Uma leitora do Estadão, que se intitula Estranha Mente, ao analisar texto de Fernando Schüler, supõe que a política feita pelos Bolsonaro está sob o manto de alguma maldição, como se forças ocultas estivessem agindo para espantar a razão e a luz do espaço em que a família e aliados diretos do ex-presidente vivem e compartilham ideias sobre o momento político.
Sempre que a maldição entra em jogo, minha mente volta rapidinho a Jânio Quadros, que renunciou à presidência da República em 1961. Ele alegava o fato de “forças ocultas” o impedirem de governar. O episódio foi marcante por assumir em seu lugar o comunista João Goulart, que veio diretamente da China para a função de mandatário maior da nação.
Nem me interessa aqui o Golpe Militar em si, que veio na sequência, mas a força oculta. Porque, se é oculta, de onde vem? Do Mato Grosso? Gordo ou magro? De qualquer altura... É uma parlenda? Seja brincadeira ou não, isso me leva também a Collor de Mello, que sofreu a maldição do irmão e da sogra.
Olha só a loucura que a IA recorda para mim sobre tal maldição: “Trata-se de uma antiga lenda política envolvendo Fernando Collor de Mello, segundo a qual a mãe de sua primeira esposa, Rosane Malta, teria lançado uma maldição contra ele em razão de conflitos familiares. Essa narrativa circulou amplamente como folclore político e nunca foi comprovada.
Paralelamente, outra história bastante divulgada surgiu anos depois: a própria Rosane afirmou, em entrevistas, que durante o governo Collor teriam ocorrido rituais de magia na residência conhecida como Casa da Dinda. Essas alegações foram feitas por ela muitos anos após o impeachment e sempre foram negadas por Collor”.
Volto aqui. Esse é o nosso Brasil político. Agora temos novamente episódios de forças ocultas, digamos assim, observadas pela leitora Estranha Mente, só que é maldição de madrasta. Pela primeira vez nas histórias infantis, vejo uma madrasta (Michelle) que não é sinistra, mas lúcida o suficiente para alertar o afilhado sobre sua conduta considerada irregular por ela. Maldição boa.
Para quem está fora do movimento político e não acompanha essas nuances, Michelle (PL) é a esposa de Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, pré-candidato do mesmo PL à presidência da República. Ela tem se sentido escanteada pelo afilhado sempre que sugere algum nome regional que ela apoia para as disputas ao Congresso Nacional, especialmente ao Senado Federal.
Flávio chega e tenta se impor com um nome diferente, de sua preferência. O último caso controverso foi no Ceará. Só que Michelle não aguentou o tranco e resolveu expor publicamente suas divergências políticas com o afilhado. Há quem acredite que ela estaria assim se credenciando para substituir Flávio na disputa presidencial, caso o 01 perca ainda mais sua popularidade, como tem acontecido.
É briga familiar, é caso de madrasta, é caso para fábula e reflexão. Estaria se repetindo o caso Collor, com antecedência, a ponto de minar o jogo de um pessoal estranho e controverso?
Caso Collor
Pedro Collor (irmão do presidente) denunciou os crimes de Collor de Mello, que estava envolvido na compra irregular de um carro russo, da marca Lada. Essa denúncia se deu no decorrer da CPI sobre PC Faria, que seria o operador de irregularidades dentro do governo. Era homem de confiança de Fernando Collor, foi deposto do cargo de presidente.
“O empresário Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor, seria o verdadeiro operador de diversos negócios atribuídos a terceiros”, relembra a IA.
O fato é que o caso PC Faria ganhou destaque nacional e sua força oculta chegou ao fim depois que foi encontrado morto (em 1996) na sua própria casa de praia, com um tiro no peito. Ele foi encontrado ao lado de sua namorada (Suzana Marcolino), que morreu da mesma maneira.
A perícia defendeu a tese de que houve duplo assassinato, colocando fim a um homem-bomba, que poderia trazer à tona casos novos, envolvendo pessoas que preferiram tomar essa sinistra decisão de eliminá-lo. São hipóteses, claro, porque nada foi confirmado. Este é o Brasil brasileiro. Quando ouço falar dos casos dos Bolsonaro, não me vem luz e sabedoria, as parlendas infantis, mas trevas e forças ocultas.
Lula
Nesse caso, Lula parece ser um iluminista, que joga com a razão. Mas a razão de Lula tem explicação. A diferença é que suas forças ocultas não são ocultas, porque têm nomes, sobrenomes e endereços. Pode-se chamar José Dirceu, José Genuíno, Delúbio Soares, Marcos Valério, Marcelo Odebrecht ou até Fábio Luiz. Marisa Letícia não pode sequer ser citada nesses episódios, porque, até onde eu sei, ela era um anjo em pessoa. Uma luz, mas que não teve a força para iluminar o caminho do presidente e tirá-lo das más companhias. O homem estava destinado a ser ele mesmo.




