“Entre o sim e o não existe um vão”
O desprezo a filósofos mostra que modernidade ainda é palco de antagonismos desnecessários e nada edificantes
Filosofia tornou-se território para o canibalismo. Pensamento tentando devorar pensamento. A dificuldade para estabelecer um recorte adequado que permita refletir melhor sobre determinada questão leva muitas pessoas que se consideram pensadores a interpretar de forma superficial ideias profundas, que precisariam ser devidamente contextualizadas.
Evidentemente, todos os pensadores devem estar preparados para ter suas respectivas reflexões colocadas à prova. Não há dúvida quanto a isso. Mas quando não se tem com mais profundidade os motivos das respectivas teses em questão, muito absurdo pode ser falado, fundamentado em um método antagônico e preconceituoso de pensar, como se o ponto de vista analisado precisasse ou ser destruído ou endeusado. Bobagem.
Não só isso. A depender da linha de pensamento do questionador, ele evidencia uma carga de palavras que simplesmente estigmatiza o pensador atacado, como se, com seu algoz, tivesse nascido o caos. Serei mais direto. Quem já leu René Descartes, por exemplo, sem filtros ideológicos, sabe da grandeza do pensador, que aponta para a necessidade de um método para a nova filosofia científica, que estava nascendo. Todo seu exercício é para tentar fazer ciência sem as amarras da religião, olhando apenas para a natureza. Mas cada época tem seus limites e Descartes vivia em um ambiente intelectual limitado, carregado de dúvidas e preconceitos. Nada diferente dos dias de hoje. Mesmo assim, foi só ele sugerir que o corpo humano poderia funcionar como uma máquina, meu Deus, todos os seus sucessores filosóficos, que buscavam referências para a história da filosofia, viram nele o pai da tese “homem máquina”.
Conheço muita gente filosofeira que vai direto ao ponto: “Este não é o pai da tese em que o homem se assemelha a uma máquina?”, e te olha de soslaio, determinado a crer que Descartes foi um grande problema para a humanidade, como quem diz: sai dessa. Esse estigma nasce com sua frase lapidar: “Cogito, ergo sum”. Nada mais que, “penso, logo existo”. Some-se à sua tese de que há dois mundos diferentes a serem analisados, o mundo dos corpos físicos e o da mente. Pronto, já houve aqueles que chegaram à conclusão-relâmpago de que Descartes separava o corpo da mente e a mente pensava o corpo como se ele fosse uma máquina.
Não que essas observações não possam ser feitas. Evidente que sim. Afinal de contas, Descartes é fruto do Renascimento, em que as analogias mecanicistas estavam presentes na academia. Mas é preciso tratá-lo em um ambiente de reflexão que considere também a amplitude do seu pensamento, que não é dogmático, mas sim, especulativo, digamos. Porque ao mesmo tempo em que ele vê a mente com uma possível estrutura que vive independente do corpo, ele tenta também ver as interconexões entre as duas partes, envolvendo os músculos e o sensorial. Mas este conteúdo não é a praia de Descartes. No entanto, foi estigmatizado por isso. Imensa bobagem.
Nenhum filósofo está isento de ser contestado, já afirmei, mas não precisamos ser caçadores de ideias equivocadas ou suspeitas de equívocos para estudarmos filosofia e tentarmos eliminar aquele que estabelecemos como oponentes. Senão acabamos por criar pontos de cisão em um movimento que se desenvolve por esgotamentos de teses, sempre que um novo ponto de vista mais consistente se apresenta. A própria contestação é válida, quando não está carregada de preconceitos contra seu objeto de estudo.
O próprio Platão é motivo de muitas saraivadas. Nem seu famoso Mito da Caverna passa ileso. Não são poucos os pensadores modernos que veem em Platão o embrião dos comunistas, como Karl Popper. Ou então, como pai do racionalismo, o que daria a ele o papel de construir as bases do pensar da ciência como é desenvolvida hoje no ocidente. Rupert Sheldrake cita o mito para comprovar a tese de que a lógica e a razão são as forças dominantes que impedem a ciência de considerar conhecimentos advindos de campos sensoriais e intuitos, dando a ela maior abrangência. Como se a forma de pensar de Platão fosse um condicionador de mentes. Sheldrake é grande e vai além disso. Mas pegou pesado com Platão. Desnecessário.
De fato, Platão considerava a forma como algo elevado, estando em um grau de acesso restrito a filósofos. Até se chegar a uma forma o pensador precisaria passar por muitas fases, como bem descritas por Giovanni Reale. Há assim dois planos do conhecimento, um com base no sensível e outro, no inteligível, pelo qual se chegaria às formas em um processo dialético, sendo as formas a verdade. Aqui que está a questão: a verdade.
Alcançar a verdade é objetivo da ciência. Mas a estrutura social e econômica da ciência está em administrar a verdade como se ela, ciência, estivesse de posse da verdade, e até se impor como guardiã da verdade. Ou seja, a convivência com o conhecimento, seja no plano científico ou filosófico ainda é muito viciado e restritivo. Os antagonismos ganham caráter de guerra de facções. Um perigo. Por isso eu digo: Penso, por isso leio com mais atenção para saber onde está onde está o precipício e o salto de superação. Onde está a grandeza do pensador, à revelia dos seus erros. Afinal, como enfatizava o nosso grande compositor Itamar Assunção, “Entre o sim e o não existe um vão”.




