Mil poemas dadaístas
À base de porção de pacuera e cerveja, muita cerveja, fechávamos "A Noite" no Bar do Nerso
O agito começava no final da tarde. A ‘runião’ era no Bar do ‘Nerso’, em frente à ‘redoviária’. A pronúncia aqui é ao estilo ‘Cinco Tiro’, personagem central de várias histórias que vivenciamos naquele período ensandecido.
Ele vivia no bar e afirmava categoricamente ter sobrevivido a um atentado, permanecendo com uma bala saliente no peito. “Foram cinco tiro e este é uma prova. Sobrevivi!”, costumava afirmar sempre que tocávamos no assunto.
Mas a história de hoje é outra. Havia uma mulher no grupo de machos. Vivíamos, como posso dizer, um sonho digno de jornalismo literário dos anos 20 (pelo menos esta era uma das nossas fantasias). À base de porção de pacuera e cerveja, muita cerveja. Fechávamos a noite no Bar do Nerso. Todas as noites.
É um estilo de vida em que todos morrem no final por falta de dinheiro para comprar pão. Evidente que mudamos de rumo para esticar um pouco mais a nossa missão na Terra.
O fato, para este momento, é que deixamos marcas em nossas andanças românticas. Pelo menos para cada um de nós mesmos.
Como eu disse, havia uma mulher no grupo. Não vou identificá-la. Mas era muito sensível e capaz de proezas devido à sua capacidade criativa. Especialmente quando estávamos no limite do prazo para o fechamento do jornal “A Noite”, que era quinzenal.
Qual será a matéria principal? Era a pergunta na roda. Sempre alguém dava uma ideia impossível e outro, uma ideia viável. A ideia viável era falar de Paracelso e sua habilidade mística, como alquimista. Foi a determinante para aquela edição específica.
Mas só isso seria pouco. Então foi sugerido, para a mesma edição, um exercício de poesia dadaísta. Cada um do grupo escrevia uma palavra esquisita em um pedaço de papel e a pessoa sorteada era obrigada a fazer uma poesia com o que lhe caía nas mãos.
De todas as poesias produzidas naquela noite, a construída pela nossa amiga foi impecável:
Meliante.
Um mancebo
Matusquela
Sentia o
Ardor
Do miasma
Nosocômio.
Perceba a sonoridade deste poema. Uma joia que saiu de uma brincadeira de absoluto improviso. Até hoje fico pensando naquela noite. Não me recordo se corremos para a redação trabalhar após tanta bebedeira.
Acho que a produção se deu no dia seguinte, mas ainda sob a influência de um delírio coletivo. Assim vivíamos e vivemos até que caiu a ficha. As contas não fechavam. Os anunciantes do jornal estavam prejudicados por algum plano econômico e deixamos de produzir o Jornal “A Noite”.
Mas nos divertimos muito. Vou tentar me lembrar dos nomes que estavam na balada: Romualdo Cruz, Fábio San Juan, Érico San Juan, Francisco do Carmo Araújo, Elias Ulrich e Ivanilde. Se esqueci alguém, mil poemas dadaístas.




