Desastre ambiental causado por chuvas em Juiz de Fora alerta sobre adaptações urbanas a eventos climáticos extremos
Devastação na zona da mata mineira, que já fez mais de 60 vítimas, foi o terceiro grande evento em apenas quatro anos.
O número de vítimas causadas pelas fortes chuvas na região da Zona da Mata alcançou nesta sexta-feira a marca de 64 mortos, segundo dados do Corpo de Bombeiros em Minas Gerais. Desse total, 6 óbitos ocorreram na cidade de Ubá e 58 no município de Juiz de Fora. Juiz de Fora, em especial, foi severamente castigada, com desabamentos em diferentes bairros. Desde a terça-feira passada, a cidade está em estado de emergência, e o volume acumulado de chuva até quinta-feira (26) alcançou 733,6 mm, número que é 331% superior à média histórica climatológica para o mês de fevereiro, segundo dados do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia).
As chuvas intensas que se abateram sobre a região foram causadas por um fenômeno atmosférico conhecido como supercélula. Para compreender a dinâmica das supercélulas, é preciso explicar primeiro o que ocorre nas tempestades convectivas: estas se formam quando uma massa de ar quente e úmido sobe rapidamente para a atmosfera, gerando nuvens cumulonimbus. Surgem assim os famosos temporais de verão, com rajadas intensas de vento, raios e chuvas fortes que rapidamente se dissipam. Agora, imagine essa tempestade convectiva acompanhada de uma rotação interna, ou mesociclone, em seu interior; isso é a supercélula.

Enner Alcântara, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais (Unesp/CEMADEN), explica que esse sistema atmosférico pode perdurar por várias horas sem perder intensidade ao longo de seu deslocamento, gerando rajadas fortes de vento, granizo de grande tamanho e, em alguns casos, tornados. Ele pondera que ainda é cedo, no entanto, para associar o fenômeno da formação da supercélula em Juiz de Fora ao panorama mais amplo das mudanças climáticas.
Existe um consenso entre a comunidade científica de que o aquecimento global aumenta a capacidade da atmosfera para reter vapor d’água, elevando o potencial para chuvas intensas e, consequentemente, aumentando a ocorrência de tempestades extremas. Por outro lado, há incertezas quanto às supercélulas, já que a formação delas não depende apenas de calor e umidade, mas também do comportamento dos ventos.
Juiz de Fora, Petrópolis e Rio Grande do Sul: três tragédias em apenas quatro anos
A devastação que varreu Juiz de Fora é o mais recente episódio de uma série de graves desastres ambientais registrados no Brasil nos últimos anos. Em 2022, desabamentos na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro, resultaram em mais de 200 mortos. Em 2024, as chuvas afetaram 497 municípios do Rio Grande do Sul, deixando casas inteiras submersas no estado e provocando 184 vítimas naquele que foi considerado o maior desastre natural da história do estado.
Ou seja, assistimos nos últimos quatro anos a uma espécie de rodízio de eventos extremos devastando diferentes estados. Mas Alcântara ressalta que esses tristes episódios não estão associados aos mesmos mecanismos atmosféricos, uma vez que, devido às dimensões continentais do Brasil, existe uma diversidade correspondente de regimes climáticos regionais.
“Os sistemas atmosféricos se deslocam ao longo do ano, e cada região possui um período sazonal mais favorável à ocorrência de chuvas intensas”, diz Alcântara. “Quando essa variabilidade natural se combina com um cenário de intensificação de extremos hidrometeorológicos – amplamente associado ao aquecimento global –, diferentes estados passam a registrar eventos severos em anos distintos.” Daí a sensação de alternância geográfica, explica.
Os três episódios, no entanto, estão relacionados em outro aspecto: as características geomorfológicas e urbanas das cidades envolvidas. Esses fatores resultam em um aumento da exposição da população ao risco. Nesses acontecimentos, é possível apontar a construção de casas em encostas, margens de rios e áreas de baixo escoamento, geralmente ocupadas por populações em condições de vulnerabilidade social.
É por isso que o pesquisador enfatiza a importância de que o estudo acadêmico sobre a problemática dos desastres se concentre em avaliações de risco que considerem não apenas o fenômeno meteorológico, mas também aqueles que estão mais expostos e menos protegidos, contribuindo para políticas públicas mais direcionadas e eficazes.
O desafio da preparação das cidades para enfrentar eventos extremos
Em entrevista ao UOL News, Margarida Salomão (PT), prefeita de Juiz de Fora, afirmou que a cidade estava bem estruturada para receber tempestades, com plano de contingência e também câmeras espalhadas pela cidade. No entanto, a prefeita diz que o desastre foi maior do que o esperado e agravado pelas condições geomorfológicas da região, tornando a reconstrução dos bairros uma tarefa ainda mais desafiadora.
“Quando uma autoridade afirma que ‘todas as precauções foram tomadas’ e, ainda assim, ocorre uma tragédia, isso sugere que houve mobilização institucional, mas que a magnitude do evento superou a capacidade de proteção disponível”, analisa Alcântara.
O pesquisador explica que a preparação reduz perdas, mas não elimina o risco. “Mesmo cidades organizadas podem sofrer impactos severos se o evento ultrapassar os limites da infraestrutura e do planejamento urbano.”
Para Alcântara, a gestão de risco de qualquer cidade em eventos extremos depende de um sistema integrado que combine previsão meteorológica, monitoramento contínuo, protocolos claros de alerta, planos de evacuação e comunicação eficiente com a população. Além disso, o novo cenário climático exige adaptações estruturais adicionais.
Partindo dos acontecimentos recentes em Juiz de Fora, o pesquisador elaborou um gráfico relacionando as medidas que devem ser priorizadas pelos gestores públicos a fim de evitar o quadro de devastação causado por eventos climáticos extremos. Dentre os exemplos de iniciativas positivas de adaptação adotadas na cidade, Alcântara cita a restauração florestal para proteger encostas, a ampliação e limpeza de canais e galerias para melhorar a infraestrutura de drenagem e o monitoramento do nível do Rio Paraibuna, entre outros pontos (veja a seguir).

Para Alcântara, a gestão de risco de desastres naturais depende de um sistema integrado que combine previsão meteorológica, monitoramento contínuo, protocolos claros de alerta, planos de evacuação e comunicação eficiente com a população.
As cidades devem se tornar mais verdes para evitar desastres. Isso pode envolver a implantação de parques lineares, a recuperação de várzeas e matas ciliares, a ampliação de áreas verdes urbanas e a proteção de encostas por meio de vegetação nativa. Essas são opções que visam mitigar o problema ao aumentar a infiltração da água no solo e reduzir a velocidade do escoamento superficial, além de estabilizar terrenos suscetíveis à erosão e deslizamentos.
O docente também ressalta a necessidade de pensar em políticas habitacionais para retirar as famílias que vivem em áreas de risco. E mesmo os sistemas de alerta de tempestade, que já fazem parte do cotidiano das grandes cidades, precisam estar vinculados a critérios técnicos claros, como volumes acumulados críticos de chuva e níveis de saturação do solo. Esses parâmetros, por exemplo, poderiam acionar evacuações preventivas.
“A questão central não é apenas reagir ao próximo evento, mas redesenhar a cidade para conviver com extremos mais frequentes e intensos. O preparo não impede a ocorrência da chuva, mas define a dimensão de seus impactos”, conclui Alcântara.
Matéria: Carolina Fioratti | Jornal da Unesp




