O que impulsiona consumo abusivo de álcool entre universitários?
Busca por alívio de ansiedade, depressão, medo e angústia ou por reforço de emoções positivas como alegria, prazer e autoestima antecedem o ato de beber e dão pistas para a compreensão sobre o consumo

Uma pesquisa da USP adaptou e validou novos instrumentos que ampliam a capacidade de pesquisadores e profissionais de saúde mental de compreender as motivações associadas ao consumo de álcool entre universitários. As ferramentas, com estratégias voltadas para o manejo das emoções, avaliam por que estudantes bebem e por que decidem reduzir ou interromper a ingestão de bebidas alcoólicas — dimensões ainda pouco exploradas em estudos e práticas clínicas.
Dentre as emoções (afetos) encontradas associadas ao uso abusivo do álcool, se observou que os estudantes tendem a beber mais quando utilizam o álcool como recurso para lidar com emoções negativas, como ansiedade, tristeza, angústia, medo e culpa, ou de reforço de emoções positivas, como alegria, prazer, entusiasmo e autoestima.
Instrumentos validados para o contexto brasileiro
Em levantamento de estudos publicados no Brasil na última década, verificou-se que as pesquisas sobre consumo de álcool entre universitários se concentravam em dados epidemiológicos, padrões de uso e consequências do consumo. Segundo o psicólogo Kairon de Sousa, autor do estudo, havia pouca exploração das variáveis psicológicas que antecedem o ato de beber e que ajudam a compreender fatores relacionados à adesão, à redução ou à interrupção do consumo.
Para preencher essa lacuna, a pesquisa adaptou dois instrumentos internacionais — um canadense e outro argentino — voltados à análise de variáveis psicológicas associadas aos motivos para uso, redução e interrupção do consumo de álcool. As ferramentas passaram por processo de adaptação ao contexto brasileiro, com tradução independente, elaboração de versão consensual pela equipe, avaliação por especialistas e aplicação de teste piloto com universitários para verificar clareza e compreensão.
Após a validação, os instrumentos fundamentaram a etapa empírica do estudo, que envolveu 506 estudantes de graduação de diferentes regiões do País. Nessa fase, os pesquisadores analisaram como determinados constructos psicológicos — ou seja, fatores como estados emocionais — se relacionavam com as respostas ao AUDIT (Teste de Identificação de Distúrbios por Uso de Álcool). O AUDIT é uma ferramenta internacionalmente utilizada para rastrear o uso nocivo de bebidas alcoólicas. Ele reúne perguntas sobre frequência e padrão de consumo, além de consequências associadas ao beber.
A pesquisa completa resultou na tese Motivações, vivências afetivas e problemas de uso de álcool em universitários, defendida por Kairon de Sousa no Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, sob orientação da professora Sonia Regina Pasian. O trabalho terá seus capítulos submetidos à publicação em periódicos científicos e então ficará disponível on-line.
Enfretamento disfuncional das emoções
Kairon de Sousa explica que “os afetos influenciam nosso comportamento, o humor e escolhas como o consumo de álcool e usar o álcool como forma de regular emoções negativas é uma estratégia disfuncional de enfrentamento”.
“O estudante bebe para aliviar sentimentos desagradáveis, obtém um alívio momentâneo, mas não enfrenta as causas do sofrimento. Isso favorece a repetição do comportamento e pode aumentar o risco de dependência”, afirma. O processo cria um ciclo em que o consumo passa a ser a resposta recorrente ao mal-estar emocional.
Segundo a pesquisa, a entrada do jovem no ensino superior tem sido associada ao aumento nocivo do uso de bebidas alcoólicas. O período é marcado por diversos desafios como processo de adaptação à vida universitária, afastamento da família, busca de integração entre pares, estresse e cobranças acadêmicas. O estudo identificou padrões elevados de consumo de álcool nessa faixa etária, como episódios de ingestão excessiva em curto período de tempo (binge drinking), trazendo prejuízos físicos, mentais e sociais, como queda no desempenho acadêmico, apagões alcoólicos, comportamentos sexuais de risco, dificuldade nas relações interpessoais e maior probabilidade de uso combinado a substâncias ilícitas.

Emoções negativas
Os resultados obtidos com os novos instrumentos indicaram que universitários tendem a aumentar o consumo de álcool quando utilizam a bebida como estratégia para lidar com emoções negativas, como sintomas depressivos. Também apareceu como motivação o desejo de intensificar sentimentos positivos, como alegria, prazer e autoestima.
Na avaliação da professora Sonia Regina Pasian, ao incorporarem estratégias de manejo das emoções, os instrumentos ampliam as possibilidades de investigação sobre fatores que podem favorecer a redução ou interrupção do consumo, especialmente do beber compulsivo episódico, prática comum em festas universitárias e associada a riscos imediatos e de longo prazo. Segundo ela, a ferramenta também permite examinar de forma sistemática os problemas relacionados ao consumo a partir da perspectiva do próprio estudante, considerando suas experiências, percepções e valores.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP.




