
Para pessoas com asma moderada a grave, aumentar a atividade física pode ser uma estratégia complementar ao tratamento médico. Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) comparou duas formas de promover a melhora clínica, ou seja, a redução dos sintomas de pessoas com asma. Ambas as abordagens produziram melhorias semelhantes no monitoramento da doença.
A pesquisa acompanhou 52 adultos com asma moderada a grave, em tratamento medicamentoso otimizado e baixo nível de atividade física. Após uma avaliação inicial, os participantes foram sorteados em dois grupos: 27 realizaram treinamento aeróbico e 25 participaram de uma intervenção comportamental para aumentar a atividade física.
O treinamento aeróbico foi realizado em esteira ergométrica, duas vezes por semana, por oito semanas. Cada sessão durou 45 minutos. A velocidade e a inclinação da esteira aumentaram conforme a resposta de cada participante, com auxílio da escala de Borg, que permite avaliar a percepção de esforço e de cansaço respiratório.
A estratégia de intervenção comportamental visou aumentar a atividade física no cotidiano. Os participantes compareciam ao hospital uma vez por semana, em encontros de até 90 minutos. Nessas sessões, os pesquisadores identificavam obstáculos à prática de atividades físicas, estabeleciam metas individuais e utilizavam técnicas como a entrevista motivacional e o acompanhamento por meio de um relógio inteligente.
O dispositivo registrava o número de passos e emitia um alerta após 60 minutos de sedentarismo. A equipe analisava os dados semanalmente e definia novas metas com base no desempenho anterior. Segundo David Araújo, primeiro autor do trabalho e pós-doutorando da FMUSP, entre os obstáculos relatados estavam cansaço, medo de se machucar e questões relacionadas à segurança dos locais para caminhar.
Resultados semelhantes
Após oito semanas, os dois grupos apresentaram melhora no controle da asma e na qualidade de vida. “Tanto o treinamento aeróbico quanto a intervenção comportamental são benéficos para o controle clínico do paciente”, afirma o primeiro autor da tese. A melhora permaneceu no acompanhamento realizado 16 semanas depois, quando os participantes já haviam retomado sua rotina habitual.
A proporção de participantes que atingiram melhora clinicamente significativa no controle da doença foi de 88% no grupo de intervenção comportamental e 78% no treinamento aeróbico, logo após o período experimental. Quatro meses depois, os índices eram de 64% e 63%, respectivamente. Como não houve diferença entre as modalidades, os resultados indicam benefícios semelhantes no controle clínico.
A qualidade de vida também melhorou nos dois grupos. Houve ainda redução dos sintomas de ansiedade e depressão e aumento do nível de atividade física. Essas mudanças permaneceram no acompanhamento de médio prazo. Segundo Araújo, “nenhuma intervenção se sobressaiu à outra”. Para ele, as duas estratégias não farmacológicas podem contribuir para o controle da doença.
A qualidade do sono e a composição corporal permaneceram sem diferenças significativas após as intervenções. Esses resultados mostram que os benefícios observados não se estenderam de forma uniforme a todos os aspectos avaliados.
A comparação entre as duas estratégias traz uma possibilidade relevante para serviços de saúde: nem sempre o aumento da atividade física precisa ocorrer dentro de um ambiente especializado. O treinamento aeróbico exige equipamentos, acompanhamento profissional e deslocamento até o serviço, enquanto a intervenção comportamental tem como principal foco estimular a caminhada.
O exercício não precisa ser evitado
Segundo o artigo, a asma é uma doença heterogênea (apresenta uma variedade de causas, gravidades e respostas ao tratamento entre os pacientes), caracterizada pela inflamação crônica das vias aéreas e por sintomas respiratórios, como chiado, falta de ar, aperto no peito e tosse. A doença também pode estar associada à redução da capacidade de exercício e à inatividade física, fatores relacionados a um pior controle clínico da doença
Para Celso Carvalho, professor da FMUSP e orientador da pesquisa, a investigação também se relaciona a uma mudança na compreensão sobre exercícios para quem tem asma. “Há 20 anos, era contraindicado às pessoas com asma fazerem exercício, pois elas têm broncoespasmo induzido pelo exercício”, afirma, em referência ao estreitamento das vias aéreas que pode ocorrer durante ou após a atividade física e dificultar a respiração.
Segundo Araújo, estudos anteriores sobre a relação entre asma e atividade física demonstram benefícios do exercício físico para pessoas que têm essa condição, como a redução dos sintomas da doença, de ansiedade e depressão. A atividade física pode integrar o manejo da asma quando há avaliação adequada e acompanhamento profissional.
Todos os participantes mantiveram o tratamento farmacológico prescrito durante a pesquisa, e os pesquisadores reforçam que as intervenções estudadas são complementares. “Nenhuma intervenção vai substituir a medicação do paciente. Ela vai ser um complemento para o manejo da doença”, afirma Araújo.
Para pessoas com asma que querem começar a praticar atividade física, Carvalho recomenda três cuidados principais: iniciar de forma gradual, com cerca de 500 passos a mais por semana, e escolher horários com temperaturas mais amenas; manter a hidratação durante o exercício, já que o esforço pode ressecar as vias aéreas; e seguir corretamente o tratamento medicamentoso prescrito.
O trabalho foi publicado em junho de 2026 na revista Pulmonology e recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), como parte do projeto temático Reabilitação pulmonar: o efeito de novas metodologias e tecnologias centradas em pacientes com doenças pulmonares crônicas.
A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Investigação em Fisioterapia e Exercício da FMUSP, em colaboração com a Unidade de Doença de Vias Aéreas da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (Incor), o Departamento de Clínica Médica e o Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP. Participaram da pesquisa David Araújo, Fabiano Francisco de Lima, Vitória Zacarias Cervera, Yan Anderson Pires de Oliveira, Juliana de Melo Batista dos Santos, Adriana Claudia Lunardi, Alfredo José da Fonseca, Marcio Mancini, Regina Maria Carvalho-Pinto e Ronaldo Aparecido, sob orientação de Celso Carvalho.
Matéria: Amanda Yoshizaki | Jornal da USP.





