Conforme as investigações da Polícia Federal avançam, a situação de Alexandre de Moraes vai ficando mais complicada, e o STF amplia sua dificuldade para defendê-lo. Esta semana, o Portal UOL recuperou várias mensagens trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, suposto dono do Banco Master, e o que se percebe é uma proximidade que leva automaticamente à conclusão: eram amigos.
Mas a pergunta que não quer calar é: o que levou Moraes a pedir o passaporte de Flávio Bolsonaro na mesma noite em que saiu o resultado da eleição presidencial? Se o ministro tinha tanta certeza do risco de fuga do derrotado, como Flávio conseguiu articular em tempo recorde a fuga sem que o ministro ficasse sabendo em tempo hábil e sem que a Polícia Federal tivesse condições mínimas para rastreá-la ou impedi-la?
Flávio foi mais esperto que Moraes? Parece que a fuga foi planejada com antecedência para dar tão certo como deu. Como se Flávio já antevisse sua derrota e, assim, tivesse deixado tudo pronto. Questionado sobre o assunto, ele garantiu que levará essa história consigo para o caixão, sem que ninguém fique sabendo, além dos seus familiares.
Mas quem ganhou e quem perdeu com o roteiro maluco que ganhou as manchetes dos jornais no dia seguinte? Suponho que Flávio saiu enfraquecido. Mas não dá para dizer que Moraes ganhou. Até porque ele ampliou seu antagonismo com o Senado, onde, para a próxima legislatura, a maioria é composta por opositores do governo e do STF. Se prevalecer essa tese, o risco de um impeachment do ministro aumentou severamente.
Agora, com a pressão dos bolsonaristas aumentando contra o governo, foi divulgada pela imprensa a estratégia do PT de soltar Jair Bolsonaro. Essa ação seria uma moeda de troca para aplacar os ânimos extremados. Não dá para acreditar, no entanto, que apenas a liberdade do ex-presidente seja suficiente para mudar a conversa. A cabeça de Moraes parece ter um sabor adicional, como um compromisso de campanha, valendo como um troféu a ser exposto ao público.
Mas tudo pode ser diferente. A maioria dos políticos no Brasil tem a seriedade do tamanho dos seus interesses pessoais. Os veteranos de Brasília são especialistas em desarmar até mesmo os mais destemidos. Ou em transformá-los em peças disfuncionais em um sistema azeitado com dinheiro fácil ou vantagens irrecusáveis. Quando o eleitorado menos espera, tudo pode ter mudado, e o discurso duro já se flexibilizou, já se relativizou, já ganhou novos sabores, também em caramelo e framboesa.
É fácil usar a linguagem falaciosa em um país sem memória como o Brasil. Lula sabe disso muito bem. Segundo ele, tudo é uma questão de narrativa. Ensinaram a ele esse mantra, e ele o incorporou como sendo a última das verdades. Os sofistas gregos venceram a batalha há muito tempo. Tanto é que Sócrates teve que tomar cicuta para provar que estava certo. Mas, segundo a narrativa lulista, Sócrates perdeu.




