Por trás de cada planta ou extrato vegetal moram, ao mesmo tempo, uma fonte de moléculas de valor e um problema analítico à espera de solução. Seja para comprovar a segurança de um produto, a eficácia de um extrato ou o potencial de uma planta, as respostas que a indústria e a ciência buscam passam obrigatoriamente pelo laboratório. E decifrar esse quebra-cabeça é o trabalho diário da Divisão de Química Orgânica e Farmacêutica (DQOF), do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O InovaLab, programa de conexão da Agência de Inovação Inova Unicamp com os laboratórios da Universidade, visitou esse Centro de Pesquisas da Unicamp localizado no campus de Paulínia, região metropolitana de Campinas. A Divisão dedica-se a investigar novos compostos bioativos de origem natural (plantas e microrganismos) e atua no desenvolvimento de métodos analíticos para empresas e outras instituições de pesquisa.
Quem guia esse laboratório é Marili Villa Nova Rodrigues, farmacêutica e pesquisadora responsável pela Divisão. Toda análise que sai de lá carrega o registro profissional de químicos e farmacêuticos e a expertise da Unicamp. Além de Marili, integram a equipe o químico e coordenador do CPQBA Adilson Sartoratto e os técnicos Adriana de Oliveira e Sinésio Boaventura Júnior.
Ciência aplicada e biodiversidade brasileira
A Divisão também guarda um diferencial raro: o isolamento de compostos bioativos, presentes em pequena quantidade em extratos vegetais, por meio da cromatografia Flash instrumental. Muitas vezes, esse isolamento é central para vencer a escassez de padrões analíticos comerciais, necessários ao controle analítico. É com esse tipo de estrutura que a equipe da DQOF investiga a flora brasileira. Ela já isolou, por exemplo, o espilantol com alto grau de pureza do jambu (Acmella oleracea), hoje majoritariamente importado, ampliando as possibilidades de produção nacional.
A Divisão soma a isso pedidos de patente já depositados, de composições antibacterianas à base de óleos essenciais, e contribuições para a Farmacopeia Brasileira. Um dos estudos da Divisão, por exemplo, revelou variações expressivas no teor de curcumina em amostras comerciais de cúrcuma (açafrão-da-terra), reforçando a necessidade de controle de qualidade no setor.
Objetivo da DQOF: investigar a fundo produtos de origem vegetal e microbiana, dominar a instrumentação que torna essa química mensurável e converter o conhecimento gerado em aplicações concretas para a saúde, os alimentos, os cosméticos, a aquicultura, a indústria e a regulação.
Competência e técnicas científicas: cromatografia, biocromatografia, química orgânica com destaque aos produtos de origem vegetal e microbiana, síntese orgânica com solventes mais verdes e desenvolvimento e controle analítico de matrizes complexas.
Ferramentas analíticas e linhas de pesquisa da DQOF
A atuação da Divisão de Química Orgânica e Farmacêutica (DQOF) do CPQBA é organizada em seis principais linhas de pesquisa que conectam a bancada do laboratório às demandas do mercado:
Estudo e aplicação de óleos essenciais: caracterização, fracionamento e controle de qualidade de matrizes voláteis para o setor produtivo.
Desenvolvimento de métodos analíticos: criação e validação de metodologias cromatográficas (gasosa e líquida) para identificar e quantificar compostos em matrizes complexas.
Isolamento de bioativos: uso de cromatografia Flash para purificar moléculas de interesse a partir de misturas complexas.
Síntese orgânica sustentável: transformação química de produtos naturais com base na química verde, minimizando o impacto ambiental.
Biocromatografia e triagem de fármacos: prospecção de potenciais ativos a medicamentos por meio do acoplamento de testes enzimáticos à análise cromatográfica.

A síntese que virou tema da visita InovaLab
Foi um caso mais recente, porém, que motivou a busca da Divisão pela visita do InovaLab. Um cliente pediu à DQOF que reproduzisse uma síntese, desenvolvida nos Estados Unidos, para modificar uma molécula de origem vegetal. A equipe testou a rota original, fornecida pelo cliente, mas o produto saía cheio de impurezas. Curiosos, os técnicos e pesquisadores da Divisão testaram uma alternativa mais simples, usada anteriormente numa tese da Unicamp, e ela funcionou: produto mais limpo, processo mais curto.
Mas aí veio a dúvida: aquilo era só um jeito melhor de prestar o mesmo serviço ou uma invenção carregada de novidade? “Não sabíamos se estávamos fazendo prestação de serviço ou desenvolvendo uma nova tecnologia”, conta Rodrigues. Foi isso que a levou a procurar o suporte da Inova Unicamp e a descobrir, na visita do InovaLab, uma resposta que ninguém na equipe conhecia: o grupo havia acumulado um conjunto de conhecimentos técnicos e práticos, que configura um know-how, uma das formas de propriedade intelectual que a Inova Unicamp protege, garantindo os interesses da Universidade e seus inventores, e que pode ser fornecida ao mercado.
Para o futuro, Rodrigues mira empresas de produtos naturais e projetos que integrem outras áreas do CPQBA, como a estrutura de Campo Experimental e a Coleção de Plantas Medicinais e Aromáticas da Agrotecnologia da Divisão de Agrotecnologia.
Empresas dos ramos farmacêutico, cosmético ou alimentício que reconheçam esse tipo de desafio podem procurar a Inova Unicamp, para propor uma parceria de pesquisa ou para entender melhor o que a DQOF tem a oferecer, preenchendo o formulário na página Conexão Pesquisa e Mercado no site da Inova Unicamp.
Matéria: Ana Paula Palazi | Jornal da Unicamp.





