Rubem Braga era encantado por cenas do cotidiano. Ler “Ai de Ti, Copacabana” é um mergulho na vida carioca do seu tempo. Lembro deste grande escritor porque, de fato, ele fez a diferença, com sua pena leve e poética. Buscava vida em coisas pequenas e se tornou leitura indispensável. Toda cidade deveria ter seu Rubem Braga.
Piracicaba teve o privilégio de ler um colunista que merecia ser relembrado. Era o Homem da Rua, se não me engano. Ele relatava o que via. Recordo um relato seu em que falava de uma carroça abandonada na rua do Comércio. “Onde já se viu deixar uma carroça atrapalhando o trânsito por tanto tempo? Onde estão as autoridades para cuidar disso?” Eram suas perguntas.
A gente mergulha no tempo com os cronistas. Sem a pretensão de ser um deles, recordo alguns fatos engraçados que presenciei e acho que devo registrar.
Chinesa
Uma vez eu me encontrava em um açougue e o homem do balcão atendia uma chinesa. Ela queria uma carne específica, mas não sabia como pedir. Pressionada, devido à chegada de mais clientes, que esperavam em fila, ela sacou da onomatopeia milagrosa e se saiu muito bem: “Quero caine”. “Mas que tipo de carne, minha senhora?”, insistiu o açougueiro. “Quero caininha, caininha, caininha, caininha”. Ela fazia também gestos com as mãos de algo que estava todo fragmentado. Depois disso, ficou fácil para se compreender que ela pedia carne moída.
Bilhete
Na frente do Mercadão, um vendedor de bilhetes me abordou. Ele se parecia com Dom Pedro II. Barbas brancas e cabelos com uma leve entrada na testa. “Leva este, que é o macaco. Tenho também avestruz e borboleta. Tudo na sequência completa. É para ganhar”. Como eu não entendia nada de jogo do bicho, fiquei um tempo observando e vendo ele falar, porque o homem era muito engraçado. Até que tive que ser sincero e dizer que eu não tinha dinheiro. Foi pouco. O homem começou a falar escandalosamente, para todo mundo ouvir: “Como pode um homem não ter 10 real na carteira? Um homem que não tem 10 real na carteira não é um homem”. Fiquei muito envergonhado e fui embora rapidinho. A fala dele me voltou à memória esses dias mesmo.
Camelódromo
Eu procurava um plástico para proteger minha identidade. O documento estava deteriorando, porque eu coloque a carteira toda na máquina de lavar, esquecida no bolso da calça. Até que encontrei o que eu queria. Perguntei o preço e o vendedor disse que custava “2 real”. Perguntei se ele aceitava cartão. Meu Deus, que vergonha. Ele disse. “Usar carão para pagar 2 real. Um homem que não tem 2 real no bolso...” Saí rapidinho de perto e disse que voltaria. Até hoje minha identidade está desprotegida.
No bar
Eu estava em um bar bebendo cerveja. Eu gostava muito de ir a botecos, porque era certeza de cenas curiosas e engraçadas. Até que chegou um ‘pingaiada’, um tipo magro e de barba por fazer. “Me vê um punhado de coiso”. Na hora, o homem do balcão deu um punhado de fichas para ele jogar em uma das máquinas encostadas na parede. De repente, começaram a cair um monte de moeda. Eram muitas mesmo. Ele disse: “Com doi coiso, essa montanha de coisinha. A coisa tá boa”. Para mim era a língua do ‘coiso’, porque o homem só falava assim para tudo. Seu vocabulário era reduzidíssimo: “Vê um coiso com umas coisinhas”. O homem do bar trazia uma pinga com uma porção de amendoim. Nunca ouvi tanto coiso em minha vida e a facilidade de comunicação entre os presentes. Na hora de ir embora, segui o homem. “Tomei duas coisas”. O dono do bar olhou para mim e riu. “20 real”. Paguei alegre, porque ganhei a noite.



