
As recentes restrições realizadas sobre o Banco Central (BC), relacionadas ao corte de recursos discricionários, têm levantado questões relevantes sobre o funcionamento e o futuro do Pix. O ecossistema, que se tornou a principal ferramenta de pagamentos do País, precisa de investimentos constantes em infraestrutura de TI e cibersegurança para sustentar o volume bilionário de transações diárias e o lançamento de novas funcionalidades.
O Pix é um sistema de pagamentos instantâneo, do próprio BC, que permite realizar transferências de dinheiro e compras em poucos segundos, 24 horas por dia. Ele alterou a infraestrutura sobre a qual funcionam os pagamentos no Brasil, reduziu custos, aumentou a competição entre instituições, acelerou a digitalização e ampliou o acesso a serviços financeiros. Essas limitações reduzem as equipes de fiscalização e ameaçam o desenvolvimento de projetos futuros relacionados.
Funcionamento e manutenção
Marcelo Botelho, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP, explica o que é necessário, do ponto de vista tecnológico, para manter esse sistema em funcionamento. “Os sistemas são a base do processamento e registro das transações, intermediando as operações entre as instituições financeiras. Isso demanda custos de data centers capazes de processar e armazenar informações sensíveis, em grande volume, com atuação 24 horas por dia e sete dias por semana e redundância entre diferentes localizações.”
“Esses centros utilizam uma rede específica para conexão segura, separada da internet, com as instituições financeiras, por meio da Rede do Sistema Financeiro Nacional e Criptografia para Proteção”, completa. Ou seja, é uma estrutura que envolve tecnologia de ponta em hardware e software, com ferramentas e data centers dimensionados para toda essa escala, incluindo períodos de pico com alto volume de transações, como datas especiais do comércio, a exemplo de Natal ou Black Friday.
A manutenção do Pix exige investimentos altos e constantes – seja pelo fato de que o serviço de data center apresenta um elevado custo, que cresce pela demanda por esse tipo de fornecedor, seja pela manutenção do software, criptografia e infraestrutura de conexão – para que o sistema se mantenha seguro. “Além disso, o desenvolvimento de novas soluções, como o Pix Parcelado ou Pix por Aproximação em ambiente off-line, depende de grandes investimentos financeiros para a contratação de serviços de desenvolvedores de processamento e armazenagem de dados e mão de obra para controlar e fiscalizar o sistema.”
Segurança digital
Por outro lado, Marcos Antonio Simplício, docente associado ao Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da USP, demonstra a necessidade de garantir a cibersegurança. “Qualquer sistema digitalizado necessita de investimento constante em segurança, devido à evolução das ameaças. Novos atacantes surgem a todo momento, e os patches de segurança precisam ser constantemente atualizados para contrapor essas ameaças.”
“Sob um contexto de restrições orçamentárias, com menos profissionais e recursos à disposição, sempre deve-se priorizar os problemas mais críticos, o que pode deixar outros à mostra, expondo vulnerabilidades com o tempo. Uma equipe mais robusta costuma trabalhar de forma mais proativa, antecipando problemas de software e acompanhando futuras ameaças (Threat Intelligence). Com essas reduções, as ações tendem a ser bem mais reativas e a curto prazo”, afirma Simplício.
De acordo com Botelho, a evolução é a primeira etapa a ser afetada, com o prolongamento da agenda de desenvolvimento de novas funcionalidades e soluções. A manutenção também corre risco, não apenas de afetar a disponibilidade do sistema Pix como as ocorrências de cibersegurança no acesso e movimentação indevidos, gerando grandes perdas a todo o Sistema Financeiro Nacional. “Por isso é tão importante garantir os repasses ao BC, visto que sua autonomia financeira seria a melhor alternativa para reduzir esses riscos.”
Futuro ameaçado?
A alternativa de redução da capacidade de inovação é um risco real, e a possibilidade mais provável no curto prazo para o Banco Central. “Isso prejudicaria usuários ao não possibilitar novas modalidades de pagamento que possuam potencial de substituir meios de pagamento, como boletos e cartão de crédito, algo que aumentaria o volume de uso e o acesso a esse tipo de veículo com maior prazo por grande parte da população”, ressalta o especialista em contabilidade.
Outra saída, detalhada por Simplício, para os bancos participantes do Pix conseguirem compensar eventuais limitações do BC, é o investimento individual na cibersegurança. “Essa proteção vai além do que é exigida pelas regulamentações e, eu diria, que é até mais importante do que o investimento do próprio Banco Central.” Um exemplo recente de falta de segurança interna foi o ataque à C&M Software, que resultou num desvio estimado entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão de contas-reserva de instituições financeiras de menor porte ligadas ao BC.
Botelho acredita que é difícil dizer que o futuro da plataforma esteja realmente ameaçado, mas que essa é uma questão cada vez mais complexa, tendo em vista a dificuldade de manter e evoluir uma infraestrutura como o Pix. Desse modo, o problema não envolve apenas as restrições orçamentárias recentes, mas também o constante aumento de preço em sustentar e desenvolver a plataforma, impulsionado pela maior demanda por capacidade computacional, pela valorização da mão de obra especializada e pela necessidade de atualização das tecnologias de cibersegurança e criptografia.
Matéria: Andrey Furmankiewicz | Jornal da USP.





