Coisas dos velhos tempos
Ele estava absurdamente fora da nossa dimensão de vida. Um modernista na lua.
De vez em quando, o professor João Chiarini me vem à memória. Mas não de forma positiva, porque eu não tive um bom relacionamento com o mestre.
Ele foi meu professor de primário e dava aula ao terceiro ano, no colégio Jaçanã Altair Pereira Guerrini, mestre-escola, bondosa e exemplar.
Lá se vão meio século. Mas ele estava presente com seu modernismo, tentando nos ensinar sobre mula-sem-cabeça e saci-pererê, duas personagens que a gente conhecia na prática.
Chiarini era agressivo. Atirava giz com violência na cabeça dos alunos, dava reguada e puxava a costeleta até o limite da dor insuportável de quem ele bem entendesse.
Ali eu já percebia estar diante de um homem problemático. Replicante e falacioso.
Ele gostava sim de molhar as plantas do jardim da escola e levava a criançada junto. Minha mãe que não gostava muito de ver o estado de sujeira da nossa roupa no dia da empreitada.
Nunca memorizei uma frase do teatro do Saci com a mula, cujas falas ele escrevia com cores diferentes na lousa. Ele estava absurdamente fora da nossa dimensão de vida. Um modernista na lua.
Até que cresci e me tornei universitário. Estávamos nos anos 1980 e o mestre era presidente da Academia Piracicabana de Letras. Comecei a frequentar a biblioteca da academia e via Chiarini com frequência.
Sua fama de fodão e de fardão já eram conhecidas. Superestimava sua excelência sem fazer esforço. “Li Joyce (ele queria dizer Ulisses) em 9 horas”, costumava afirmar, para demonstrar sua desenvoltura cultural.
Até então, eu não conhecia ninguém que tivesse gastado menos de três meses para o mesmo intento. Mas vá lá. Era o mestre. Eu, o aluno, o discípulo.
Até que um dia ele me pediu para convidar meu pai para um evento da Academia. Não me recordo se era lançamento de livro ou entrega de medalhas. Pelo meu desprezo por medalhas, acho que o acontecimento era para isso.
Resolvi poupar meu pai, de quem ele era amigo. Um dia após o tal evento, fui à biblioteca. Meu interesse nessa época era pelo belo acervo de livros ao qual passei a ter acesso, pelas mãos do mestre.
Mas Chiarini não me poupou ao saber que não dei o recado. Simplesmente me expulsou da biblioteca e disse que eu jamais pisaria naquele espaço.
De fato, ele estava com a razão. Mas o lance foi tão agressivo que toda obra de Chiarini, que eu considerava pífia, se desfez no ar para mim. Anos após fiquei sabendo que o mestre seria candidato a vereador.
Outra notícia desastrosa. Ele não foi eleito e teve uma votação esvaziada. Não demorou muito para ser anunciada sua morte. Motivo: trauma, é o que dizem. Suponho que ele tenha expulsado muita gente do seu convívio cultural, como fez comigo.
Coisas dos velhos tempos.





