
Certas coisas acontecem ao arrepio das intenções, mas acabam delimitando um tempo sagrado para a gente. Quando a memória teima em tê-las em evidência, é porque está na hora do registro público.
Foi o que me ocorreu quando eu buscava um assunto para a Revista de Domingo e fui tomado novamente por imagens de Arakén Martins.
Eu sabia que ele era um artista plástico, grande amigo de Cecílio Elias Netto, mas não sabia que a IA sabia tanta coisa dele assim.
Está no ChatGPT:
Araken Martins foi um artista plástico, gravador, ilustrador e cronista cultural importante da cena artística de Piracicaba. Nascido em 1950, teve forte atuação nas artes visuais da cidade desde o fim dos anos 1960.
Entre os trabalhos e características mais conhecidos da obra dele estão:
• Gravuras e desenhos expressionistas, muitas vezes em preto e branco;
• Temas ligados à memória, solidão, cotidiano, erotismo e vida urbana;
• Ilustrações literárias, especialmente para escritores piracicabanos;
• Retratos e cenas da vida cultural de Piracicaba;
• Textos memorialísticos sobre artistas e a história cultural da cidade.
Algumas obras/séries e produções associadas a ele:
• Ilustrações para o livro “Bagaços da Cana”, de Cecílio Elias Netto;
• Exposição “A Arte de Araken Martins”, com 48 trabalhos, sobretudo gravuras;
• Série de desenhos exibida no SESC sob o título “Objetos quase inúteis”;
• Participações em salões de arte contemporânea de Piracicaba e exposições coletivas desde os anos 60.
Ele também manteve espaços culturais importantes na cidade, como:
• a Vila do Araken;
• e a Galeria Casa Verde, na Rua do Porto.
O estilo dele costuma ser associado ao expressionismo e ao desenho de forte carga emocional, com influência de gravura moderna e de artistas como Rembrandt e Picasso.
O que vou contar aqui é outra coisa. Na época em que artista em questão tocava a Vila do Araken, o meu grupo de amigos produzia um jornal/revista impressa que se chamava “Jornal A Noite”, predecessor da revista, também impressa, que tinha exatamente o nome deste site atual: Viletim.
Estávamos sempre em busca de assuntos para tentar agradar a meia dúzia de leitores que nos acompanhavam a cada edição. Dizíamos que se tratava de uma revista diária, produzida semanalmente e que circulava uma vez por mês.
Eu e o Chapéu – exatamente o da Silva, que comanda o Ponto de Cultura Garapa – inventamos de produzir fotos para um personagem que eu havia criado. O Chapéu se tornou então Amâncio Beltrão.
Amâncio era um senhor, caipira, morador da Rua do Porto, sempre de chapéu e um casacão. Ele tinha uma jaguatirica chamada Jandira, que estava diariamente com ele levada em uma gaiola. Então, nossa missão era criar situações para o Beltrão e a Jandira, como se eles fossem reais. E relatávamos suas peripécias na revista.
Certa feita, por exemplo, Amâncio Beltrão atrasou para dar almoço à bichana e ela fugiu pela cidade de raiva. E o velho saiu entristecido à sua procura. Fazia o possível e o impossível para encontrá-la e trazê-la de volta. Escrevia até notas em jornais. “Volta para casa, minha querida”. Coisas assim.
A brincadeira correu a cidade, pelo pequeno círculo de pessoas que nos acompanhavam. Até que uma noite eu fui à Vila do Araken para tomar uma cerveja e o Araken me tratou muito mal. Depois de tanto insistir para saber o que estava acontecendo, ele foi duro comigo:
- É assim que você brinca com as pessoas?
- Araken, o que está acontecendo? Não brinquei com ninguém.
- Brinca sim. Você acha que eu fico feliz quando você escreve que a minha mulher é uma jaguatirica?
Ao ouvir o que ele disse, quase caí do banco, porque eu nem sabia que a esposa do ilustre artista se chamava Jandira. Jamais imaginávamos estar escrevendo aquelas coisas para fazer chacota de alguém.
Pedi mil desculpas e a partir de então, Jandira e Amância Beltrão saíram de cena. Para mim, aquela noite foi memorável, porque nunca imaginei que uma invenção, que se propunha a ser literária, estava causando um impacto tão grande e entristecendo uma pessoa amiga.
Vi nos olhos de Araken Martins que ele estava mais triste do que Amâncio Beltrão, que havia perdido sua Jandira. Como estava em nossos escritos: “Isso não se faz com um homem que tem você guardado no fundo do coração”.



