Danos pulmonores aparecem cedo em crianças com fibrose cística, diz estudo
Segundo Luiz Vicente Ribeiro, a doença pode evoluir silenciosamente, mesmo com acompanhamento clínico, e defende acesso antecipado a medicamentos modernos

Estudo da Unidade de Pneumologia Pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (ICrHCFM) da Universidade de São Paulo, publicado na revista Respiratory Research & Clinical Practice (RRCP), revelou que mais de 90% das crianças com fibrose cística apresentavam alterações estruturais nos pulmões antes dos 3 anos de idade. A pesquisa reforça a necessidade de diagnóstico precoce e de ampliação do acesso a tratamentos mais modernos para evitar o avanço silencioso da doença.
O médico Luiz Vicente Ribeiro, chefe da Unidade de Pneumologia Pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas, explicou que a fibrose cística é uma doença genética que é identificada pelo teste do pezinho. Nessa patologia, toda secreção é mais espessa que o normal, por isso é mais difícil de ser eliminada, o que desencadeia alterações no sistema respiratório, digestivo e reprodutor.
Os casos de crianças diagnosticadas com a doença têm aumentado, segundo o médico. Uma das formas de garantir a qualidade de vida dessa criança é acompanhando sua saúde pulmonar. “A fibrose cística afeta principalmente os pulmões, que é onde a gente tem o grande problema de a doença reduzir a expectativa de vida, mas ela também afeta a absorção dos alimentos, as crianças precisam tomar enzimas pancreáticas para absorver os nutrientes, é uma patologia, mas que tem um tratamento, é um tratamento bastante intensivo e nos últimos anos tem sido transformada com novas terapêuticas disruptivas” , explicou ele.
Tratamento
O tratamento tradicional busca controlar os efeitos causados pela doença, mas não impede totalmente sua progressão. Por isso, o especialista reforça a importância dos chamados moduladores da proteína CFTR, medicamentos mais modernos que atuam diretamente no mecanismo da fibrose cística e podem retardar o avanço das lesões pulmonares quando usados precocemente. Para ele, é importante que as crianças tenham acesso a essa medicação o quanto antes. “Esses medicamentos novos são muito transformadores e, quanto mais precocemente utilizados, podem trazer ainda mais benefício, inclusive na função do pâncreas dessas crianças, mas, principalmente, freando a progressão da doença no momento que a lesão pulmonar ainda é pequena”, comentou o médico.
Segundo Ribeiro, o tratamento precoce pode reduzir a carga diária de cuidados e melhorar não só a vida da criança, mas também da família, já que a fibrose cística exige acompanhamento intenso e contínuo. O acompanhamento clínico individualizado é importante para entender quando se deve realizar a tomografia. Ou seja, os médicos avaliam caso a caso de acordo com sintomas respiratórios, sinais observados na consulta para decidir o melhor momento de investigar alterações pulmonares e ajustar o tratamento.
A maior dificuldade em fornecer esses medicamentos hoje é o custo alto. Na entrevista, ele também defende que o poder público pressione a indústria farmacêutica para reduzir os preços dos medicamentos, permitindo que mais crianças tenham acesso ao tratamento. Apesar do impacto financeiro no orçamento do SUS, investir nesses remédios pode melhorar muito a qualidade de vida dos pacientes e reduzir os danos causados pela doença ao longo do tempo.
Fonte: Jornal da USP.




