Como se monta um quebra-cabeça
A ordem dos fatores não importa, porque a imagem é sempre intercambiável
A realidade política do Brasil tornou-se um quebra-cabeça de 1.000 peças. Talvez, com algumas faltando, mas que só vamos saber no final quais são elas. Com um agravante: não temos antecipadamente a imagem que será montada. Parece ser sempre a mesma, é verdade.
Quem já brincou de quebra-cabeça sabe que existem várias formas de começar. Uma das mais usadas é separar as peças por tonalidades de cor e ver se dá encaixe. A depender do resultado obtido, seguem-se as composições entre os grandes pedaços.
Suponhamos, no entanto, um céu aqui, um castelo ali, uma floresta acolá, até chegar nos cavaleiros cavalgando em uma estrada empoeirada ou lamacenta. Na política nacional, o céu é sempre turbulento, com muitas nuvens, como gosta de escrever o Capiau. O castelo é Brasília, evidentemente, onde todos vislumbram o paraíso, para eles. A floresta é a gestão pública, intransponível. Enquanto os nobres cavaleiros, vamos descobrindo quem são eles aos poucos.
Não há dúvida, porém, de que o povo está condenado a uma estrada infinita e empoeirada. Mas eu prefiro usar como exemplo a estrada lamacenta. Apesar da secura nacional no momento, deixa começar a chover para a minha metáfora fazer mais sentido.
No entanto, o que parecia fácil de montar se revela imensamente complicado. Estou falando dos cavaleiros, porque o resto é óbvio. Temos a impressão de que a cabeça do Silas Malafaia, por exemplo, se encaixa no corpo de Eduardo Bolsonaro, composição que fica bem também com a tornozeleira eletrônica de Jair Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, parece estar sempre falando ao ouvido de um loiro de cabelo laranja, que se acha o rei de todo o império. Por isso, a fala passa pelos seus ouvidos sem fazer o menor sentido, como quem está no mundo da lua, em plena Guerra Fria, dando o cabresto do seu cavado para Vladimir Putin, que o leva para onde quer.
Na outra composição, Lula, de tão próximo dos sindicalistas que destroçaram o INSS, parece ciente da sua sina, que é ser blindado pelo supremo. Não Deus, mas o tribunal. Seu irmão pode trazer novidades à CPI, mas em espécie para não deixar rastros, desta vez. Seus hábitos para o crime não mudam, mas a forma de resolver as possíveis revelações é bem mais simples. A cena choca pela nitidez em relação ao conjunto da obra e nos induz à percepção de que matamos a charada.
A turma do centrão segue em direção a Tarcísio de Freitas, que tenta cavalgar serenamente à frente, mas se vê sempre impedido por algum desavisado, que tenta lhe prejudicar o estilo. Neste bloco do centrão, as peças parecem quase todas iguais. Só se percebe a diferença quando há mudanças bruscas nas pesquisas eleitorais.
Os 11 da Corte têm, evidentemente, Gilmar Mendes no comando. Mas logo em seguida vem Alexandre de Moraes, que disputa com o chefe o grau de relação com Lula. Não se trata, evidentemente, de proximidade física, mas de interesses e mentalidade. Por isso a dificuldade de ligar um bloco com o outro, apesar das evidências na relação entre as partes.
Os tons desses dois blocos, por sua vez, também conseguem se relacionar com tranquilidade ao verde-oliva do pelotão bolsonarista. A única diferença aí é a turbulência do diálogo que se estabelece, uma espécie de criptografia para despistar aqueles que tentam montar o quebra-cabeça. É fato, porém, que os integrantes de ambos os lados extremos falam a mesma língua, com sinais trocados, a depender da oportunidade e de quanto vão levar.
Na hora de juntarmos os blocos, percebemos que estamos chegando em 2026 e todos estão de olho no castelo. Eles se odeiam, mas são iguais. Quando o calo aperta e um depende do outro, todos ficam bonzinhos, independentes e harmônicos. Somente Silas Malafaia fica furioso quando alguém diz que ele deveria pagar imposto do dízimo que recebe.
Sobre as peças que faltam? Bem. Há sempre uma surpresa ou outra no caminho, mas que não surpreende mais ninguém, pois os personagens estão todos de armadura, por enquanto. Sobre eles (os que podem surpreender), somente em 2026 ou um pouco antes disso. Mas pode ser também que não tenhamos contado as peças direito e há 1.000 justinhas que resultarão em uma metáfora enquadrável.