O eleitor sabe que está na lona, diminuído ao extremo. Seu voto vai ser de misericórdia para consigo mesmo. Uma escolha entre atravessar um deserto sem equipamentos adequados ou ser o próprio calango desbravador de cenários arenosos.
Há os que acreditam que sua escolha será fundamental para evitar tormentas. Outros já se veem atormentados e esperam mudar isso tudo. Onde quer que se olhe, veem-se apenas candidatos tentando se agarrar de alguma forma a alguma estrutura de poder.
Quando se olha para o plano mundial, também só se enxerga potencial para ruínas. Putin trouxe a guerra para a Europa e desafia o mundo ocidental com paranoias de um ditador envelhecido e incapaz de ver a humanidade com bons olhos.
Putin é incurável e acha que o seu desejo é uma ordem. Quem não o obedece torna-se automaticamente seu inimigo. Em seu cálculo, a Ucrânia precisa sair do seu caminho para que ele possa peitar o resto dos países ligados à OTAN de frente.
É uma escalada besta, de uma besta, que encontrou líderes frágeis do outro lado e acha que o momento para abocanhar o Leste europeu é agora. Zelensky compreendeu a doença mental do ditador e tenta lhe dar porções terapêuticas enviadas por drones vorazes. Será o suficiente para conter o ímpeto do sanguinário? Ou estimulará ainda mais seu desejo de morte?
Aquele que deveria ter algum equilíbrio nesse cenário tempestuoso, para fazer o contraponto, é também outro problema grave de personalidade. Trump deve ter feito a mesma escola de Putin. Sua visão geopolítica beira a delinquência. Cria desentendimentos com a Europa e só não se alia a Putin de uma vez porque sabe que não cabem dois mentecaptos em um mesmo front.
Então ele brinca de guerra com o Irã e esfacela as velhas relações americanas com os povos islâmicos. Entende nada do assunto o Laranjão e acaba criando um ambiente hostil para toda a economia do mundo, que não consegue se equilibrar, uma vez que a cada dia há uma nova notícia-bomba no mercado, disseminada por esses líderes devassos e a bolsa oscila sem norte.
No Brasil, o cenário é pacífico comparado ao global. Exige até um Lexotan para ser suportado. Mas há, sim, problemas subliminares, uma vez que os dois líderes na pesquisa eleitoral à presidência da República não se cabem em si mesmos e prometem coisas que jamais serão realizadas. Equilíbrio fiscal com Lula, é possível? Acabar com a corrupção com Lula, é possível?
Flávio Bolsonaro é um jovem obscuro, que não presta contas para ninguém das suas falcatruas e não há quem o cobre. Seu envolvimento com Vorcaro para financiar um filme produzido para alimentar a fantasia da família (Dark Horse) é um exemplo. Parece pouco diante de um Lulinha, mas não é. Porque, se esse fio for puxado, muitas outras coisas podem aparecer. Na outra ponta, pode haver inclusive um mar de ideias idiotas e perigosas comandadas pelo seu irmão Eduardo Bolsonaro.
O perigo está solto, como um fio elétrico de alta voltagem, desencapado. Passaremos por novas experiências hostis à liberdade de expressão, com o controle de ideias? Tanto Lula como Flávio são adeptos de pensamentos autocráticos. Mas o eleitor ainda não se deu conta de que pode se aventurar em campos minados e pagar caro por causa de uma escolha errada.
O pensamento ideológico de Flávio é sem fundamento filosófico. Nem para ser considerado conservador ele presta. O pensamento de direita é um misto de convicções certas e erradas. Tem até gente boa e centrada no meio.
Já o pensamento de esquerda, conhecemos bem. A pobreza também. Será que continuaremos pobres com fantasia de grandeza? Essas eleições serão um marco para novos tempos. E pode ser que o Brasil caia na geleia geral das ideias ensandecidas. Haverá misericórdia suficiente para a ingenuidade coletiva? Hoje não estou de bem com o otimismo, mas espero que passe.



