No começo do mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que pretende reduzir o número de vacinas infantis recomendadas no País. Além de dividir em doses individuais a imunização tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, a ordem executiva retira as vacinas contra covid-19, gripe, rotavírus, hepatite A, hepatite B, meningite bacteriana e vírus sincicial respiratório (VSR). “Não se trata apenas de diminuir a quantidade de vacinas ou injeções, mas sim de aplicá-las em uma série de atendimentos”, disse Trump, que sugeriu que a tríplice viral poderia ser “bastante letal” se aplicada de uma só vez, sem citar quaisquer pesquisas ou evidências científicas.
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), “não há evidências científicas publicadas que demonstrem qualquer benefício em separar a vacina tríplice viral em três doses individuais”. A Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão que os EUA deixaram durante o governo Trump, afirmou que as mudanças anunciadas pela Casa Branca não se baseiam em evidências científicas consolidadas e que o adiamento de doses pode deixar milhões de crianças desprotegidas. O presidente e o secretário de Saúde do governo, Robert F. Kennedy Jr., também voltaram a associar vacinas e autismo, tese amplamente refutada pela ciência.
Vacinas são seguras
Segundo Marta Lopes, médica infectologista, professora sênior da Faculdade de Medicina da USP e assessora da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações do Estado de São Paulo (CPAI), a decisão do governo não é uma coisa habitual de ser feita, mas destaca que não possui um peso de lei. “É como se, em qualquer país do mundo, independentemente dos seus órgãos reguladores, como o Programa Nacional de Imunizações (PNI) no Brasil, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos, o governante da ocasião tomasse decisões à revelia desses espaços onde tradicionalmente se decide sobre vacinas, saúde e ciência.”
Apesar de não serem obrigadas a seguir as recomendações, essas sugestões podem impactar muitas famílias estadunidenses e levar ao erro ou hesitação, com uma grande exposição de crianças a doenças evitáveis, explica a professora. “Uma vacina é recomendada com base em uma série de estudos, pesquisas e discussões feitas ao longo de anos, levando em consideração a carga e o custo da doença. A compra e distribuição de imunizantes evita internações, mortes e reduz custos humanos e financeiros para o país. O paciente pode até entrar em contato com o vírus, mas desenvolverá uma forma mais leve da doença”, explicou.
Denise Morais da Fonseca, professora do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, disse que a mudança surpreende, porque os planos e calendários vacinais são pensados com base no patógeno que circula na sociedade, além de sua gravidade e risco. “Nada é elaborado aleatoriamente. Essa recomendação, do meu ponto de vista, não tem pertinência. Foram retiradas do calendário vacinal imunizações contra doenças que causam muita morbidade, principalmente em crianças. Foram retiradas rotavírus, hepatite, meningite bacteriana, vírus sincicial respiratório. O VSR é de alta circulação, responsável por muita internação infantil. Não fez sentido a retirada dessas vacinas, principalmente por serem doenças que ainda circulam.”
Além disso, a professora explica que as alegações de risco das vacinas são infundadas. “Não existe nenhum artigo científico publicado numa revista reconhecida, idônea, respeitada pela comunidade científica que comprove a relação entre os imunizantes e o autismo”, pontuou. Um estudo realizado na Dinamarca avaliou mais de meio milhão de crianças de acordo com o sexo, peso, idade gestacional no nascimento, idade de diagnóstico do autismo ou condições relacionadas, condições socioeconômicas das famílias e nível educacional da mãe. Os autores chegaram à conclusão que não houve um aumento no desenvolvimento de autismo ou de outras condições relacionadas ao espectro autista, ao compararem crianças que recebem a imunização tríplice viral e as que não foram vacinadas.
Denise reitera que a combinação de vacinas aumenta a adesão a esta e reduz significativamente o risco de evasão. “Se juntamos três vacinas em uma picada só, é necessária somente uma ida ao postinho de saúde. O pai da criança, o responsável ou até mesmo o adulto que vai se vacinar, ele terá que dispor de tempo, de enfrentar filas. Além disso, tem um custo de produção, armazenamento, aplicação, de material… Tudo isso são fatores que fazem as vacinas combinadas ter muito sentido, além de terem seus efeitos colaterais exaustivamente testados. Já se concluiu que o efeito colateral delas administradas separadamente ou juntas não faz diferença.”
Marta destaca o conforto para quem recebe a imunização, uma melhora do aspecto operacional e também a segurança das vacinas combinadas que estão disponíveis e já são amplamente utilizadas. “Tomar três injeções é muito mais desconfortável para uma criança, para quem está acompanhando a criança, do que tomar uma ‘picadinha’. Para as vacinas chegarem a essa composição houve muito estudo, em diversas populações, com diversos esquemas, para testar a eficácia e a segurança dessas vacinas. A tríplice viral entrou oficialmente no PNI em 1992, é uma vacina que tem mais de 30 anos sendo distribuída em larga escala. Além dos trabalhos que foram feitos, testando a segurança e a eficácia, temos uma importante experiência em situação de vida real, são vacinas já consagradas como seguras e eficazes.”
Como é desenvolvida uma vacina
Um calendário vacinal é elaborado com base em evidências científicas de incidência, prevalência, carga e sequelas de uma doença, com foco em uma melhor qualidade de vida para diferentes grupos etários, explica Marta. “Cada país possui sua particularidade, mas os grupos envolvidos são predominantemente as autoridades de saúde pública do país. No Brasil, por exemplo, estão envolvidos Ministério da Saúde, o Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI), a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunizações (CTAI), as sociedades médicas brasileiras, entre outros grupos, sempre apoiados por especialistas e estudos sérios.”

A CTAI é formada por representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dos conselhos federais e municipais das Secretarias de Saúde, membros das sociedades científicas, especialistas, médicos epidemiologistas, infectologistas, entre outros pesquisadores e autoridades. Vinculado ao Ministério da Saúde, avalia a epidemiologia: quais são os patógenos circulando no momento, a gravidade da doença, a mortalidade da doença, e assessora o Programa Nacional de Imunizações na tomada de decisões, na introdução de vacinas, na recomendação das melhores faixas etárias para a aplicação, da quantidade de doses, entre outros fatores que garantem a segurança e maior eficácia.
“Todas essas análises são feitas à luz da ciência, à luz de dados científicos e epidemiológicos. O calendário vacinal de um país não é algo que o presidente resolve ou que pode ser delegado a uma única pessoa” Denise Morais da Fonseca
Ana Paula Sato, membro da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações (CPAI) do Estado de São Paulo e professora do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, nos explica que o desenvolvimento de uma vacina segue rigorosos padrões científicos, éticos e regulatórios. “O desenvolvimento do produto passa por etapas pré-clínicas, por fases clínicas com estudos em seres humanos para atestar a segurança, a imunogenicidade e a eficácia do imunizante, por avaliações de licenciamento das agências regulatórias, como a Anvisa no Brasil, e mesmo após a liberação no mercado, a vacina continua sendo avaliada quanto à segurança e efetividade, na chamada fase 4 ou farmacovigilância”, explicou a professora. Além disso, Ana Paula ressaltou que todos os lotes de imunobiológicos são avaliados pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) antes de serem utilizados.
“Quaisquer eventos supostamente atribuíveis à vacinação ou à imunização são avaliados e discutidos de forma sistemática. O perfil de segurança das vacinas é acompanhado de perto desde o seu desenvolvimento e durante o seu uso na população, seja pelo produtor, seja pelo sistema de saúde via programa de imunizações ou agência regulatória”, destacou Ana Paula. Marta reitera que, para entrar no Brasil, um imunizante precisa passar por todos os passos de aprovação da Anvisa, mesmo que esteja aprovado em outro país. “O calendário vacinal não pode ser importado. As diferenças entre as vacinas recomendadas entre diferentes países e regiões se dá predominantemente pela carga da doença, pelo quanto ela se mostra significativa do ponto de vista de saúde pública”, explica a professora.
Proteção coletiva e custo-benefício
Em meio às declarações que relativizam a importância da vacinação e que contestam a eficácia e segurança dos imunizantes, os Estados Unidos enfrentam o pior surto de sarampo dos últimos 35 anos. São mais de 2.300 casos confirmados de uma doença considerada erradicada pelo país no começo do século. Kennedy Jr. defendeu que as mudanças propostas visam a dar aos pais a opção de escolha, e não proibir o acesso às vacinas infantis. Marta enfatiza que a vacinação é uma medida essencialmente coletiva, e não se trata de uma escolha individual.
“A vacinação, quer a pessoa admita ou não, envolve um processo coletivo. Quando a pessoa escolhe não vacinar o seu filho ou que não vai se vacinar para o sarampo, por exemplo, ela está correndo o risco de ter sarampo, que pode ser grave ou não para ela individualmente, mas ela se torna transmissora do sarampo. O sarampo é uma doença altamente transmissível, admite-se que uma pessoa com sarampo contamina até 18 pessoas suscetíveis”, pontuou. A preocupação maior está ligada às gestantes, idosos, pessoas imunocomprometidas e outros grupos de risco, que não podem muitas vezes receber a imunização: Essa “decisão individual” interfere na saúde de outras pessoas, por conta do indivíduo que não quis se proteger da doença.
Desinformação
Nunca foi tão fácil buscar e encontrar informações, mas também nunca foi tão difícil checar fontes de informações, comenta Denise.
A professora também reitera a utilização de canais oficiais da sociedade científica para transmitir conhecimentos. “Precisamos nos aproveitar de todos os canais de comunicação atuais para difundir informações, responder adequadamente, sem críticas, a todas as dúvidas que existirem”, pontuou. Denise ressalta a importância da divulgação científica por instituições de pesquisa e do desenvolvimento de estratégias vigilantes, que chequem as informações publicadas nas redes. “O investimento em jornalismo científico deve aumentar, para que mais pessoas capacitadas busquem, chequem e validem as informações. Com isso, combater e fazer um enfrentamento direto com a desinformação.”
Matéria: Davi Milani | Jornal da USP.









