Como detectar e tratar cardiopatias congênitas desde os primeiros meses de vida
Consideradas a malformação mais frequente na infância, as cardiopatias congênitas exigem diagnóstico precoce e acompanhamento especializado para garantir melhores resultados clínicos
“O ecocardiograma fetal é a principal ferramenta para identificar malformações cardíacas ainda durante o pré-natal”, ressalta a cardiologista
A palavra “congênito” vem do latim e significa “nascido com”. No caso das cardiopatias congênitas, isso implica uma formação inadequada do coração ainda dentro do útero — um processo que ocorre nas primeiras oito semanas de gestação, quando o órgão ainda está se desenvolvendo no feto. Segundo dados do Ministério da Saúde, aproximadamente 29 mil crianças nascem por ano no Brasil com alguma dessas malformações. “As cardiopatias congênitas constituem um grupo amplo e heterogêneo de alterações estruturais do coração”, explica a cardiologista pediátrica da Santa Casa de Piracicaba Marta Maria Azevedo de Carvalho Amorim (CRM 199.045). “O espectro é amplo: há defeitos menos graves que podem ser acompanhados clinicamente e malformações críticas que exigem cirurgia nas primeiras horas após o nascimento.”
A incidência estimada é de 8 a 10 casos por mil nascidos vivos, o que torna as cardiopatias congênitas a malformação mais prevalente na infância — à frente de outras alterações genéticas e estruturais. Apesar disso, o diagnóstico ainda chega tarde em muitas situações. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 6% das crianças diagnosticadas morrem antes de completar o primeiro ano de vida, o que coloca essas condições entre as principais causas de óbito por defeitos congênitos no País.
QUANDO SUSPEITAR
Os sinais variam conforme o tipo e a gravidade da malformação. Em recém-nascidos e lactentes, a médica orienta que pais e cuidadores fiquem atentos a sintomas como cansaço durante a amamentação, interrupções frequentes para recuperar o fôlego, sudorese excessiva e ganho de peso insuficiente. “A cianose — aquela coloração arroxeada nos lábios — é um sinal de alerta importante e não deve ser ignorada”, destaca Marta Amorim. “Em alguns casos, a criança pode ter dificuldade respiratória persistente ou infecções respiratórias de repetição, o que também justifica investigação cardiológica.”
Entre as cardiopatias mais diagnosticadas estão a comunicação interventricular, a comunicação interatrial, a persistência do canal arterial, a coarctação de aorta e a tetralogia de Fallot. Há ainda formas críticas, como a transposição das grandes artérias e a síndrome da hipoplasia do coração esquerdo, que exigem cirurgia nas primeiras horas ou dias de vida. “Nesses casos, cada hora conta. Por isso o diagnóstico pré-natal ou imediatamente após o parto faz toda a diferença no desfecho clínico”, afirma a especialista.
A presença de síndromes genéticas eleva a probabilidade de cardiopatia associada e requer investigação cardiológica específica desde o período neonatal.
O PAPEL DO DIAGNÓSTICO PRECOCE
O ecocardiograma fetal é a principal ferramenta para identificar malformações cardíacas ainda durante o pré-natal. Por meio desse exame, é possível detectar alterações estruturais antes do nascimento e planejar o local e as condições do parto, garantindo suporte imediato ao recém-nascido quando necessário. “Quando identificamos uma cardiopatia ainda no útero, conseguimos organizar toda a cadeia de cuidados: desde a equipe presente no parto até o encaminhamento para cirurgia, se for preciso”, explica Marta.
Após o nascimento, a investigação cardiológica pediátrica inclui análise do histórico familiar, exame físico cardiovascular, eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma. Casos mais complexos podem demandar angiotomografia ou cateterismo cardíaco. “Cada exame contribui para um mapeamento mais preciso da anatomia cardíaca e orienta a escolha do tratamento mais adequado”, diz a médica.
O tratamento varia conforme o tipo de cardiopatia: alguns defeitos se resolvem com medicação ou acompanhamento clínico ao longo do tempo; outros requerem intervenção por cateterismo ou cirurgia cardíaca. Em todos os casos, o acompanhamento especializado e contínuo é determinante para a qualidade de vida da criança. “A cardiologia pediátrica avançou muito nas últimas décadas. Hoje, crianças com cardiopatias complexas chegam à vida adulta com boa qualidade de vida — desde que sejam diagnosticadas e tratadas adequadamente”, conclui Marta Amorim.




