o Brasil como protagonista em estratégias de emissões negativas. Há dois estudos (Greenhouse Gases – 2026 – OrdoñCost Analysis Insights for Offshore CCS Hubs A Case Study of the Santos Basin Brazil e Protocol for modeling integrated CO2 geological storage hubs in offshore environments) recentes sobre o tema, dos quais um analisa os custos e a viabilidade de hubs de armazenamento offshore na Bacia de Santos, enquanto o outro propõe um protocolo para modelagem integrada desses sistemas.
“O armazenamento geológico de CO2 é considerado hoje uma das principais estratégias para viabilizar a descarbonização, especialmente em setores onde a redução de emissões é mais difícil, como a indústria de cimento, aço e algumas atividades energéticas”, afirma, logo de início, a professora Mariana Ciotta, do Departamento de Geologia Ambiental e Aplicada do Instituto de Geociências (IGc) da USP. “Nesse contexto, ele passa a ter um papel bem importante dentro do conjunto de soluções da transição energética”, prossegue ela, que integra um grupo de cerca de 20 pesquisadores da USP, estudiosos do tema, os quais estão aglutinados em torno do IGc, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e da Escola Politécnica e que atuam em diferentes etapas da cadeia, desde a captura, transporte até o armazenamento, um trabalho que se estende ainda em projetos feitos em parcerias com empresas do setor de energia. “O objetivo é contribuir para que a geologia participe, de maneira mais ativa, na construção de soluções para a transição energética, não apenas como uma área de diagnóstico, mas também como parte efetiva da implementação de pontos estratégicos.”
Na sequência, Mariana detalha os dois estudos relacionados ao tema, já mencionados acima, que são complementares, sobre o armazenamento geológico do CO2. O primeiro deles, embora destaque os aspectos econômicos da questão, tem como principal resultado estar relacionado à geologia, enquanto o segundo tem um caráter mais metodológico e propõe um protocolo integrado para avaliação de projetos de armazenamento. Nesse aspecto, a geologia aparece como elemento estruturante da análise. Diz ela que a aplicação desse protocolo na Bacia de Santos mostra “que a qualidade do sistema geológico é condição necessária, ainda que não suficiente, ela precisa estar associada a uma avaliação integrada para que o projeto seja viável. Esses dois estudos mostram que a geologia é um fator central que condiciona tanto a viabilidade quanto a segurança do armazenamento geológico do CO2”.
Formas de armazenamento
Segundo Mariana, o armazenamento geológico de CO2 pode ocorrer em diferentes tipos de formação geológica, que apresentam características distintas em termos de capacidade, comportamento e grau de maturidade, como, por exemplo, os aquíferos salinos, relevantes por apresentarem uma grande capacidade de armazenamento em escala regional. As formações basálticas, por sua vez, têm recebido atenção crescente, sobretudo pela capacidade de mineralização do CO2. “Em síntese, essas abordagens já possuem uma base científica consistente e têm experiências práticas em andamento. O desafio atual está menos na viabilidade técnica e mais na ampliação de escala, redução de incertezas e também na integração dessas soluções a estratégias climáticas e industriais.”
Mariana destaca a seguir o potencial do Brasil em atuar no desenvolvimento do armazenamento geológico do CO2, por possuir um conjunto de condições particularmente favoráveis para tanto e estratégias associadas à transição energética. “Do ponto de vista geológico, o País possui bacias sedimentares extensas, tanto no ambiente continental quanto no offshore, e formações que apresentam características que são potencialmente adequadas para o armazenamento de CO2, e isso é um ponto importante, porque a disponibilidade de formações compatíveis é um dos fatores que vão condicionar a viabilidade desse projeto”. Além disso, o País ocupa uma posição de destaque na produção de bioenergia, especialmente com a cadeia do etanol. Ela complementa: “De um ponto de vista mais amplo, o País possui elementos importantes, uma base geológica e capacidade produtiva em bioenergia e também experiência industrial. Quando esses elementos são considerados de forma integrada, indicam um potencial significativo de atuação nesse campo. Ao mesmo tempo, o avanço dessas iniciativas vai passar pela consolidação de um ambiente institucional adequado – isso vai incluir aspectos regulatórios, definição de responsabilidades e também mecanismos que viabilizem a implementação em escala”.




