Choque cardiogênico possui alta mortalidade e é ainda grande desafio para a medicina
Para Silvia Moreira Ayub Ferreira, a existência de “times de choque” e o rápido diagnóstico são a melhor combinação

O choque cardiogênico é uma síndrome cardíaca na qual o tecido do coração não recebe a quantidade de sangue adequada. O choque apresenta diversas causas, porém, o infarto agudo do miocárdio, ou seja, a morte das células do músculo cardíaco pela formação de coágulos e, consequentemente, a interrupção do fluxo sanguíneo, é a principal causa.
Segundo Silvia Moreira Ayub Ferreira, médica assistente da Unidade de Insuficiência Cardíaca do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o choque cardiogênico apresenta ainda alta mortalidade.
Uma das características do choque é a diminuição da pressão arterial, como detalha Silva. “Normalmente, você tem uma hipotensão arterial, pressão arterial abaixo de 90 mmHg, associado a sinais de hipoperfusão dos órgãos, que é a redução do suprimento sanguíneo aos outros órgãos, como ao sistema digestivo, aos rins, ao cérebro. Outros sinais clínicos podem ser frequentes no choque, como a pessoa poder ter uma confusão mental, redução de diurese, as extremidades ficam pálidas e frias pela redução de sangue para a pele. Você pode ter também marcadores pela liberação de substâncias na corrente sanguínea em decorrência da hipoperfusão, por exemplo, você pode ter elevação de lactato ou elevação de escórias renais porque o rim não funciona direito. Como choque, você tem um conjunto de sinais, sintomas e alterações laboratoriais que o caracterizam.”
A cardiologista explica o porquê do nome ‘choque’. “Porque você tem uma hipotensão arterial chama-se choque cardiogênico. Ele vem com a redução da pressão arterial. Choque não é só o cardiogênico, você pode ter choque de outras causas, choque hipovolêmico, quando você tem uma desidratação profunda, um choque séptico, em que você tem um quadro infeccioso levando a esse quadro de redução da pressão arterial.”
Causas e dificuldade com o tratamento
As causas do choque cardiogênico englobam desde o infarto até problemas cardíacos preexistentes, como hipertensão arterial e miocardite. “A principal causa de choque cardiogênico é o infarto agudo do miocárdio. Existem outras causas, que são aqueles pacientes que já têm uma doença cardíaca prévia, por exemplo, paciente que tem uma insuficiência cardíaca decorrente de uma hipertensão arterial maltratada ao longo dos anos, secundária ao uso de álcool, alguma outra substância ilícita, você tem uma disfunção desse coração.”
O choque possui uma alta taxa de mortalidade, devido à dificuldade de seu tratamento. “O choque cardiogênico ainda é uma entidade que tem uma mortalidade extremamente alta, apesar de todo o avanço que a cardiologia teve no tratamento. A mortalidade, às vezes, é de 40% a 50%, sendo ainda um grande desafio da cardiologia. Talvez ainda seja aquela parte que a gente não conseguiu efetivamente ter um tratamento que faça uma mudança na estratégia, no prognóstico desses pacientes.”
A médica acredita que o chamado “time de choque” pode ser uma estratégia eficiente para a redução do número de óbitos por choque cardiogênico. “O que a gente tem visto recentemente, que tem ajudado, é o diagnóstico precoce, no caso dos infartos, e também se observou que, quando você tem uma equipe, chamada de ‘time de choque’, formada por múltiplos especialistas, seja o médico que faz o cateterismo, o hemodinamicista, o cirurgião cardíaco, o intensivista, o especialista em ciência cardíaca, isso reduz a mortalidade. Ou seja, quando há um trabalho de todos os especialistas ao mesmo tempo para definir tratamentos de prognóstico, é apresentada uma melhora e uma redução da mortalidade desses pacientes.”
Silvia finaliza comentando a necessidade do aprimoramento do pronto atendimento para o tratamento do choque cardiogênico. “O reconhecimento precoce para se instalar as medidas o mais rapidamente possível na chegada, porque às vezes deixa-se um paciente esperando mais de uma hora para ser atendido, fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento. O diagnóstico extremamente precoce é fundamental para instalar as medidas adequadas.”



