Mentira a letra daquela música. “Tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu”. A gente nunca se sente como quem partiu. A gente sempre quer partir, mas o cacete é não ter partido. A gente quer sempre estar em outro lugar, mas nunca consegue. Se a gente tivesse partido, estaria sim mais feliz. O poeta não entendeu nada.
***
Tentava ver o lado bom.
Era sábado. Véspera de Páscoa. Como era mesmo o nome? Sábado de Aleluia.
Aleluia!
Alegria, alívio, ansiedade finda. Era uma exclamação sem sentido para ele.
Sentado em frente ao seu notebook, ele olhava para a tela em branco. Sempre que estava triste, esperava o horário certo das crianças dormirem (sempre às dez da noite) e da esposa (no máximo às onze horas), dirigia-se à varanda com vista para o quintal, ligava o computador portátil em cima de uma mesa, sentava-se em uma cadeira de palha e deixava que o som do vento nas árvores do pomar compusesse a música de todas as noites – folhas grandes do abacateiro nos graves, as folhas das goiabeiras, das laranjeiras nos médios, as notas das folhinhas bem pequenas da jabuticabeira minúsculas como pedras de chocalho, nos agudos.
Então, ele começava. Não eram poemas sobre a infância que não volta mais nem a viagem do eu por latas de goiabada ou a vida rural que não mais existe mais a não ser no coração do poeta. Ele sabia que aquela casa era a sua infância recarregada. Os filhos, ele e a esposa recompondo uma família da qual tinha feito parte um dia, só que ele no novo papel de pai. E as árvores, o quintal de terra com canteiros de verduras, as árvores com frutas, a enxada, o rastelo, o forcado, o piso cimentado com pia e mesa, bancões inteiriços, churrasqueira num canto, festas, pinturas com os filhos e bate-papos felizes com os amigos.
No notebook ele contava histórias para si mesmo de coisas que nunca iria realizar, por não haver tempo em uma só vida para tantas vidas. Então, ele disfarçava a si mesmo em heróis espaciais nos contos de fadas sobre seres mágicos extraterrestres que usavam a ciência para fazer encantamentos, como o soro da antigravidade, cientistas malucos que queriam a sua cura e marcavam uma consulta com o dr. Freud e depois perdiam o horário do Metrô do Tempo, lutas místicas entre robôs de energia pura que procuravam a Origem do Universo e descobriam a matéria por acaso.
Sempre que estava triste, acalentar-se com aquelas histórias fazia-o catar os cacos de si mesmo, e o colava.
Mas daquela vez, ele não estava triste. Ele estava infeliz.
Ele faria quarenta anos na semana seguinte. Quantas vezes ele iria se quebrar e quantas vezes os cacos voltariam para serem colados? A cada vez que havia a quebra do cântaro, os cacos não estariam menores? Não seria cada vez mais dificil colar tudo de novo e ainda ser o mesmo vaso?
Era inevitável que faltassem pedaços, mesmo que minúsculos.
Sabia que tinha muito que as pessoas à sua volta queriam ter, e não tinham. Uma família feliz, unida, com filhos e esposa carinhosos, inteligentes, espertos, bonitos, queridos por todos. Sentia-se, pela primeira vez na vida, pertencente a um grupo coeso, amoroso, em que uns se importavam com os outros. Era feliz por saber que muito daquilo se devia a ele. Sabia que muita gente os tomava como modelo e que também despertavam muita inveja.
E num dado momento, percebeu que essa felicidade estava o travando. Tinha usado, na verdade, tanto prazer, tanta alegria, como uma desculpa para não correr atrás dos sonhos que, um dia, foram os tijolos que construíram sua personalidade e o definiram.
Não queria admitir, mas tinha medo. Medo de, agora tendo experimentado a felicidade terrena, ficassem no pó as letras do seu nome, para sempre esquecidas. Quem um dia saberia que ele tinha existido? Quem é que olharia para o século XXI e iria se lembrar que Bernardo Kasparian havia passado pela Terra?
Por isso a tela continuava em branco e não havia nenhuma história nova sobre robôs místicos, naves espaciais a vapor, planetas pensantes ou viagens no tempo a suaves prestações.
Quisera ele pudesse mudar tudo! Quisera fosse possível ele viver, de verdade, no seu tempo e no seu lugar, o potencial que ele sabia possuir!
Ele queria uma passagem para outra possibilidade.
Ele queria sim que houvesse de novo uma bifurcação na Estrada da Vida, e pudesse escolher!
Olhou as árvores, as folhas caindo. O escuro da noite não era profundo pois a luz da cidade era forte, e um show (gospel? Axé? Axé gospel?) trazia, de longe, reverberações de mesas de som mal reguladas e mulheres cantando com voz grossa. De manhã o mundo estaria de ressaca, as crianças iriam ganhar ovos de chocolate e as famílias, inclusive a sua, iriam almoçar na casa dos pais e avós, comer churrasco para comemorar o ressuscitado da carne.
Suspiro. O notebook respondeu zumbindo o cooler, como um zangão ferido.
Nem viu o relógio mas notou que um vento forte, que trazem aqueles redemoinhos com folhas dançarinas, passou no quintal lá embaixo. Estranho. Redemoinho à noite? Ficou olhando aquilo e viu que o redemoinho aumentava de tamanho, e a quantidade de folhas dentro dele também.
Era um tornado, um tornadinho no seu quintal! Se os meninos pudessem ver aquilo! Esperou o que ia dar aquele showzinho da natureza e espantou-se: de repente, muito de repente, o vento parou, as folhas caíram e ficou um anjo em pé no seu quintal, entre a mangueira velha e o canteiro de flores que eles tinham plantado ontem.
Antes que ele decidisse o que dizer ou fazer (um bandido? Um amigo fazendo uma brincadeira? Por Deus, um... alienígena?), o anjo bateu as asas, que saíam das costas perto dos ombros e desciam até o chão, e pousou ao seu lado, na varanda.
- Olá, Bernardo, boa noite. Calma! Sou um anjo, e vim me mostrar para você.
“Me mostrar”? Um exibicionista? Ai, não! Um stripper!” Quem estava pregando a peça nele?
- Olha, eu não sou gay, e...
- Calma!!! - e o anjo aumentou o volume da voz, mas era muito suave. Parecia o canto de um barítono. - Não vou tirar a roupa, nem nada. Eu disse que vou “me mostrar” pois eu sou o Anjo do Destino. Vim mostrar as possibilidades do Destino para você.
Bernardo olhou desconfiado. Ele lembrava alguns rapazes com quem tinha feito teatro, há uns vinte anos. Suave, calmo, bonito. Emaciado era a palavra que resumia bem a aparência e o comportamento deles. Mas não para este anjo. Ele era suave, mas não parecia se encaixar no estereótipo de homossexual. Parecia possível que ele pudesse matar demônios nas guerras do Armagedom sem grande esforço. Mas não!
- Não acredito. - disse Bernardo, resolvendo ser direto. - Vamos acabar logo com a brincadeira. Eu sei que amanhã é Páscoa, e alguém da “Paixão de Cristo” está querendo curtir com a minha cara. Eu...
Um vento muito forte passou pela cara de Bernardo, como se ele estivesse na janela de um trem-bala que estivesse correndo rente a um túnel. Em segundos, no entanto, o vento parou e ele estava em outro lugar, em outro tempo.
Pois ele olhou para cima e a data estava projetada nas nuvens: 19/04/2071. E ainda o horário: 20:45.
Sua cabeça rodou, mas permaneceu em pé. Olhou para o lado e o anjo do Destino estava ainda lá, na mesma posição em que estava na sua varanda.
- O que foi isso? - perguntou Bernardo.
- Estamos na Páscoa, Bernardo. Você queria uma nova bifurcação para escolher outra vida. Eu o trouxe para a Possibilidade do Destino número 1. Quer ver?
Bernardo hesitou. Ainda não estava acreditando. Olhou novamente para as nuvens e não era mais a data que via, e sim um logotipo com ideogramas chineses.
- Muito bem – suspirou Bernardo. - Quais são as condições?
- Que condições? - olhou o anjo, divertido. Parecia saber com antecedência que Bernardo iria fazer aquela pergunta.
- As condições. Você é o espírito dos Natais Futuros? Ou melhor, o espírito das Páscoas Futuras? Então algo vai acontecer, algo como eu perceber que tenho sido ruim e poderia ser uma pessoa melhor para os meus semelhantes.
- Bernardo! Claro que você é não nenhum Scrooge.
- Claro que não sou! Acho até que sou uma pessoa bastante boa.
- Sim, é claro. A única condição é que você terá que escolher entre as duas possibilidades. Mas antes de visitarmos você mesmo daqui a sessenta anos, tenho algumas informações que poderão influenciar a sua escolha.
“Primeiro: lamento informar que depois que você morrer, não haverá nada. Não há céu nem inferno. Nem nirvana, nem paraíso. Nem Hades, nem Mansão dos Mortos, nem Limbo. Nem gratificação, nem punição”.
- Nada? E você, que é um anjo? Você veio de onde?
- Hum... o fato de você não ir para lugar algum depois de morto não exclui a lógica da minha existência, exclui?
- Pela lógica, não... mas quem te criou foi o mesmo que me criou?
- Para ser educado... preciso citar Hamlet para você? “Há mais coisas entre o céu e a terra...”
- Certo! Então, eu posso escolher o meu futuro nesta vida, ao menos é o que você, ou quem te enviou, está me oferecendo.
- Não só. Você pode escolher o dia da sua morte.
Bernardo olhou para os olhos azuis do anjo, para a túnica luminosa (parecia seda), para os cabelos encaracolados loiros do anjo, olhou para as mãos sem marcas e as penas das asas, tão fofas como plumas de avestruz. Mas também notou que os bíceps, tríceps e quadriceps dele eram bem desenvolvidos, e o pescoço do anjo era grosso e tinha um pomo de adão que se movia quando falava com aquela voz de barítono que soltava notas de doçura mas também de ironia.
- O... dia da minha... morte??? Desculpe, mas que vantagem há...?
- Vamos ver as duas possibilidades? É a partir delas que você escolhe o dia em que morrerá.
Bernardo concordou. O anjo estendeu-lhe a mão e os dois saíram de mãos dadas por um momento. Quando Bernardo reclamou, o anjo respondeu que era melhor assim pois nesta época os amigos, não importava de que sexos fossem, sempre andavam de mãos dadas e assim não chamariam a atenção. Bernardo resmungou mentalmente e seguiram.
Andaram por três quarteirões por uma rua tranquila até que chegaram a uma praça. Notou que havia mais propaganda e informações nas nuvens ali, pois havia mais céu descoberto do que no lugar em que haviam chegado. Viu também que havia nas calçadas postes baixos, com plataformas, nos quais passavam clips, filmes ou vinhetas (qual nome teriam?) em projeção tridimensional. Reconheceu algumas marcas que pareciam eternas, viu outras que não conhecia. Mas ficou surpreso ao ver muitos textos em árabe, além dos já esperados em chinês. E ficou mais surpreso ainda ao ver poucos textos em inglês e quase nenhum em português.
Chegaram a um shopping (eles não haviam mudado muito, com exceção das projeções em 3-D), caminharam por vários minutos até entrarem numa das lojas. A princípio, Bernardo ficou perdido, pois não conseguiu entender o que é que se vendia ali; quando havia desistido e ia perguntar ao anjo, ele respondeu:
- Aqui é uma Bookplace, Bernardo. Bem-vindo ao seu lugar!
- “Bookplace”? É o nome da livraria?
- Não. Bookplace é o conceito. Não é nem uma livraria nem uma biblioteca. É um “lugar dos livros”, ou seja, se vendem, se compram, se alugam, se emprestam, se escrevem, se assistem, se lêem...
- Muito interessante! Nem vou perguntar como funciona, provavelmente eu estarei aqui, ou lá, quando eles existirem de fato. Por que estamos aqui?
- Porque, como eu disse, aqui é o seu lugar. Hoje é o lançamento da nova edição das suas obras completas. Vamos presenciar uma degustação.
Num espaço circular, com várias sofás e um pequeno palco, várias pessoas prestavam atenção em um grupo de seis pessoas, que discursavam. Bernardo pensou ter reconhecido três dessas pessoas. As outras eram desconhecidas por completo. Um dos conhecidos começou a falar:
- Boa noite. É um prazer estar aqui para apresentar a nova edição das obras do nosso pai, que estaria completando cem anos de nascimento hoje...
Bernardo olhou para o anjo e gaguejou:
- Se são as minhas obras, então eles são os meus filhos...! E eu acho que ele é o Rafael, o meu mais novo...
- E o que está do lado esquerdo é o Joaquim, e do lado direito é a Luísa, sua filha...
Filha! Então era verdade! Bernardo e Kátia desconfiavam que ela estava grávida, aguardavam o resultado dos exames para a segunda-feira depois da Páscoa. Devaneava no prazer da descoberta, admirando a beleza e a semelhança (não tanta) de Luísa com a mãe, quando o discurso do filho mais novo chamou-lhe a atenção:
- … sabemos que o pai podia ser muito teimoso e, digamos, pouco diplomático na defesa das suas posições. Nem sempre ele foi um bom pai, embora eu diga que ele foi um pai possível... e não ideal. Como escritor, às vezes ele cuidava de nós, filhos físicos, às vezes dos filhos livros... mas temos certeza que a obra que deixou compensa em muito o que nos faltou, pois a sua obra pertence a todos.
Em meio às palmas, Bernardo percebeu que a plateia havia rido quando Rafael dissera “... ele foi um pai possível”. O que haveria feito, antes de morrer, para construir uma reputação assim?
Viu numa plataforma 3-D uma projeção com um texto e imagens suas, falando dele e de sua obra. Leu frases como “viveu a vida intensamente”, “teve muitas amantes”, “levou sua dedicação à literatura até as últimas consequências quando...” Neste trecho deteve-se e leu até o final:
“Kasparian levou sua dedicação à literatura até as últimas consequências quando resolveu escrever Quantum, um romance sobre física quântica e a vida íntima dos físicos. Ficou isolado da família e dos amigos durante seis meses estudando matemática e física até se sentir apto a conversar com um físico quântico de igual para igual, e mudou-se para Cambridge, EUA. Matriculou-se num curso livre do M.I.T., quando teve um caso amoroso com Kerstin Sorgen Ioch, esposa do Prêmio Nobel de Física de 2019, Valentin Ioch, fato que levou ao seu desaparecimento, até hoje envolto em mistério”.
- O que é isto, anjo do Destino? Que pessoa detestável eu me tornei, hein?
- Mas você é um autor imortal. Sua obra ganhou um Nobel póstumo.
- Mas e isso! Eu nunca tive uma amante, nem terei! Eu amo minha esposa! E os meus filhos! Ver sessenta anos à frente e saber, com toda a certeza, que você foi um canalha!
- Você é reconhecido. Sua obra é lida, e mais ainda, amada. Seus personagens são um novo marco na literatura universal. Tudo porque você abandonou sua família e foi correr o mundo em busca de experiência para ser traduzida em literatura.
- E quando será o dia da minha morte, nesta Possibilidade número um?
- Como você leu, ninguém sabe ao certo. Mas o seu desaparecimento se dá no dia 09 de abril de 2023. Ninguém irá chorar por você. Ninguém vai ao menos sentir a sua falta, ao menos pessoalmente. Posso contar o que o seu filho mais velho dirá? “Ao menos, ficam os livros, para nos sustentar. Ainda bem que ele sumiu sem encher mais o saco de ninguém”. Ninguém vai se importar como você morreu, onde, e quando.
“Mas você se tornará um clássico. Milhões de leitores irão amá-lo, por séculos.
Bernardo olhou os filhos no palco, as pessoas conectando um fio de suas cabeças a um pino nos braços dos sofás, acessando o arquivo-degustação dos seus textos, as projeções 3-D falando de um Kasparian que ele não reconhecia como a si mesmo mas que no fundo invejava.
- E então, acaba assim? Uma vida cheia de prazeres como um canalha sem consciência, egoísta e sem responsabilidades, uma morte física talvez com sofrimento, e uma ressurreição como um nome no Panteão dos Deuses.
- Isso.
- Posso saber como é a minha morte, nesse caso?
- Sinto muito, mas não pode. Eu disse que podia escolher o dia, mas não a forma de morrer.
Bernardo olhou mais uma vez. Viu os três filhos, três pessoas bonitas, bem vestidas, conversando com três pessoas que talvez fossem seus editores. Luísa tinha o riso da mãe, mas sem os dentes tortos. Joaquim tinha o sorriso gordo de Bernardo, Rafael era inquieto como Bernardo e Kátia, não aguentava ficar muito tempo parado num só lugar.
Estavam conversando, ouviu por alto algumas palavras que revelava os valores que iriam receber. Luísa falou algo sobre uma viagem. Rafael olhava o tempo todo para trás, parecia estar esperando alguém. Joaquim disse algo sobre um restaurante.
Estavam loucos para gastar o dinheiro ganho com o trabalho do pai.
Ficou subitamente triste ao saber que seu egoísmo daria um exemplo tão forte para seus descendentes. Parasitas, eles seriam parasitas da obra do pai, como tantos outros descendentes de escritores famosos: não fariam nada, não deixariam nada para o mundo, nem sentiriam remorso por isso pois queriam apenas ter o máximo de prazer com o dinheiro de uma herança.
Nem queria saber o que havia acontecido com Kátia. No mínimo, eles haviam a internado num asilo, se ainda estivesse viva.
- Vamos embora, anjo? Não conheço ninguém aqui. Nem quero conhecer.
***
Um lugar que parecia uma banca de jornais, mas só via livros, e nada parecido com periódicos. Talvez uma banca de livros? Viu que também havia frutas, garrafas (refrigerantes?) e algumas roupas. Uma voz falava, e Bernardo não conseguiu identificar. Um rádio? Teriam ido ao passado?
“Hoje é dezenove de abril de 2071, domingo. O governo federal reinaugurou o Museu-Cidade de Brasília, cinco anos depois do Atentado do Planalto, que matou cinco mil pessoas. O líder da oposição no Senado apresentou uma denúncia ao Ministério Público revelando superfaturamento nas obras de restauração...”
Um velhinho entrou na banca e cumprimentou uma pessoa que parecia ser a dona:
- Bom dia! Boa Páscoa, vizinha!
- Boa Páscoa, bom Pessach, seu Ademir! Você viu quem morreu?
- Eu vi, dona Fátima! O seu Bernardo, não é?
- Pois é! Morreu ontem à noite.
- Você sabe onde vai ser o enterro?
- No Cemitério da Ressurreição... estão velando ele por lá, também.
- Que coisa! Um homem tão bom! Ajudava todo mundo. Um santo homem. Já vi ele tirar a roupa do corpo pra dar pra um mendigo.
- E se fosse só isso! Tanto ele quantos os filhos, a mulher... nem depois que ela morreu ele esmoreceu, ficou ainda mais bondoso, nunca vi ninguém fazer tanta caridade... é, seu Ademir... quem é ruim não morre, não é? Que nem esse presidente aí...
- Pois é! Faz mal pra tanta gente... mas vaso ruim não quebra, né? Já dizia meu avô...
- É, mas seu Bernardo, esse vai fazer falta...
Bernardo olhou para o anjo.
- Bom, deduzo que seja eu o falecido...
- Bingo!
- Sem brincadeira... nem precisa me levar para fora. Deve haver algo parecido com o que vimos na outra Possibilidade...
- De fato, é bem parecido.
- Nem preciso ver ou ouvir mais nada. Parece que o fato de uma pessoa tão comum, como o seu Ademir, comentar sobre mim dessa forma indica que eu fui uma pessoa bastante boa...
- É o que parece.
- Os meus filhos e minha esposa, deduzo, também, são, ou foram, bastante queridos. Também vivi bastante nesta Possibilidade número dois, bem mais que na número um...
- Sim.
- Então, por que você está tão lacônico? Está faltando a literatura aqui, não é? Eu sou um completo anônimo?
O anjo sentou-se em uma banqueta, ao lado de dona Fátima. Ela continuou a atender os clientes e a fazer os pagamentos numa tablet encardida.
- Bernardo, nesta possibilidade, você fará as pazes com a vida. Depois do nosso encontro, e por causa dele, passará um tempo em reflexão, e, depois desse tempo, fará as pazes com todos os seus desafetos, seus parentes, e se tornará uma pessoa dedicada aos outros. Nisso terá ajuda dos filhos e da esposa, que aderirá ao seu novo modo de vida de forma entusiasmada. Vocês serão uma família muito querida pela comunidade, mas especialmente você, presentes em todas as causas do bem e promotor de muitas delas. Quando morrer, todos lamentarão muito, deixando muita saudade, como pessoa solícita e atenciosa.
“Isso tudo implicará que você renunciará à literatura, como algo falso, que simula a vida mas não tem a completude desta. O encontro com o Próximo, nesta possibilidade, será muito mais enriquecedor para você do que o encontro com os livros.
“E então nunca mais escreverá uma linha. E ninguém, ninguém saberá que escreveu um dia. Durante alguns anos, será lembrado como uma espécie de santo, mas depois de vinte ou trinta anos estará esquecido para sempre”.
- Então, aqui, eu morro no dia 18 de abril de 2071.
- Sim.
- Sem uma obra.
- Literária, sim. Mas uma obra humana bem grande.
- Certo. Podemos voltar, ou eu tenho que decidir aqui?
- Voltamos, claro.
O tempo passou pelos seus olhos como na janela do trem e um segundo eles estavam de volta à sua varanda.
Bernardo sentou-se à sua cadeira, em frente ao notebook que ainda zumbia. Indicou ao anjo uma cadeira igual à sua, de palha, e ele sentou-se ao lado da mesa.
- Deixe-me ver se entendi: você, o anjo do Destino, me dá o direito de escolher o dia da minha morte. E que a escolha desse dia determinará meu futuro. Mas eu posso escolher somente entre duas possibilidades.
- Eu não explicaria melhor. É isso mesmo - respondeu o anjo.
Ele olhou para a frente. Via as árvores, a horta, o muro que dava para a casa dos fundos, os telhados dos vizinhos morro abaixo, o clarão das luzes da cidade e algumas estrelas. Mais acima, a lua. “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha vossa filosofia...”
- Mesmo sabendo o que você vai responder, eu pergunto: por quê?
- Se você sabe a resposta – disse o anjo – por que pergunta?
- É o que eu queria ouvir. Só para confirmar. Se eu não perguntasse, você não responderia e eu não teria certeza.
Bernardo foi rápido. Tinha pensado em usar o facão, ou mesmo a katana que tinha ganho de um amigo no ano passado. Não houve tempo nem oportunidade para os dois: usou o cabo de vassoura, uma ferramenta versátil para a horta e o pomar. Virou com tudo na cabeça do anjo e bateu uma, duas, três, quatro vezes: um número mágico, como as estações do ano, os pontos cardeais, os cantos da terra. Bateu mais uma, duas, três vezes: três como a Trindade, as medalhas olímpicas, as Três Graças. Sete vezes, como os pecados capitais, e seriam sete vezes sete se o anjo ainda respirasse. Não mais.
Depôs o cabo ensanguentado no chão e viu que tinha se levantado da cadeira sem perceber. Não tinha remorso nem culpa de nada. Sabia que o barulho não tinha acordado ninguém pois o anjo não tinha emitido nenhum som, nenhum lamento, nenhum grito de surpresa ou desespero.
Não sabia que anjos morriam.
Bernardo estava aliviado pois tinha tido o seu momento. Nunca fizera mal à pessoa alguma, nunca arrancara sangue de ninguém, nem de bichos. Agora, havia matado o anjo do Destino. Mas estava aliviado.
Não seria um anjo que lhe daria somente duas chaves e lhe mostraria somente duas portas para abrir. Preferia qualquer futuro que ele escolhesse sozinho do que dois futuros pré-fabricados. Ele mesmo forjaria a sua chave e sua fechadura. Ele mesmo cortaria a árvore, serraria a madeira e a entalharia para que se tornasse porta.
Tinha quarenta anos, tinha saúde, tinha força para erguer-se, recolher o corpo do anjo do Destino e enterrá-lo no quintal, entre as flores de ontem.
Levou duas horas para fazer um buraco. Jogou o corpo inerte do anjo na vala e o cobriu com a terra fresca. Voltou à varanda e limpou o sangue, sorte que não havia respingado muito.
Desligou o notebook. Sentou-se. Suspirou cansado. A alvorada trombeteou no horizonte. O zumbido da cidade começou a crescer. Os passarinhos começaram a acordar e foram procurar comida. Muitos insetos morreram. Muitos homens e mulheres, jovens, crianças, velhos, sonhavam, alguns poucos acordados também. Outros nunca dormiam e vigiavam a passagem da vida. As folhas morriam e continuavam a cair, as frutas caíam e se estragavam no chão, mas algumas sementes brotavam. Como faziam há milhões de anos.
Hora de colar os cacos.
Piracicaba, 2011-2016



