Era domingo e a senhora andava pelo quarto como quem precisava se arrumar às pressas para ir ao trabalho. Seu barulho, no entanto, acordou a filha, que correu para ver o que estava acontecendo.
A mãe disse que perdia hora e que seu chefe não ia gostar nada se ela chegasse atrasada.
“Nunca perdi um minuto de trabalho na minha vida. Sempre cheguei na hora certa e não será hoje que vou desrespeitar essa tradição!”, disse a mãe, enfática.
A filha, perturbada com o que estava acontecendo, tentou ser carinhosa com a mãe:
“A senhora precisa descansar. Venha que eu deito ao seu lado. São três horas da madrugada e não há ainda nenhum ônibus circulando pela cidade.”
A mãe ficou ainda mais agitada.
“Você acha que eu sou mulher de andar de ônibus? Me respeite. Comprei meu primeiro carro quando eu tinha 18 anos, assim que tirei a carteira de motorista.”
Não era a primeira vez que a mãe tinha esses surtos. Perdia completamente a memória do presente e voltava a viver em um ponto qualquer do passado, estacionado em suas lembranças.
Nesta noite, a ideia era ir ao trabalho. Na semana anterior, ela teria um encontro com Rodolfo, seu marido, que morreu há 25 anos.
A filha ficou pensando uma solução e respondeu:
“Está bem, eu levo a senhora ao trabalho. Me dá apenas um tempo para eu preparar o café para nós duas.”
Com o café na mesa, ambas se alimentaram e, nesse meio tempo a filha ligou ao spa em que a mãe costumava ser atendida. A enfermeira de plantão foi gentil e disse que poderia recebê-la. Precisa apenas de alguns minutos para preparar o ambiente em que ela irá trabalhar.
Chegando ao Spa, a mãe observou:
“Da vez passada, você me trouxe aqui para esperar o Rodolfo e ele não veio. Desta vez você quer que eu trabalhe nesse local. Você acha que me engana?”
A filha não aguentou:
“Mãe, eu não sei o que fazer. Esta é a minha referência para resolver os seus problemas. Aceite assim que é melhor.”
Vendo a filha chorar, a mãe também não aguentou:
“Acalme-se, minha filha, e me leve para casa. Preciso fazer um chá de camomila para você.”
Moral da história: Pelo portal do tempo pretérito só se avança perdendo o juízo.




