
Entre 2021 e 2025, o crescimento do número de mulheres atrás das câmeras no prime time da TV Globo – também conhecido como horário nobre – foi cerca de 72%, quase dez vezes maior que o de homens. Segundo levantamento da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, no mesmo período, o crescimento do número de homens foi de cerca de 7,5%. Os dados foram publicados no 20° Anuário do Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva (Obitel, na sigla em inglês), deste ano.
O prime time é o período do dia em que as emissoras de rádio e TV têm a maior audiência. No caso da TV aberta brasileira, o período da noite. Para realizar o levantamento, os pesquisadores transcreveram e analisaram as fichas técnicas exibidas ao final dos capítulos das telenovelas. No total, 6.101 pessoas foram empregadas no quinquênio na produção de 15 telenovelas, exibidas às 18, 19 e 21 horas. Deste total, 3.753, cerca de 62%, eram homens, enquanto 2.348, ou 38%, eram mulheres.
Para a análise da participação das mulheres, as categorias utilizadas consideraram a inserção feminina nas equipes de produção, presença em posições de comando e participação nos diferentes horários de exibição. Segundo os pesquisadores, “ainda que os homens sigam como maiorias, a redução da diferença ao longo do quinquênio é significativa”.
Publicado em inglês e português, intitulado “Telenovela em todos os lugares e o trabalho de mulheres em sua produção”, o capítulo brasileiro é dedicado a mapear a participação feminina na produção de telenovelas no horário nobre da TV Globo. O artigo também faz um mapeamento do audiovisual no País, principais canais, produtoras, lançamentos, consumo e tendências.
Em 2021, por exemplo, do total de 1.115 pessoas empregadas, as mulheres representavam cerca de 32%. Em 2025, o percentual sobe para cerca de 43%, ou 1.427 pessoas empregadas no ano, um saldo de 72% em relação a 2021.
Para os pesquisadores, ao longo dos cinco anos analisados, a evolução não foi progressiva, com períodos de estagnação. “Após um acréscimo entre 2021 e 2023, o número de mulheres estabilizou em 2023 e 2024, retomando avanço apenas em 2025, com um salto de 27% [de 469 em 2024 para 609 em 2025] em um único ano, sem paralelo no crescimento masculino.”
É também em 2025 que o crescimento da participação feminina nos horários das 18 e 19 horas cresce. Em 2024 elas representavam aproximadamente 38% das equipes, enquanto, em 2025, elas eram 45% das pessoas empregadas. Segundo os pesquisadores, o crescimento pode estar relacionado a transformações no audiovisual, demandas por maior representação e equipes mais heterogêneas.
O crescimento, apesar disso, ainda é atravessado pelo marcador racial: a presença feminina é majoritariamente branca. Segundo um estudo realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), entre as telenovelas exibidas entre 1975 e 2023, 73% dos autores titulares são homens brancos. No período, 25% são mulheres brancas, 15% são homens negros e apenas uma mulher não branca apareceu na função, em 2000.
No cargo de direção, o cenário se agrava: 92% dos diretores são homens brancos, 7,7% são mulheres brancas e apenas 0,3% são pessoas não brancas. Pela falta de incidência no levantamento, a categoria “indígena” foi retirada. No caso de mulheres trans, há a subnotificação dos dados.
As mulheres nos bastidores em 2025
O ano de 2025 tem outra particularidade: as teledramaturgias exibidas nas três principais faixas horárias da TV Globo foram de autoria feminina. Garota do Momento (18h), escrita por Alessandra Poggi, Dona de Mim (19h), por Rosane Svartman e o remake de Vale Tudo (21h), por Manuela Dias. Para os pesquisadores, “a ocupação simultânea dos três horários do prime time por autoras mulheres, configura um momento particular e significativo, de uma maior participação feminina nos processos criativos e decisórios”.
Outro ponto de destaque para as produções é que as três investem em narrativas interseccionais, ou seja, narrativas que consideram os marcadores de raça e gênero em suas concepções. Como no remake de Vale Tudo, de Manuela Dias, que, apesar dos atritos em relação ao destino da personagem negra Raquel, interpretada por Taís Araújo, ao reinterprertar a obra original de Gilberto Braga, “traz uma perspectiva racializada” para a trama, segundo os pesquisadores.

No que diz respeito à participação feminina no geral, as mulheres se destacaram, numericamente, nas áreas de roteiro, direção, produção e pesquisa, representando 56% da equipe. Os homens foram predominantes nas áreas de gravação, pós-produção e arte e cenografia.
Entre as 10 produções mais vistas na TV aberta em 2025, Vale Tudo e Dona de Mim ocupam a primeira e segunda posição, respectivamente. Garota do Momento aparece em sétimo lugar.
O contexto audiovisual do Brasil
O artigo também traça um panorama da produção e consumo do audiovisual brasileiro no ano de 2025. No total, o Brasil conta com 7 emissoras de televisão aberta, sendo cinco delas privadas (TV Globo, TV Record, SBT, TV Band e Rede TV!) e duas públicas (TV Brasil e TV Cultura). Na TV aberta, a Globo segue como a líder de audiência, seguida pela Record e SBT.
Em relação às plataformas de VoD (Video on Demand, ou Vídeo sob Demanda), a Amazon Prime Video aparece na liderança das plataformas mais importantes. Em seguida aparecem a Netflix e a HBO Max. O Globoplay aparece em quarto lugar e é a única VoD brasileira na lista.
No aspecto consumo, de acordo com os pesquisadores, “as mulheres continuaram sendo a audiência que mais consome teleficção no Brasil, representando 60% do público, e com maior índice de audiência durante as telenovelas das 18 horas”. O público masculino aparece em maior taxa no horário das 21 horas, apesar de não atingir a metade do público.
“De modo geral, o público com mais de 50 anos é majoritário no consumo das principais produções teleficcionais, sendo a maior audiência de todos os dez títulos mais vistos, com índices acima de 50%. A telenovela Vale Tudo foi a que registrou a maior parcela de pessoas na faixa etária de 35 a 39 anos (23,2%), enquanto Falas da Vida [produção documental da TV Globlo] foi a obra mais vista, percentualmente, pela audiência de 25 a 34 anos (12%)”, ressaltam os pesquisadores.
A produção brasileira para o 20° Anuário do Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva foi desenvolvida pela equipe do Obitel Brasil, vinculada ao Centro de Estudos de Telenovela (CETVN) da ECA USP, sob a coordenação da professora Maria Immacolata Vassallo de Lopes.
Para acessar a íntegra do anuário, em espanhol ou inglês, acesse este link. A produção traz artigos e produções sobre outros 12 países ibero-americanos.
Matéria: Maykon Almeida | Jornal da USP.





