Depressão e ansiedade são o segundo maior motivo de licenças trabalhistas no Brasil
Avanço da tecnologia na sociedade trouxe novos desafios em termos de diagnóstico e enfrentamento

Em 2025, o Brasil bateu o recorde de maior número de afastamentos no trabalho por transtornos mentais em uma década, superando o próprio recorde no ano anterior. Os dados do Ministério da Previdência Social mostram um crescente adoecimento mental do brasileiro: ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e já estabelecem o segundo maior motivo de afastamentos no País, atrás apenas de doenças da coluna.
Números divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), fatores de risco psicossociais originam perdas anuais de quase 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALY), uma medida de saúde pública usada para quantificar o impacto total de doenças e lesões. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam o Brasil como o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6% da população convivia com o transtorno quando a pesquisa foi feita. A organização também estima que, numa escala global, 12 bilhões de dias úteis são perdidos todos os anos por depressão e ansiedade, uma perda de US$1 trilhão por ano.
Para Rodrigo Martins Leite, médico psiquiatra, professor assistente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (IPq/FMUSP) e coordenador do grupo de Psiquiatria Social e Cultural do IPq (Prosol), os indivíduos enfrentam uma pressão cada vez maior por performance, seja no trabalho, universidade ou outros setores da sociedade. “A necessidade de adaptação às demandas sociais é crescente. Em paralelo, existe uma sensação natural de desadequação, fruto de um aumento excessivo da carga de trabalho e exigências.”
Tecnologia promove avanços e novos desafios
O professor destaca que, no contexto da sociedade atual, que tem se modificado em uma velocidade nunca antes verificada, todos estão “tentando correr atrás do prejuízo”. “De uma forma geral, todos estão se sentindo aquém da expectativa do trabalho, do estudo. Por isso, as pessoas têm também buscado formas de dar respostas a isso, de melhorar a performance cognitiva, emocional, de tolerar melhor o estresse, os desafios. Muito da atuação do profissional de saúde mental tem se referido a esses problemas, num cenário cada vez mais demandante e cada vez menos humanizado”, defende Martins Leite.
Nesse contexto, a saúde mental entra como uma ferramenta adaptativa, explica o médico. Existe uma expectativa de que os profissionais de saúde mental ofereçam essas ferramentas, com uma sociedade de sintomas cada vez mais generalizados, como dificuldades de atenção e concentração. “Independentemente da pessoa ter ou não um diagnóstico, as pessoas precisam responder, performar, e buscam remédios para isso. O uso de prescrições em pessoas saudáveis, chamado de doping em saúde mental, para lidar com as demandas sociais, tem se naturalizado. As pessoas têm precisado se medicar para lidar com circunstâncias cada vez mais desafiadoras, enquanto fatores de proteção e saúde mental ficam em segundo plano. As pessoas não têm mais tempo para lazer, para atividade física, para vida comunitária. Tudo isso acaba tendo um peso no final do dia, o que gera um mecanismo de adoecimento, do ponto de vista da saúde mental.”
Andrés Antúnez, professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, destaca a rápida evolução da tecnologia como agente na transformação da saúde mental e do sofrimento humano, com efeitos positivos e negativos. “Vivemos em um mundo em que as pessoas se relacionam menos presencialmente, sempre existe um aparelho tecnológico no meio dessas relações. Principalmente para crianças e jovens, existe um mundo de imagens, de cores, de notícias, tudo se espalha muito rapidamente, e é fascinante. Se não fosse fascinante, ninguém passaria horas e horas buscando informações em celulares e computadores.”
“A humanidade e a tecnologia estão avançando muito rápido, muito mais rápido do que a possibilidade de ações terapêuticas humanizantes, que a medicina, que a psicologia, que assistência social, que a terapia ocupacional podem ofertar. Acabamos por oferecer algo mais paliativo, mais formativo”, destacou o professor. “Pela facilidade de acesso à informação, as pessoas conseguem ampliar seu conhecimento e às vezes querem determinados remédios, porque agem rapidamente. E não são placebos, são remédios que realmente afetam, que agem de maneira bioquímica. Quando usados sem orientação médica, podem trazer efeitos colaterais e grandes dificuldades.”
Leite comentou sobre uma popularização dos diagnósticos, o que leva a um excesso deles, especialmente quando as pessoas não se baseiam em avaliações feitas por profissionais. “Os diagnósticos têm sido buscados em redes sociais, no TikTok, no Instagram, em fontes duvidosas. Um princípio essencial do diagnóstico é que ele não deve ser autorrealizado, você precisa de um profissional para te observar, para ouvir seu relato, para poder minimamente pensar em um diagnóstico.”
O psiquiatra ainda destaca uma impressão da sociedade de que o diagnóstico psiquiátrico é rápido, fácil de ser obtido. “Não é verdade. Existem casos que demoram diversas consultas, meses, anos e até eventualmente casos em que não se chega a um diagnóstico definitivo. O diagnóstico acaba muitas vezes sendo um engessamento das possibilidades do indivíduo mudar suas atitudes em relação a si mesmo, em relação à vida, justificando comportamentos e atitudes. A justificativa, por si só, pode ser paralisante, limitante de mudança: com um diagnóstico bem feito, bem realizado, pode dar uma dimensão de como lidar consigo de uma forma mais suave, cuidadosa; em outros casos, pode ser um disfarce, uma forma das pessoas de se isentarem de algumas responsabilidades, sem relação com algum diagnóstico psiquiátrico.”
Por outro lado, Leite destaca que a tecnologia facilitou o acesso à informação, o que incentivou pessoas a buscarem tratamento. “Existe uma maior transparência em relação à saúde mental. Em um momento histórico, as pessoas tinham vergonha de relatar que tinham algum problema psiquiátrico ou que tomavam medicação. Hoje é um cenário oposto, com uma grande redução global do estigma associado a problemas de saúde mental.”
Ao mesmo tempo, o profissional alerta para o uso excessivo de telas. “O excesso pode ser particularmente ruim para algumas populações, como crianças, adolescentes e idosos. A exposição excessiva à tecnologia significa que essa criança, esse adolescente, está convivendo menos com colegas, tendo uma menor interação social, privando-se de convívio social. Tudo isso limita aquisição de repertório, de comportamentos, de um arsenal de estratégias de adaptação na vida. Em idosos, pode mascarar problemas como solidão, isolamento, que são marcadores de vulnerabilidade nessa população.”
Leite analisa uma existência do indivíduo muitas vezes mais virtual do que real, e considera um sintoma da sociedade e da civilização humana irreversível. “Estamos conectados com WhatsApp, Facebook, com as redes, transitando a todo tempo entre o real e o tecnológico, o virtual. Não podemos abrir mão da tecnologia, então é importante ter uma noção crítica de que, se a tecnologia contribuir para um isolamento, para um retraimento, para um aumento da solidão, é certamente um caminho em que a tecnologia não está sendo saudável”, pontuou.
Desigualdades e tendências sociais afetam a saúde mental
Tendências de consumo e aspectos mercadológicos em ascensão na sociedade, acentuados pelas mídias sociais, também afetaram o mercado da saúde, particularmente da saúde mental. Leite explica que o diagnóstico se tornou, em certo sentido, uma mercadoria. “As pessoas compram diagnósticos, o que dificulta muito o tratamento das pessoas em algumas situações. Muitas chegam para a avaliação já tendo comprado uma ideia de diagnóstico, de medicamento, e o profissional tem tido muita dificuldade de dissuadi-las dessas ideias. Isso prejudica o vínculo terapêutico, e acaba até mesmo inviabilizando o tratamento”, pontuou.
“Os profissionais da saúde também estão inseridos nessas lógicas de consumo. Por ser algo inerente, muitas vezes não sabemos lidar com essa nova realidade. Como abordar essas questões dentro dessa nova perspectiva de rotulagem e diagnóstico excessivo? Antes, a hipermedicalização era um ônus dos médicos. Mas agora é um lema adotado pela própria sociedade. Os pacientes já chegam se medicalizando, se rotulando, se diagnosticando. É uma inversão do que usualmente se pensa, relacionada às mudanças sociais de pressão, exigência e necessidade de adequação.”
O professor Antúnez destaca também o fator coletivo do sofrimento humano. “A questão da saúde mental não afeta somente o indivíduo que tem determinado diagnóstico ou transtorno. O sofrimento afeta toda uma família, todos os amigos e colegas em volta. Nesse sentido, somos todos responsáveis por essa saúde; infelizmente, não há tratamento para todos”. Pontuou também as diferenças no tratamento particular e público: a probabilidade de sucesso no tratamento de uma pessoa com condições de ser acompanhada por um psiquiatra ou psicoterapeuta, muitas vezes de ser acompanhada por mais de um profissional ao mesmo tempo, é “muito grande”. Na saúde pública, isso não acontece, muitas vezes sem a continuidade de cuidados que as pessoas necessitam.
“Há um interesse financeiro em medicalizar o sofrimento humano. Partindo do pressuposto, em questões mais profundas do sofrimento humano, de que não existe vida sem sofrimento e que não existe sofrimento sem vida: existe algum medicamento para a vida? Existe algum medicamento para tornar uma pessoa mais feliz? Eu diria que o principal medicamento é melhorar as relações humanas, o respeito pelas diferenças”.
Leite pontua que a abordagem de questões de saúde mental recebe um recorte, feito a partir de um público-alvo de classe média e classe média-alta, com condições para custear um tratamento, comprar medicação, que tem um acesso facilitado. “Não podemos esquecer que estamos em um país dos mais desiguais do globo. O impacto das vicissitudes sociais, dos determinantes sociais, tem um peso muito grande. A pobreza, o desemprego, a exposição à violência, as más condições de habitação, más condições ambientais, alimentação inadequada – todos os problemas que a população menos favorecida enfrenta diariamente – estão associados a problemas de saúde mental. Isso é amplamente documentado.”
Para o professor, isso escancara uma limitação da política pública de oferecer acesso a tratamento para pessoas que sofrem com uma série de barreiras no acesso ao sistema público de saúde. “O sistema público tem se mostrado quantitativamente aquém da real necessidade da população. Existe um atraso, uma decalagem entre a expansão da rede de serviços de saúde mental e a necessidade populacional crescente. A saúde mental é mutável e acompanha as mudanças sociais. Em um momento de mutação das demandas em saúde mental, a política pública é um gargalo importante, especialmente de investimento”, enfatizou Leite.
Políticas públicas e investimentos insuficientes
Uma análise do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) sobre o orçamento inicialmente fixado e o autorizado ao longo do ano de 2025 pelo Executivo Federal, destinado ao Ministério da Saúde, mostrou uma forte queda nos investimentos em saúde no período. Entre a dotação inicial e atualizada desse ano, ocorreu uma retração de 34,7% em seu volume de recursos, enquanto as despesas de custeio cresceram 5,6%, movimento também identificado ao longo de 2023 e 2024.
Os investimentos em saúde caíram um terço durante 2025, com a maior parte dos recursos sendo retirada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Entre a dotação inicial e a atualizada do orçamento federal do SUS, houve um incremento de cerca de R$ 6,8 bilhões (+2,9%), de R$ 233,3 bilhões para R$ 240,1 bilhões. Todo o recurso incremental foi destinado para as despesas correntes do SUS (+5,6%), concentrado nas despesas obrigatórias, cuja dotação se expandiu de R$ 171,9 bilhões para R$ 180 bilhões. Inversamente, os recursos inicialmente destinados a investimentos no SUS, isto é, à ampliação de sua capacidade instalada, recuaram mais de um terço (-34,7%) ao longo do ano, de R$ 15,6 bilhões para R$ 10,2 bilhões.
Elementos da despesa (em R$ bilhões)Dotação Inicial (A)Dotação Atual (B)Diferença (B-A)Despesas CorrentesR$ 217,7R$ 229,9R$ 12,2InvestimentosR$ 15,6R$ 10,2-R$ 5,4Total GeralR$ 233,3R$ 240,1R$ 6,8
Dotação Inicial e Dotação Atualizada do orçamento federal da saúde em 2025, segundo elementos da despesa (em R$ bilhões) – Tabela: IEPS/SIAFI
Leite criticou o porcentual do orçamento total de saúde destinado à saúde mental no País. “Em torno de 2% do orçamento é utilizado, que mostra o quão secundarizada é nossa política de saúde mental, abaixo das recomendações internacionais e abaixo de países europeus, por exemplo, que investem de 5% a 8% do orçamento total em saúde. Necessitamos de uma melhor coordenação dentro do sistema de saúde, de forma a poder identificar prioridades e populações mais vulneráveis. Precisamos de um aprimoramento para que o sistema seja mais proativo e menos reativo, que possa propor estratégias, projetos e programas voltados a populações específicas.”
“Temos uma das políticas de saúde mental mais avançadas do mundo. Com toda a privação de recursos, os princípios da nossa política de saúde mental são, em termos de legislação protetiva dos direitos das pessoas com transtornos mentais, dos mais modernos do mundo. Isso é um marco histórico importante, mas não podemos deixar de pensar em caminhar para os desafios que já se apresentam, que já estão sendo discutidos”, defendeu o professor.
O psiquiatra pontua que o engessamento orçamentário dificulta propostas mais robustas que atendam às necessidades sociais de uma forma abrangente. “Não é possível fazer saúde com 2% do orçamento público sendo destinado para a saúde mental. Existe muita boa vontade entre os profissionais, que são extremamente comprometidos com a causa, mas esbarramos em uma série de limitações estruturais que precisam ser cada vez mais ventiladas, para que as pessoas saibam que os profissionais, das mais diversas áreas, trabalham em condições adversas, num cenário de muita privação e desinvestimento.”
O médico ainda destacou uma falta de ações específicas para a população idosa, com um crescente envelhecimento da sociedade brasileira. “Estão aumentando os problemas de saúde mental específicos para essa faixa etária. Destacaria as demências, quadros de depressão, transtornos bastante presentes nessa faixa etária. Boa parte da política de saúde mental foi pensada para adultos e, mais recentemente, crianças e adolescentes. Acho uma falha considerável não termos grandes políticas específicas para o idoso.”
“Saúde mental é mais do que uma política de saúde. Ela tem relação com os sistemas econômico, legislativo e também político. Quando falamos de aposentadoria, estamos lidando com um idoso progressivamente pobre, doente, incapacitado e certamente com sofrimento mental associado por conta de todas essas questões.”
Leite também pontuou problemas em políticas de prevenção efetiva, com o crescimento das taxas de suicídio no Brasil, em contraste com uma diminuição nas taxas globais. “Não temos uma política de prevenção ao suicídio, mesmo sabendo que as taxas têm crescido. Não temos algo propositivo, formalmente constituído para fazer frente a esses desafios mutantes da saúde mental. Existem também outras políticas públicas que impactam a saúde mental, mas que não são necessariamente de saúde. Por exemplo, políticas de moradia: vários estudos falam que ter onde morar, por mais prosaico que possa parecer para quem tem onde morar, é um fator protetor para a saúde e para a saúde mental”, destacou o professor.
“O estigma acerca da saúde mental ter se reduzido não significa que superamos períodos históricos de desassistência, especialmente em populações vulneráveis. Esses grupos permanecem vulneráveis, e continuam lidando com o sofrimento mental das formas que são disponíveis”
“Ter um teto onde morar, onde se esconder da violência, da exposição social, é essencial e também um direito humano fundamental. Estamos diariamente expostos à violência: de gênero, contra populações minoritárias, violência urbana de uma forma geral. Lidamos com níveis extremamente tóxicos de exposição, muito além do minimamente aceitável. Isso com certeza impacta a saúde mental da população.” Leite destacou também o papel da educação, que tem que estar preparada para lidar com esses desafios. “Não é só a política de saúde mental, mas um conjunto de políticas públicas, uma forma intersetorial, uma integração de diversas áreas que podem contribuir para a diminuição de desigualdades e, consequentemente, do adoecimento mental na sociedade”, completou.
Matéria: Davi Milani | Jornal da USP.





