Mais que “ensaio”: comportamento sexual de macacos-prego filhotes pode ter funções complexas
Práticas exibidas ainda na infância podem estar associadas à maturação, ao estabelecimento de vínculos afetivos e à dominância

Uma pesquisa que analisou 265 horas de gravações de filhotes selvagens de macacos-prego sugere que os comportamentos sociossexuais que eles exibem já no primeiro ano de vida exercem funções que vão além da reprodução. Os resultados contrariam a hipótese de que esses hábitos serviriam apenas como ensaio para papeis reprodutivos da vida adulta. Segundo os cientistas, as práticas podem estar associadas ao desenvolvimento de características específicas de cada sexo, como a maturação hormonal e funções sociais mais amplas, que incluem vínculos afetivos, estabelecimento de hierarquias de dominância e o aprimoramento de habilidades motoras.
O estudo com 16 filhotes das espécies Sapajus libidinosus e Sapajus xanthosternos foi conduzido por cientistas do Instituto de Psicologia (IP) e do Instituto de Biociências (IB) da USP, em colaboração com pesquisadores da University of Lethbridge (Canadá), e o National Institute of Advanced Studies (Índia). Os resultados foram publicados em artigo na revista Evolution and Human Behavior.
Machos na infância, fêmeas na vida adulta – inversão do protagonismo
Os filhotes machos iniciam comportamentos sexuais mais cedo do que as fêmeas e manifestam essas condutas com maior frequência e variedade, de acordo com a pesquisa. A psicóloga e antropóloga Irene Delval, do IP, axplica que “o achado contrasta com o padrão observado na vida adulta dos primatas, quando o protagonismo do cortejo é assumido pelas fêmeas”.
Segundo a autora da pesquisa, alguns estudos já demonstraram essa performance: as macacas, na época do acasalamento, solicitam ativamente a presença dos machos — em geral, o macho alfa — por meio de expressões faciais, posturas corporais, vocalizações e movimentos.
Para a bióloga Solimary Garcia Hernández, do IB, responsável pela análise estatística dos dados do estudo, o resultado mais surpreendente foi a inversão do padrão observado na vida adulta dos macacos-prego.
Enquanto as fêmeas adultas lideram as interações de corte, nos filhotes os machos apresentaram maior frequência de comportamentos sociossexuais. A pesquisadora reforça que o achado desafia a ideia de que esses comportamentos na infância seriam apenas uma preparação para a fase adulta.
Os pesquisadores avaliaram 23 comportamentos sexuais presentes no repertório heterossexual de primatas adultos. Entre eles, seis apareceram com maior frequência e foram examinados em detalhe: ereção, monta, tentativa de monta, levantamento de sobrancelhas, inspeção genital e esfregação do peito. Os contextos em que esses comportamentos ocorriam com mais frequência e os parceiros preferidos pelos filhotes durante as interações também foram investigados.
Comportamentos sexuais
A ereção foi o comportamento sexual mais frequente nas duas espécies analisadas, especialmente entre os machos, com ocorrência superior a outras práticas observadas, como monta, tentativa de monta, levantamento de sobrancelhas, inspeção genital e esfregação do peito. Segundo Irene Delval, nas fêmeas não foi possível observar a ereção (clitoriana) diretamente, porque o clitóris é menos exposto que o pênis. Ela foi registrada apenas de forma indireta durante interações em que as fêmeas atuavam como receptoras das ereções dos machos.

A monta foi comum em ambos os sexos, sendo mais frequente entre os machos. Apenas a “tentativa de monta” foi mais relevante entre as fêmeas. Quanto aos outros comportamentos, incluindo tentativa de monta, inspeção genital, esfregação do peito e levantamento de sobrancelhas, todos foram observados em machos e fêmeas, mas foram sempre mais frequentes em machos. Já masturbação, exibição genital e lavagem do corpo com a própria urina apareceram quase exclusivamente entre os machos. E comportamentos afiliativos, como abraço, carinho e braços estendidos, não apresentaram diferenças relevantes entre os sexos.
O estudo concluiu que idade e sexo influenciam o desenvolvimento de comportamentos sexuais de maneiras distintas, variando conforme o tipo de comportamento analisado. Os resultados mostraram que os machos apresentam maior frequência de comportamentos sexuais do que as fêmeas, e essa diferença tende a aumentar ainda mais com a idade. Além disso, os dados indicam que os machos são, predominantemente, os emissores desses comportamentos, enquanto as fêmeas aparecem mais frequentemente como receptoras.
Os filhotes machos interagiam principalmente com outros machos, tendo como parceiros mais frequentes os adultos, seguidos pelos juvenis e, por último, outros filhotes. Já as fêmeas interagiam mais com filhotes machos, além de fêmeas juvenis e, em menor frequência, outros filhotes.
Segundo Irene Delval, os resultados sugerem que os comportamentos sexuais na infância exercem funções sociais distintas entre machos e fêmeas. Nos machos, essas interações parecem estar relacionadas à formação de vínculos sociais e à regulação da excitação hormonal. Entre as fêmeas, os comportamentos ocorreram mais em contextos de exploração e brincadeira, sem uma função social tão definida.
O estudo analisou também os contextos em que ocorriam as interações sexuais entre filhotes e identificou a brincadeira como o principal cenário dessas práticas, em ambos os sexos, com maior frequência entre os machos. Na sequência, apareceram as interações explicitamente sexuais, seguidas por atividades como busca por alimento e amamentação. Embora menos comuns, esses comportamentos também foram registrados em contextos sociais, como cuidado mútuo e situações de conflito e ameaça.
Paralelos com a sexualidade humana
Segundo as pesquisadoras, compreender como a sexualidade comportamental surge nos primeiros meses de vida dos primatas pode ajudar a explicar a flexibilidade e o desenvolvimento da sexualidade em diferentes espécies, incluindo humanos. Irene destaca que crianças também manifestam curiosidades, sentimentos e brincadeiras relacionadas à sexualidade, embora essas práticas sejam frequentemente inibidas por normas culturais e religiosas, diferentemente do que ocorre entre os animais.
Para Solimary Hernández, “observar como os macacos-prego expressam comportamentos sexuais de forma tão natural desde as primeiras semanas de vida nos ajuda a desmistificar a nossa própria sexualidade”.
O artigo Early sex differences in sociosexual behavior of wild robust capuchin monkeys: Ontogenetic and evolutionary insights foi publicado na revista Evolution and Human Behavior.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP.





