Descoberta pode prevenir complicações da apneia do sono
Alterações na microcirculação sanguínea na faringe podem indicar evolução de gravidade da doença
Pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP identificaram alterações na microcirculação sanguínea no tecido muscular da faringe de pacientes adultos, jovens, não obesos e com apneia obstrutiva do sono. Essas alterações estavam relacionadas à evolução da gravidade da doença.
A descoberta poderá aprimorar o tratamento da apneia obstrutiva do sono, podendo ainda prevenir a progressão das alterações na microcirculação e, consequentemente, o aparecimento de complicações cardiovasculares e cerebrais relacionadas.
A pesquisa é descrita em artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, e pode ser lida diretamente aqui.
De acordo com o estudo, o espessamento das paredes dos vasos sanguíneos, caracterizado como hipertrofia externa, sugere uma possível adaptação à progressão da apneia, além de um provável fluxo “caótico” do sangue durante o sono.
“A apneia do sono é um distúrbio respiratório, particularmente prevalente em adultos de meia-idade e mais velhos, caracterizado por eventos repetitivos de estreitamento das vias aéreas superiores (cavidade nasal, faringe e laringe)”, explica a médica pesquisadora Kristine Fahl, primeira autora do artigo, que realizou doutorado no programa de Pós-Graduação de Otorrinolaringologia da FMUSP. “Esses estreitamentos causam redução da ventilação pulmonar, queda nos níveis de oxigênio no sangue (dessaturações de oxi-hemoglobina) e despertares recorrentes durante o sono.”
“Mecanicamente, observam-se movimentos de obstrução parcial ou total da faringe (garganta), chamadas apneias ou hipopneias obstrutivas, seguidos por repentinas reaberturas da via aérea superior, que ocorrem inúmeras vezes durante uma noite de sono”, descreve a pesquisadora. “A apneia do sono está fortemente ligada a complicações cardiovasculares, como hipertensão, arritmias, doenças coronarianas e AVC e à aterosclerose. Além disso, pode provocar déficits neurocognitivos e comportamentais significativos, afetando memória, humor, causando insônia e sonolência diurna excessiva, e até favorecer o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.”
De acordo com Kristine Fahl, esses problemas são causados principalmente pelas oscilações e recuperações repetidas de oxigênio (hipóxia intermitente), fragmentação do sono, variações de pressão e ativação simpática (resposta do corpo a situações de estresse), que resultam em disfunção endotelial (nas células que revestem os vasos sanguíneos), rigidez arterial, inflamação e aterogênese precoce (lesões nas artérias).
“O objetivo da pesquisa foi determinar se a gravidade da apneia do sono promove alteração na microcirculação das vias aéreas superiores em pacientes não obesos, conforme indicado pelo processo de adaptação à doença”, enfatiza. “Também foi verificado se há aumento nos marcadores de ativação endotelial nas paredes da microcirculação e no tecido muscular circundante.”
Por que a microcirculação importa
“A microcirculação é uma complexa rede de vasos sanguíneos de pequeno diâmetro, essencial para o transporte de oxigênio e nutrientes, e a remoção de resíduos metabólicos”, relata a pesquisadora. “Esses pequenos vasos, incluindo as arteríolas, contribuem significativamente para a resistência ao fluxo sanguíneo no corpo. Isto tem importância no controle da pressão arterial, entre outras funções em nosso organismo.”
Para isolar os efeitos específicos da apneia do sono na microcirculação e nos marcadores de ativação endotelial, os pesquisadores optaram por focar o estudo em pacientes não obesos. “Essa escolha foi crucial para evitar que a obesidade, uma condição já conhecida por causar inflamação e disfunção endotelial, confundisse os desfechos, permitindo que os resultados observados fossem atribuídos exclusiva e precisamente à doença”, enfatiza Kristine Fahl.
De acordo com Kristine, a análise morfométrica de 319 arteríolas (oito por pessoa) revelou que pacientes com apneia grave apresentavam paredes mais espessas em comparação com os de apneia leve, com uma correlação positiva entre o índice de apneia-hipopneia e a espessura da parede da arteríola. “No entanto, em um total de 1.872 arteríolas analisadas, a pesquisa não detectou aumento nos marcadores de ativação endotelial com a gravidade da doença, tanto nas paredes das arteríolas quanto no tecido muscular.”
Prevenção e tratamento
A pesquisadora ressalta que o achado sobre a evolução da apneia é de grande relevância, pois aponta para um remodelamento para fora, ou excêntrico, na microcirculação das vias aéreas superiores, que ocorre mesmo antes da detecção de marcadores de disfunção endotelial, e um possível turbilhonamento do fluxo do sangue no sono. “Esse processo é particularmente interessante por preservar a luz [espaço interno] dos vasos sanguíneos, uma característica também observada em condições adaptativas como a gravidez e o treinamento físico em atletas”, acrescenta.
Segundo Kristine Fahl, o resultado da pesquisa tem implicações significativas para o tratamento da apneia. “As mudanças na pressão das vias aéreas superiores e a oscilação do fluxo sanguíneo nas paredes das artérias, durante o sono, estão intrinsecamente ligadas a alterações microcirculatórias”, observa. “Isso reforça a urgência, para profissionais de saúde e para a população, de tratar a apneia a fim de mitigar a progressão dessas disfunções e o consequente avanço da doença, prevenindo o surgimento de condições cardiovasculares, como a hipertensão arterial, antes mesmo de se manifestarem”, diz.
Para suprir a atual lacuna científica recomenda-se a elaboração de novos estudos que visem a gerar evidências robustas, sugere Kristine Fahl. “Em um futuro próximo, essas evidências poderão fomentar o desenvolvimento e aprimoramento das políticas públicas de saúde vigentes, além de uma linha de cuidado abrangente para o tratamento dos distúrbios de sono no Sistema Único de Saúde (SUS)”, finaliza.




