Se Platão tinha a forma no plano metafísico, Aristóteles traz esse conceito para as coisas, para a realidade como a conhecemos. Há quem diga que, a partir desse entendimento aristotélico, nasce a ciência moderna, empírica, investigativa e laboratorial.
O conceito de sensível de Platão era a observação direta da natureza, porque ela estava sempre em pleno movimento e esse movimento poderia facilmente corromper o olhar e proporcionar análises e interpretações equivocadas, não verdadeiras dos fatos. Podemos dizer que o fato exigia, para Platão, conhecimento científico, e não superficial, retórico e sofístico.
Ele comparava o observar diretamente com o sol, que não permite essa condição investigativa, pois pode queimar os olhos, exigindo um olhar indireto, por meio de um lago, por exemplo. A natureza também seria assim. Exigia um olhar indireto, reflexivo, metafísico, pela forma. Olhá-la diretamente poderia levar à confusão.
Esse movimento da natureza, no sentido heraclitiano do termo, confundia, portanto, no entender de Platão, qualquer análise segura sobre a realidade das coisas. Por isso, ele propunha que houvesse antes um processo intelectual para se chegar ao UNO e alcançar a forma, o que possibilitaria o enquadramento do que se pretendia entender. Somente a forma poderia pôr ordem nas coisas sensíveis.
Platão é bem metafísico no entendimento da natureza, ao estilo de Albert Einstein, por exemplo. Aristóteles, por sua vez, é empírico, investigativo, um homem que ia até a natureza para analisá-la diretamente. Mas o pensamento do estagirita nasce do exercício de dar conta das aporias (falhas lógicas de pensamento) platônicas.
Certa feita, uma pessoa disse em sala de palestra que Aristóteles estaria desconectado de Platão, uma vez que há conceitos de um e de outro que chegam a se contrapor. Se contrapõem um ao outro, sem dúvida, mas Aristóteles nasce da costela de Platão e ganha vida própria, inaugurando sim um novo campo filosófico e investigativo.
Para explicar o sensível Platónico, Aristóteles não vai à metafísica do UNO platônico, mas constrói novas chaves, como Causa e Efeito, Ato e Potência.
Todo movimento teria sua causa, ou seja, o movimento seria o efeito desta causa. Um homem batendo em uma bola de golfe, por exemplo. Quem causa o movimento da bola é o taco, movimentado por uma mão, mão movimentada por um homem etc.
Relacionado aos conceitos de Ato e Potência, Aristóteles apresenta a substância, que seria a base de algo que pode ganhar forma. O bronze pode se tornar uma estátua. A substância é o bronze, que tem a potência em si de se tornar uma estátua, que seria o ato.
O universo, para Aristóteles, é eterno e isso levou muita dificuldade para São Tomás de Aquino explicar aos senhores da Igreja Católica porque seria impossível explicar que Deus criou o universo. A saída de Aquino foi colocar o universo no campo da substância e a natureza, como a conhecemos, bem como a humanidade, estariam sim no plano da criação divina. Mas não colou.
O mais bonito de Aristóteles, pelos meus estudos, é o conceito de Motor Imóvel, que seria o ponto de partida para que tudo tivesse um começo, em termos de vida. Por ser imóvel, teria que ser ato puro. Se fosse potência, deveria haver algo anterior para transformá-lo. Assim ele chega em Deus.
Só que ainda um Deus pagão, uma vez que não teria a menor relação com os homens. Seria algo fechado em si mesmo, uma espécie de pensamento do pensamento, que pensaria somente o belo, o puro e o verdadeiro, com poderes para atrair a curiosidade de todos aqueles interessados em conhecer a verdade das coisas, a inteligência.
Enquanto um centro de força capaz de atrair a inteligência, exigente de contemplação, o Motor Imóvel poderia ser entendido inclusive como um Deus oriental, budista, talvez. É nessa seara que os grandes pensadores posteriores a ele começaram a transitar para chegar ao neoplatonismo, unindo novamente o conceito de UNO, que exigia uma contemplação extática, como teorizava Aristóteles.
A diferença da observação estática do neoplatônico de Platino, por exemplo, estava na força mística, que dava ao UNO uma qualidade nova, de transbordamento e emanação de sua potência, ao mundo.. Esse transbordamento permitia o conhecimento hierárquico das coisas, da alma, do intelecto e da natureza. Há quem diga que a base da filosofia do período helenístico não contou com as obras de Aristóteles e se fundamentou no neoplatonismo, que culminou em Plotino. Faz sentido.
Na Idade Média, como o pensamento do UNO já estava bem desenvolvido, era preciso apenas dar a ele força maior, de um Deus, mas que não fosse apenas o pensamento do pensamento, como o Motor Imóvel de Aristóteles. E que estivesse voltado à humanidade.
Há em todo esse processo uma riqueza de pensar, com mais magia, com menos magia, mas sempre tentando ajustar para uma racionalidade, alcançada pelo cristianismo. Não é à toa que o ocidente foi fortemente beneficiado com o cristianismo, porque chegou a um Deus que prima pelo bom, pelo belo e verdadeiro, que está no plano metafísico, mas se projetou para o universo humano. Claro que trato aqui tudo de forma superficial, mas espero que sirva de um atrativo para quem gosta do assunto.




